Publicado 14 de Julho de 2015 - 19h10

Por Vilma Gasques - Especial para Metrópole (interina)

Baú

Elcio Alves/ AAN

Baú

Foto: Elcio Alves/ AAN

Sapatos feitos artesanalmente, sob medida para as demandas dos clientes

Sapatos feitos artesanalmente, sob medida para as demandas dos clientes

A fachada da Star Calçados é singela. Tem apenas uma vitrine em forma de prateleira e alguns pares de sapatos. Nada que represente seu interior, sobretudo a área que fica depois de uma porta mais escondida, onde estão guardados moldes, colas, couros, fivelas, caixas, estiletes e máquinas, especialmente, de costura. É nesse espaço que o artesão Francisco de Assis Ignácio Pereira, de 65 anos, dá estrutura, forma e cor aos pedidos mais inusitados, para os pés mais exigentes de Campinas, São Paulo e várias outras cidades. “O ofício de produzir sapatos sob encomenda está em extinção. Não é uma profissão fácil e ninguém quer aprender”, fala o homem, que tem as mãos marcadas pelo tempo e pelo trabalho.

Foto: Elcio Alves/ AAN

Franciso de Assis Ignácio Pereira em ação...

Franciso de Assis Ignácio Pereira em ação...

Foto: Elcio Alves/ AAN

...na empresa que funciona há 16 anos, ele dá estrutura, forma e cor aos pedidos mais inusitados, para os clientes mais exigentes

...na empresa que funciona há 16 anos, ele dá estrutura, forma e cor aos pedidos mais inusitados, para os clientes mais exigentes

Pereira teve as primeiras lições de como fazer calçados aos oito anos, quando ainda morava em Mogi Mirim. No caminho para a escola, parava todos os dias em frente a uma casa para admirar os passarinhos que cantavam presos nas gaiolas. “Naquela época, isso não era proibido. E o dono dos passarinhos, o senhor Antonio Jesus Vieira, conhecido como Baiano, um dia disse que eu podia entrar e ficar junto dos pássaros. Ele, que fabricava sapatos, ficava trabalhando enquanto eu admirava as aves. Acho que tinha umas 60 gaiolas. Passei a me interessar também pelos calçados e ele me ensinou tudo”, lembra.

Quando a família se mudou para Campinas, Pereira, que tinha de 17 para 18 anos, foi trabalhar numa fábrica de sapatos. Há 16 anos, abriu o próprio negócio na Rua Major Solon. E não saiu mais dali. No local, recebe clientes que querem fazer encomendas e os que buscam apenas um conserto. Na oficina atrás da recepção, ele transforma pedaços de couro e pelica em modelos escolhidos em revistas ou lojas. E, apesar de as mulheres levarem a fama de principais consumidoras, na Star o páreo é concorrido.

 

“Posso dizer que está empatado entre homens e mulheres. Eles podem trazer modelos que têm em casa e gostam muito, mas não acham para comprar. Ou uma foto de revista ou até uma foto de um modelo que viram numa loja e querem reproduzir. Fazemos de acordo com o desejo de cada cliente”, garante. Ah, ele não possui um catálogo, justamente, porque o interessante é atender às especificações dadas por cada uma das pessoas que entram na loja.

E são tantas histórias

Cada cliente é especial, tem exigências. E o conforto é uma delas. “Alguns pés são difíceis de trabalhar. A maioria não encontra sapatos em lojas convencionais”, destaca. Pereira diz que a quantidade de pessoas com um pé maior do que o outro é impressionante. E não são diferenças pequenas, em que é possível comprar o par numa loja convencional e usá-lo, mesmo um pé estando mais apertado. São diferenças de até dois números. E tem também gente cuja numeração comercial não serve. Para esses casos, há que se chegar a um meio-termo, como um sapato com numeração 36,5, por exemplo. “Tenho uma cliente que sofreu um acidente de ônibus e ficou com uma perna mais curta. A diferença é de dez centímetros. No caso dela, um dos sapatos ganha uma plataforma interna de dez centímetros e o outro, não. Ao usá-los, fica praticamente imperceptível que ela tem um problema”, comenta.

E se os pés forem muito pequenos? Ou grandes demais? Pereira resolve. Ele diz que tem uma cliente que calça 31 e que encontra nas lojas apenas modelos infantis. Como ela gosta mesmo é de salto alto, o artesão confecciona os calçados para ela. E também para mulheres que calçam 42. É só escolherem o modelo e pronto. Para os homens, a numeração chega ao 52. “Eu faço sapatos sob medida para suprir as necessidades de quem tem pés muito pequenos, muito grandes, com joanetes, esporões ou muito delicados, que não podem ser feridos, como os de pessoas com diabetes. Tudo é muito confortável”, garante.

Geralmente, a confecção de um sapato demora um dia, mas o prazo pode variar porque alguns modelos são mais trabalhosos. Os preços também mudam bastante. Os mais simples, como os mocassins, custam R$ 220, em média; os mais trabalhados e difíceis de confeccionar passam dos R$ 400. Para o artesão, é o bom trabalho que desenvolve que o mantém no mercado, pois um cliente satisfeito indica o serviço para outros. Para dar continuidade à tradição de fabricar sapatos sob medida, Pereira treinou seu filho Fábio. “Agora eu sei que esse é um ofício de pai para filho”, observa. 

SAIBA MAIS

A Star Calçados fica na Rua Major Solon, 715, no Cambuí. O telefone de lá é (19) 3295-7375.

Escrito por:

Vilma Gasques - Especial para Metrópole (interina)