Publicado 03 de Julho de 2015 - 18h49

ÍíCecília Polycarpo

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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O interesse do economista americano James Kahn na degradação ambiental da Amazônia ocorreu de forma inusitada: foi ao ver dois índios yanomamis levados pelo cantor Sting a um programa de entrevistas, no início da década de 90, que ele resolveu se aprofundar nos impactos causados pelo desenvolvimento da região Norte. Mais de duas décadas depois, Kahn se tornou um dos principais especialistas em desenvolvimento sustentável e valoração ambiental do mundo. O coração de todo seu trabalho está na Amazônia, onde desde 1992 realiza pesquisas sobre compensações econômicas e ambientais a comunidades afetadas pelo desmatamento e transporte de petróleo e gás pela floresta. Agora, sua nova bandeira é dissuadir o governo brasileiro a construir 58 hidroelétricas nos rios da Amazônia. Este foi um dos temas que Kahn abordou em palestra no Instituto de Economia da Unicamp na última quarta-feira.

Em entrevista ao Correio Kahn explicou que sou trabalho desconstrói um das premissas da economia tradicional, de que a preservação do meio ambiente é um luxo muito caro para a população pobre, principalmente em comunidades onde as atividades realizadas são somente para subsistência. Durante a trajetória de Kahn no País, percorrendo cidades do Amazonas, grupos que sobrevivem do mangue no Rio de Janeiro e comunidades ribeirinhas do Rio Paraíba do Sul, o economista chegou a conclusão de que a ecologia é importante para essa população, particularmente entre as classes sociais mais baixas de países em desenvolvimento, como o Brasil.

Correio: Como surgiu o interesse em desenvolver trabalhos de valoração ambiental no Brasil?

James Kahn: Estava na academia, na esteira, quando começou a passar o programa de entrevistas, que sempre tem um show no final. Naquele dia, o convidado era o Sting, que levou dois índios yanomamis no palco. E ele falou que a dívidas externas de países em desenvolvimento era a principaç causa de desmatamento da Amazônia. E eu fiquei intrigado com aquela informação. Decidi fazer uma pesquisa das causas reais. Na época, estava dando aulas na Universidade de Nova York. Em seguida, fui para a universidade do Tenesse, em Knoxville. Knoxville é cidade irmã de Manaus, e tinha uma parceria com a Universidade Federal de Manaus. Por isso fui convidado para ser professor colaborador em 1992.

Correio: Qual foi seu primeiro projeto ou pesquisa na Amazônia?

James Kahn: Eu desenvolvi um sistema de incentivo econômico de manejamento das florestas. Funciona da seguinte forma: empresas com atividades econômicas na Amazônia pagam uma espécie de “multa” antes de começar seus trabalhos. O dinheiro é devolvido se a empresa respeita a floresta, de acordo com regras preestabelecidas. É um incentivo econômico criado para fomentar a preservação.

Correio: Sua equipe também foi responsável por diversas recomendações antes da construção do gasoduto Urucu-Coari-Manaus. Quais foram elas?

James Kahn: Meus colegas na Ufam, Carlos Freitas e Alexandre Rivas, ganharam projetos importantes da Petrobras. Um deles foi de fazer um levantamento dos impactos ambientais do gasoduto em Manaus, e também no transporte de petróleo. Isso foi em uma época em que a Petrobras ainda incentivava projetos desse tipo. Então eu fui convidado, e nós fizemos um grupo de recomendações sobre o gasoduto. Há algumas áreas que têm um micro ecossistema muito único. E seriam áreas justamente onde o gasoduto passaria. Temos lá também muitas áreas arqueológicas da era pré-colombiana. Por isso fizemos recomendações para o traçado do gasoduto mudar e evitar essas áreas. Pedimos também para evitar estradas e ruas para manutenção das tubulações. Hoje, eles usam helicópteros e robôs. Mas isso era uma época em que a Petrobras dava resposta a demandas.

Correio: Como está o Brasil em relação ao desmatamento hoje?

James Kahn: Em muitas áreas, o Brasil fez progressos importantes. O desmatamento da Amazônia diminuiu muito. Cerca de 80% do nível de 10 anos atrás. Alguns convênios feitos pelos governo foram fundamentais. Um deles foram para fornecedores não comprarem soja de áreas que foram desmatadas depois de 2007. Outro foi para não se comprar carnes de pastos que foram desmatados depois de 2008. Todos esses acordos começaram quando a Marina Silva era Ministra do Meio Ambiente. Ela tinha uma preocupação genuína e urgente com a questão do desmatamento. Foram avanças importantes, feitos na hora certa.

Correio: Mas você tem ressalvas muito grandes em relação a construção de usinas hidrelétricas na região Norte. Quais são elas?

James Kahn: Acredito que um aspecto ruim da administração do Lula e depois da Dilma foi o plano ambicioso que eles fizeram de construção de hidrelétricas na região da Amazônia. O governo federal tem um projeto de fazer 58 hidrelétricas, que vão arruinar o ecossistema dos rios. Os sistemas irão fragmentar todas a base de rios da Amazônia. Vou explicar melhor. O rio, todos os anos, sobe e desce cerca de 15 metros, em época de chuvas e de seca. Quando o leito está alto, ele se conecta através de diversas lagoas. E quando a água desce, as lagoas ficam isoladas, sem conexão com os rios. Os peixes da Amazônia vivem em lugares diferentes durante suas vidas. Eles usam rios e áreas diferentes para reprodução. A fragmentação dos rios impede a circulação dos peixes. Além disso, a cheia leva sedimentos importante, nutrientes para as margens dos rios. Comida para diversas espécies. Isso também deve acabar. E tem ainda o impacto climático, que também será grande.

Correio: Você prevê extinção de espécies?

James Kahn: Sim. Os pesquisadores com quem eu trabalho falam sim em extinção de muitas espécies. Há ainda o processo de extinção de longo prazo. O desmatamento que foi feito há 10, 15 anos, vai extinguir animais no futuro. São impactos de médio e longo prazo. E pode ser ainda pior porque outros países que integram a Amazônia como a Colômbia, o Peru e a Bolívia têm projetos de construção de hidroelétricas.

Correio: Qual seria a matriz energética mais adequada para a região Norte então?

James Kahn: Existe uma mentalidade dominante. Nos Estados Unidos, eles acham que só porque sempre utilizaram carvão para produzir energia, eles podem continuar. A mesma coisa acontece no Brasil. Só porque a matriz de energia é a água, pela quantidade de rios, há uma suposição que essa é a única maneira de se ter energia. Mas acho que na região Norte do Brasil poderia ser feito um sistema de luz solar concentrada, que usa espelhos e lentes para criar fogo e luz em alguns pontos e cria vapor. Este vapor gira turbinas. A vantagem desse tipo de sistema é que, quando não há sol, você pode usar um combustível para gerar vapor. Assim não falta energia.

Correio: E quais os outros recursos disponíveis além da energia solar?

James Kahn: Eu acho que Brasil tem muitos recursos que não são usados. O Brasil tem um sistema de tratamento de esgoto e esgotos podem produzir metano. E os resíduos de produção de comida também. Pode ser usado um sistema de biodigestão para criar metano. Ele vira um biogás, que precisa ser refinado para ser utilizado como gerador de energia. O mesmo pode ser feito com restos de comida.

Correio: Essas tecnologias alternativas para geração de energia já são acessíveis? São caras?

James Kahn: É um investimento. E todo investimento em energia você paga mais no começo para economizar custos no futuro. Já existem muitos fazendeiros nos Estados Unidos que utilizam o metano para geração de energia. E metano obtido por meio de fezes de vacas. E os esgotos estão nas cidades. Muito mais perto da população do que as usinas hidrelétricas, onde a energia precisa percorrer milhares de quilômetros. Há muita perda nos fios.