Publicado 03 de Julho de 2015 - 16h01

Por Delminda Aparecida Medeiros

Mercado de arte e recessão

Marita Siqueira

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Em momentos de dificuldades financeiras, como o que os brasileiros vivem atualmente, o comum é “segurar” o bolso. Alguns economizam na compra do mercado, nas roupas e até mesmo no consumo diário, além de poupar no gasto de adereços não essenciais, claro. E o mercado de artes, como fica perante essa situação? A crise vivida pela Galeria Britto na badalada rua Oscar Freire, em São Paulo, que vende obras do popular Romero Britto, por exemplo, acende essa discussão – o faturamento sofreu queda de 80%.

Isso é um fato, no entanto, artistas plásticos de Campinas levantaram outro ponto de reflexão a esse respeito. Para eles, a questão é bem mais profunda, independentemente de crise econômica. “Não existe mercado de arte em Campinas. Como também não há consciência de arte. No Brasil até há, mas comprometido. Aqui se mexe com arte mais por interesse, como com qualquer outro produto”, dispara o artista plástico Egas Francisco, um dos nomes mais respeitados do cenário artístico campineiro e nacional. “Pintar é um desafio de vida e morte, o artista tem que trabalhar por paixão”, afirma o artista, que pinta compulsivamente. Segundo ele, existem alguns privilegiados, que nem sempre são os melhores. “O que rege são os interesses do mercado. Minha pintura não é feita para enfeitar mas, antes de tudo, incomodar. A arte não tem compromisso com a beleza, que é diferente do belo.” Para Egas, a situação do país sempre foi caótica, escandalosa. “Mas o pior momento, sem dúvida, foi a ditadura militar”, avalia. Egas não tem marchand nem compromisso com galerias. “Trato diretamente com o cliente, mas atualmente vendo muito pouco. Hoje tenho um prestígio limitado, menor que quando tinha 30, 40 anos, mas não vou banalizar minha arte por isso”, conclui.

O artista plástico Álvaro Azzan, assim como Egas, é enfático: “Como artista, a crise é diária”, diz. “Em Campinas, o mercado é fraquíssimo praticamente inexistente, uma luta constante desde os ditos artistas renomados até os novos talentos. O público campineiro não frequenta exposições, caso raro quando há um excelente coquetel. Então, se não visita, quanto menos consumir. A crise, acredito, começa muito antes do consumo. Começa na educação e cultura transmitida as crianças para que cresçam e desenvolvam o gosto e apreciem as artes, teatro, literatura, música e artes visuais”.

Leilões de Artes

Segundo a leiloeira Ana Clara, que tem 30 anos de profissão, o nicho de clientes do mercado de artes se diferencia pela intenção de consumo, formando um público eclético. “Tem o amante de arte, o colecionador, a dona de casa, o empresário, investidor e o de ocasião. Dependendo da característica de cada perfil citado acima, não medem esforços para garimpar e arrematar as obras”, diz, enfatizando uma observação pertinente: “Percebo que em tempos de crise, os olhares e preferências dos frequentadores de leilões de arte são mais para os utilitários. Os amantes de arte, a dona de casa, o estudante, priorizam luminárias, lustres, aparelhos de jantar e de cristal, tapetes orientais, mobiliários e outros, com destaque sempre para os de época, estilo e design”.

Já o colecionador não mede esforços em adquirir mais um ou completar sua coleção, de acordo com ela. “O investidor tem um número, logo, tem reserva para investir. O de ocasião aproveita a oportunidade, não está interessado em um determinado lote, está em busca de uma boa e melhor oferta, o que fica mais fácil no decidir por um lance. O leilão propicia negócios para todos os gostos e bolsos, talvez por isso não sentimos a queda nas vendas em pregão”.

O que Ana Clara notou, no entanto, foi que em tempos de crise, esporadicamente há algumas restrições por parte de determinados clientes assíduos que substituem obras com valores mais elevados por outras de valores menores. Concomitantemente, ocorre acréscimo dos leilões online. “O universo de arrematantes e interessados nesse nicho do mercado de arte se multiplica por todo mundo. Procuramos criar novas oportunidades, inovando, selecionando e inserindo outras opções de lotes a cada leilão de arte”, afirma. (Marita Siqueira/Da Agência Anhanguera)

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Delminda Aparecida Medeiros