Publicado 02 de Julho de 2015 - 19h07

Por Adagoberto F. Baptista

Fotos: Élcio Alves (feitas na terça-feira)

Gustavo Abdel

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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“Seja diferente, seja exemplo de amor. Te acusaram? Te apedrejaram? Ame!”. Gritou com tanta vontade de cima do palco a pastora Aline Leão, de 30 anos, que o grupo de 25 fiéis não desviava a atenção de suas palavras e murmurava exaltação à Deus. Era terça-feira, dia de estudo bíblico na igreja comunidade Cidade de Refúgio, no bairro Ponte Preta, e Aline já estava a quase 50 minutos discorrendo sobre as cartas que Paulo escreveu à Timóteo, sendo esse com a missão de espalhar as normas cristãs por onde passava. Antes de Aline, sua esposa e pastora Paloma Sene, de 34, conduziu a primeira parte do culto, que começa às 20h, com cânticos e também pregação.

Homo e heterossexuais dividem o mesmo salão, que fica no número 1.037 da Rua da Abolição. Vão até lá para ouvir as palavras das pastoras que são consideradas hoje as principais vozes em Campinas quando se trata de teologia de inclusão - termo que nasceu na década de 1960 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil há pouco mais de 10 anos. A igreja, que vai completar dois anos na cidade, agregou 60 membros, e é considerada depois da sede na Capital (com 600 fiéis), uma das maiores, das sete que já existem no Brasil. “Campinas tem um potencial muito grande. As pesquisas dizem que os índices de homoafetivos em uma cidade é de 10%, normalmente, mas em Campinas esse índice está em 23%, segundo o IBGE (Índice Brasileiro de Geografia e Estatística).

Então, a homoafetividade encontra naquele espaço, colorido com luzes azul e vermelha e um logotipo em formato de coração, um refúgio de oração e também de debates sobre homossexualidade. E até mesmo na missão de Timóteo à cidade de Éfeso, conforme ensinava naquela noite, a pastora Aline conseguiu encontrar na passagem relatos de preconceito, e trazê-los à realidade atual. “Precisamos de maturidade espiritual”, ensinava.

“Temos uns três ou quatro versículos na Bíblia (Levíticos, Romanos e I Corintios) que trazem alusão à questão da homoafetividade, mas que quando nós pegamos a Bíblia no original, no hebraico do Antigo Testamento e no grego do Novo Testamento, nós conseguimos entender e compreender o contexto da Bíblia. Ela tem que ser contextualizada e não lida literalmente, pois esse é o maior problema de hoje em dia”, disse Aline. Os cultos ocorrem às terças, quintas, sábados e domingos - quando geralmente mais de 80 pessoas comparecem.

Os fiéis chegam de toda as partes da região, como Jaguariúna, Hortolândia, Paulínia, Santa Bárbara d’Oeste, Valinhos e até Capivari. A igreja chegou à Campinas inicialmente como uma “célula” de São Paulo. A diaconisa Tatiana Lisboa, de 29 anos, lembra que viajava para a Capital para assistir aos cultos. “Ia a todos os cultos, e como tinha um público de Campinas que frequentava decidiram abrir uma célula aqui”, conta Tatiana, casada com a diaconisa Leda, também de 29 anos. “Nos conhecemos na igreja”, diz. Inicialmente, a Cidade de Refúgio fazia seus cultos em salões de hotéis. E quando a gerência percebia que ali se pregava a teologia inclusiva, pedia para que os fiéis se retirassem. Isso ocorreu em três hotéis, até que conseguiram se instala na sede na Ponte Preta.

“Assim como a Bíblia foi citada para incitar o preconceito contras os negros, sendo que eles não podiam entrar nas igrejas, assim como foi incitado o preconceito contra as mulheres por elas serem consideradas seres sem almas, dizemos hoje que somos a bola da vez, aqueles que não podem servir a Deus por conta de nossa orientação sexual. Só que tudo o que Deus criou é bom, e Ele não faz acepção de pessoas”, acredita Aline.

RESPEITO - A pastora Paloma Sene diz que os adeptos da teologia inclusiva respeitam a visão das igrejas tradicionais, por que teologias sempre “vão se bater”. “O que nós buscamos hoje é o respeito. De a gente poder adorar e servir a Deus em santidade. Por que nós cremos e acreditamos que o pecado não está em nossa orientação sexual”, disse. “Hoje o nosso foco é justamente levar a mensagem que todos nós somos a razão da cruz. Jesus morreu por todos nós. Nós entendemos que a teologia inclusiva ela veio para mudar uma visão de algo que se criou através de erros de interpretação e tradução de Bíblia”, concluiu Paloma.

Casadas desde 2011, as pastoras acreditam que no Brasil a questão sobre o enlace homossexual já está com uma visão consolidada, mas que com a recente decisão histórica da Suprema Corte dos Estados Unidos em legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país vai ajudar ainda mais a fortalecer a questão dos homoafetivos no mundo.

A igreja em Campinas possui 10 casais. Segundo as pastoras, foram “liberados” dois namoros após passar pelo menos três meses de oração. “Primeiro ora, para depois namorar, casar e fazer sexo. A Bíblia do hetero é igualzinha a nossa”, sorri a pastora Aline. De todo os membros, são três heterossexuais presentes.

QUEM VEM FICA - Jéssica Ribeiro dos Santos, de 24 anos, chegou na Cidade de Refúgio em janeiro, através de indicação de amigas. A bela voz serve para entoar os cânticos, ao lado de mais dois fiéis. Porém, seu dom da cantoria estava apagado, segundo ela, porque estava sofrendo preconceito em uma igreja evangélica tradicional, que frequentava em Vinhedo.

“Para mim é uma experiência incrível que eu estou vivendo. Eu tive uma vida cristã antes de conhecer a Cidade Refúgio e agora. Eu vivia de uma forma que me apontavam, excluíam e da forma que não aceitava a gente da maneira como somos. Eu tenho motivo de alegria, pois me sinto acolhida em uma família de verdade”, expôs Jéssica.

“Infelizmente as pessoas misturam essa questão da nossa sexualidade com baixaria, o que não é verdade, pois trata-se de uma questão de caráter. Geralmente quem vem (para a igreja) fica”, diz.

IDEOLOGIA DE GÊNERO - Diante da polêmica votação na Câmara de Vereadores de Campinas há pouco mais de uma semana que aprovou o projeto vetando a inclusão da chamada “ideologia de gênero” no Plano Municipal de Educação, as pastoras acreditam que a discussão é saudável e fundamental para a sociedade. “O problema é até onde vai o respeito. As convicções são tão grandes que elas esbarram nos nossos direitos. É uma polêmica desnecessária”, apontam.

“Temos que parar com esse preconceito. Dentro das escolas isso precisa ser respeitado”, frisou Aline. “Você não precisa aceitar, e sim respeitar. Hoje se fala mais, a mídia social é muito maior, temos acesso a computador, e temos inúmeros políticos que defendem a causa cristã. Daqui uns anos essa questão vai estar tão fora de moda...”, disse Paloma.

BOX - O NOME CIDADE DE REFÚGIO - No Antigo Testamento, aqueles que cometessem algum crime involuntariamente, a Lei de Deus os resguardavam e então iam até as cidades de refúgio, coordenadas por sacerdotes. Ali, segundo a pastora Aline, as pessoas eram acolhidas e viviam com aqueles sacerdotes. E as cidades sacerdotais eram aquelas que tinham o melhor de tudo, da melhor comida, as vestes, localizadas nas melhores terras com os melhores climas. “Então era assim: o mundo de acusa, querem te matar, te apontar, mas Deus tem um refúgio para você. Você foi excluído na sua igreja, você foi apontado, mas aqui tem um local seguro”. Em Campinas há mais duas igrejas que tratam da teologia inclusiva, com número menor de fiéis, e com menos divulgação. A Cidade de Refúgio abrirá no segundo semestre desse ano mais duas unidades, no Rio de Janeiro e em Curitiba.

PONTO DE VISTA (CONTRA)

A “teologia inclusiva” é uma abordagem segundo a qual, se Deus é amor, aprovaria todas as relações humanas, sejam quais forem, desde que haja este sentimento. Essa linha de pensamento tem propiciado o surgimento de igrejas onde homossexuais, nesta condição, são admitidos como membros e a eles é ensinado que o comportamento gay não é fator impeditivo à vida cristã e à salvação. Assim, desde que haja amor genuíno entre dois homens ou duas mulheres, isso validaria seu comportamento, à luz das Escrituras. A falácia desse pensamento é que a mesma Bíblia que nos ensina que Deus é amor igualmente diz que ele é santo e que sua vontade quanto à sexualidade humana é que ela seja expressa dentro do casamento heterossexual, sendo proibidas as relações homossexuais. (Pastor Augustus Nicodemus, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil)

PONTO DE VISTA (À FAVOR)

As igrejas tradicionais têm uma visão e nós as respeitamos, por que teologias vão sempre se bater. Sistemáticas com prosperidades, calvinistas com chauvinistas, os pentencostais contra os tradicionais. Teologias se batem. O que nós buscamos hoje é o respeito. De a gente poder adorar e servir a Deus em santidade. Por que nós cremos e acreditamos que o pecado não está em nossa orientação sexual. Nós cremos piamente que Deus nos ama assim como nós somos, e o pecado não está em eu ter uma relação de fidelidade que eu tenho com a minha esposa. Temos duas filhas que congregam com a gente. Nós cremos que o pecado está na promiscuidade, em viver uma vida de costumes infames, daquilo que não é princípio de Deus. Agora, uma relação de fidelidade é princípio de Deus. (Pastora Aline Leão, da igreja comunidade Cidade de Refúgio)

BOX - PASSAGENS UTILIZADAS PARA REFORÇAR A TESE DA TOLERÊNCIA

- No texto de Romanos 1.24-27, o apóstolo Paulo estaria apenas repetindo a proibição de Levítico à prática homossexual na forma da prostituição cultual, tanto de homens como de mulheres - proibição esta que não se aplicaria fora do contexto do culto idolátrico e pagão.

- Em I Coríntios 6.9, os citados efeminados e sodomitas não seriam homossexuais, mas pessoas de caráter moral fraco (malakoi, pessoa “macia” ou “suave”) e que praticam a imoralidade em geral (arsenokoites, palavra que teria sido inventada por Paulo).

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista