Publicado 12 de Julho de 2015 - 9h00

crudivorismo

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“Hoje em dia, as pessoas estão se matando com o garfo. Noto que as pessoas, de maneira geral, já tomaram consciência de quão importante é se alimentar de forma correta, mas só abdicam de más escolhas por períodos determinados, por dieta e não por saúde”

“Hoje em dia, as pessoas estão se matando com o garfo. Noto que as pessoas, de maneira geral, já tomaram consciência de quão importante é se alimentar de forma correta, mas só abdicam de más escolhas por períodos determinados, por dieta e não por saúde”

Tempos atrás, falar em crudivorismo (raw food) soaria excêntrico. Mas, bastou surgirem na telinha chefs conectados à lógica do slow food, na toada dos discursos de Alice Waters e Carlos Petrini, para que tudo soasse bem. Vide Bela Gil, que, desde o ano passado, capitaneia um programa de culinária saudável e responsável (Bela Cozinha, GNT). E se dissermos que há alguém atuando em Campinas, sem firula, sob a mesma temática, há dois anos? Cléo Martins, que já viveu em Portugal, Espanha, Inglaterra e Itália, defende a sustentabilidade, o aproveitamento nutricional dos alimentos (fim do desperdício) e a valorização dos ingredientes. No final de maio, ela lançou o livro Cozinhar com Arte, Intuição & Amor; e, há cerca de um ano e meio, ministra cursos sobre gastronomia sustentável e orgânica em empresas e a interessados pelo tema, de forma personalizada.

 

“Sempre fui autodidata. Acabei me interessando pela gastronomia ao morar sozinha, mas só comecei a pensar em aprender e a aplicar conhecimento em 2010”, conta. A relação com o fogão existe desde a infância. Cléo gostava de fazer bolos, à revelia da mãe, que não tem o dom de mestre-cuca. Formada em administração de empresas, trabalhou em bancos e começou a cozinhar por conta de uma gastrite. “Segui carreira como gerente da área comercial e marketing, setor em que tenho pós-graduação. Fiz uma especialização em e-commerce na Itália (doutorado). Quando cheguei no Norte do país, vi que os dialetos fariam muita diferença, teria de me dedicar a eles por, pelo menos, um ano se quisesse seguir carreira acadêmica. Decidi morar em Portugal por um tempo, onde tinha uma pessoa querida e muito importante. Depois, fiquei quase um ano na Inglaterra, só estudando”, conta.

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Cléo retornou a Portugal e acabou se interessando por uma empresa de consultoria ambiental. E, mais tarde, assumiu um posto de relações públicas. “Fiquei bastante tempo por lá, até me dar conta de que deveria fazer algo de que realmente gostasse. Cozinhar era um caminho”, situa. Por conta do insight, decidiu estagiar em restaurantes (Espiral Restaurante Vegetariano, tradicionalíssimo e antiquíssimo; e Pimentão Azul Restaurante Biológico e Macrobiótico, mais moderno, ambos em Portugal) e estudar inglês por um ano.

Ministrou workshops, passou pelo Instituto Macrobiótico Português, estudou alimentação e culinária artística viva (crua), alimentação vegetariana internacional, azeites, vinhos e mais em Lisboa e se especializou nos Estados Unidos. “As pessoas que pensam que culinária saudável não tem sabor são aquelas de paladar viciado. Quando comecei a dar workshops, em 2011, não fazia ideia de que abdicaria de uma carreira consolidada e hoje daria esta entrevista, assumidamente atuando na área gastronômica”, pondera.

Ensino

A apetência de Cléo é pelo ensino – ou pelo mote educacional, melhor dizendo. Não à toa, assim que voltou ao Brasil, em 2010, tratou de se colocar à disposição da docência. Gosta tanto de abordar a alimentação natural saudável que encaminhou, quando ainda vivia em Portugal, um projeto a emissoras de TV brasucas. Proposta? Mostrar que comer bem significa escolher bem alimentos e formas de cocção e pôr fim ao desperdício. “Em dado momento, ofereci ao staff de conteúdo da GNT um projeto de programa, por isso voltei direto ao Rio de Janeiro. À época, a grade do canal entrou em reestruturação e o projeto foi engavetado. Resolvi vir para Campinas, que está pertinho da minha cidade natal (Poços de Caldas) e ‘dentro’ de São Paulo”.

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Cléo diz que “mexer na boca das pessoas é uma das coisas mais difíceis do mundo”. “Elas entendem a reeducação alimentar como privação, o que não é verdade. Se a alimentação faz parte de nossa base afetiva, há que se pensar em uma forma de agradar ao paladar, ao corpo e à mente sem qualquer desequilíbrio”, sintetiza.

Personal chef

Em Campinas, sob a égide da marca Gourmet da Horta, que engendrou e comanda, Cléo atende como personal chef, consultora de gastronomia e docente de culinária saudável para pequenas turmas. Nenhum dos workshops ou aulas é formal, sisudo, e parte é ministrada na cozinha da casa onde ela mora, comum, mas bem equipada. “O ato de cozinhar está implícito, bem como os de comprar de forma consciente, selecionar produtores locais, determinar escolhas ecológicas e conscientes”, ilustra ela, que se aparta de quaisquer bandeiras. “O que falo para as pessoas é algo óbvio. Por que consumir aqui um produto que é natural de países nórdicos, por exemplo? A localidade e a sazonalidade ditam nossas necessidades biológicas, não o mercado. A natureza é coerente”, resume.

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O target que se afeiçoou à proposta não se encaixa, necessariamente, em estratos sociais, mas nos objetivos de compreender e aplicar conceitos da alimentação saudável no dia a dia. Há formatos one-to-one (personal chef), para grupos de crianças a partir de quatro anos, empresariais (workshops e coffees) e petit comité. “As palestras, geralmente, estão associadas a temas específicos, como sustentabilidade, orgânicos, alimentação adequada ao período da menopausa etc”, ilustra.

O livro

Cozinhar com Arte, Intuição & Amor traz receitas veganas, mas vai além do “faça”. Traz o pense e o repense. “Ele foge do escopo dos livros de receita. Abordo a alimentação saudável com explicações sobre ingredientes e suas funções. É uma obra prática e didática, cuja pretensão é mostrar que a alimentação saudável depende mais de escolhas sensatas do que da reprodução de fórmulas”, sintetiza.