Publicado 12 de Julho de 2015 - 9h00

Por Suzamara Santos

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Cartum bem-humorado ironiza a presença da filoxera

Cartum bem-humorado ironiza a presença da filoxera

Na semana passada, mencionei de passagem as extravagantes festas regadas a vinhos pré-filoxera, que atraíam magnatas do petróleo e outros endinheirados dispostos a torrar fortunas por algumas horas de ostentação. Uma amiga me pede para falar mais sobre a filoxera, pois, para ela, “esse assunto é igualmente fascinante”. Concordo. Para quem não sabe, filoxera (ou Phylloxera vastatrix) é uma praga que ainda hoje ameaça a agricultura em várias partes do mundo.

Mas, o que aconteceu com as vinhas europeias, no século 19, em especial a partir de 1870, tem contornos épicos. A praga chegou à Europa “hospedada” em mudas de vinhas americanas, espalhou-se rapidamente e provocou uma devastação que, aos olhos contemporâneos, é difícil de acreditar que aconteceu de fato. A filoxera simplesmente dizimou as uvas viníferas e, por consequência, o próprio vinho. A tragédia durou 40 anos. Sim, amigo, o homem levou quatro décadas para controlar o inseto.

Ainda hoje, há na Europa extensas áreas com o que sobrou dos vinhedos; dão uma noção clara do que foi esse período. Para entender a dimensão do acontecido, é preciso lembrar que existem aproximadamente 60 espécies de uva no mundo, mas apenas uma, a vitis vinífera, se presta aos vinhos finos. E essa, extremamente sensível a qualquer praga, converteu-se em um banquete para a filoxera, que ataca sobretudo as raízes da planta. Daí ter pegado carona numa cepa americana sem almoçá-la.

Por ironia, o controle da praga veio justamente de onde ela partiu, por meio de um procedimento hoje corriqueiro na agricultura: o enxerto. Oras, se o pulgão não ataca a raiz da vinha americana, então vamos fazer a vinha européia crescer numa muda americana. E assim enxertou o corpo de uma na raiz da outra. E ficamos todos livres de viver num mundo sem grandes vinhos. Não é exagero. Depois de varrer a Europa, o monstro atacou Austrália, África do Sul, Norte da África, Argélia, Tunísia e Marrocos. Poucos lugares ficaram livres da praga. O Chile foi abençoado pelo Oceano Pacífico de um lado e pela Cordilheira dos Andes do outro, duas poderosas barreiras naturais.

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Inseto acabou com o vinho no mundo inteiro

Inseto acabou com o vinho no mundo inteiro

Mas, quando se olha para trás é possível enxergar algo positivo no episódio. Vinhedos de qualidade duvidosa desapareceram para sempre, castas inferiores deram lugar a outras melhores e regiões foram replantadas com cepas mais apropriadas ao terroir. Enfim, a grande noite trouxe drama, mas trouxe também inteligência ao mundo do vinho... E o mundo do vinho nunca mais foi o mesmo. Saúde! 

Escrito por:

Suzamara Santos