Publicado 02 de Julho de 2015 - 18h11

Por Adagoberto F. Baptista

Foto: Cedoc/RAC

Eric Rocha

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A facilidade de acesso às chamadas armas brancas tem feito com que bandidos tenham procurado usar facas, facões e punhais, ao invés de armas de fogo em ações criminosas em Campinas e região. De acordo com especialistas, esses objetos são facilmente encontrados em supermercados e lojas de departamento, a preços acessíveis à população. Na internet, por exemplo, uma faca de dez polegadas (25,4 cm) pode comprada por R$ 13,90. Ao contrário de uma arma de fogo, não há qualquer controle do Estado e o consumidor não precisa fazer qualquer tipo de cadastramento para adquirir esses produtos. A Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) informou não ter dados sobre a apreensão de armas brancas na cidade e região.

Alguns crimes registrados no mês passado contaram com bandidos armados de objetos cortantes em meio às ações criminosas na região. Na noite do último dia 21, um motorista de ônibus de 41 anos foi ferido levemente com uma facada no braço durante um arrastão em um ônibus que trafegava pela rodovia Dom Pedro, em Campinas. A linha 2.66 liga o Parque São Jorge ao Hospital de Clínicas da Unicamp. A vítima relatou que agressão aconteceu depois da porta de trás do coletivo travar e não abrir para que um segundo bandido descesse.

Também em Campinas e uma semana antes, o ajudante de obras Jorge de Matos dos Santos, de 33 anos, confessou ter matado a mulher, a cozinheira Daniele Aparecida de Sá, de 32 anos, no bairro Vila Carminha. A vítima foi morta com uma facada na pescoço. O homem foi preso horas depois no bairro Monte Alto, no limite com Hortolândia. O casal tinha uma filha de 8 anos, que dormia na hora do crime.

Dois dias antes, em Monte Mor, foram presos três acusados da morte de um lavrador de 48 anos e do sobrinho dele. Todos moravam juntos em um barraco no Jardim Moreira. De acordo com a Polícia Civil, os bandidos descobriram que uma das vítimas tinha sacado o seguro-desemprego e confessaram parcialmente um duplo latrocínio – roubo seguido de morte. As mortes teriam acontecido aparentemente com golpes de facão e a perícia apreendeu um extrato de saque no valor R$ 1.143,10 dentro da carteira de uma das vítimas, o que levou à suspeita do latrocínio.

O delegado da 1ª Delegacia Seccional de Campinas, José Carneiro Rolim Neto, afirmou que os casos recentes não revelam uma realidade preocupante. “Não digo que é uma migração, é também uma questão de modismo. Muitas vezes o bandido vê na mídia e acaba tendo essa ideia”, afirmou. Rolim Neto também destacou que muitos casos envolvem usuários de drogas, que com a facilidade de comprar objetos pontiagudos, acabam praticando assaltos.

O advogado e especialista em segurança pública Benê Barbosa explicou que é impossível regular a venda de armas brancas, ao contrário de como ocorre com as armas de fogo. De acordo com ele, os criminosos perceberam que se forem flagrados portando uma faca, por exemplo, nada poderá ser feito para que o objeto seja apreendido. Em um assalto, no entanto, pouco importa qual é o instrumento utilizado para abordar a vítima. “Se ele tiver com uma arma ou uma faca, o pânico que ele causa na vítima é o mesmo. O problema desta questão de segurança pública é que sempre acaba voltando-se para o objeto e não para a atitude. É o crime que deve ser combatido”, disse.

Acima de 10 cm

O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), sancionou na última segunda-feira uma lei que proíbe o porte de armas brancas no Estado. A medida, no entanto, só é válida para instrumentos que tenham lâminas com mais de dez centímetros. Quem for flagrado, pode pagar uma multa de até R$ 24 mil. A norma surgiu após a repercussão da morte do médico cardiologista Jaime Gold, de 57 anos. Ele foi esfaqueado em uma tentativa de assalto enquanto pedalava na ciclovia da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, em maio. Uma proposta parecida com a lei carioca, de autoria do deputado estadual Campos Machado (PTB) tramita atualmente na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

Especialistas, no entanto, dizem que essas leis terão pouco efetividade. “É absolutamente ineficaz. O sujeito não tem medo de ser preso, vai ter medo de ser multado? É só para aproveitar a oportunidade para aparecer na mídia”, criticou o coronel reformado da Polícia Militar e consultor na área de segurança pública, José Vicente da Silva Filho.

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Adagoberto F. Baptista