Publicado 05 de Julho de 2015 - 5h30

O que, afinal, os gregos querem? Ou, por outra - o que é que o governo Tsipras quer para a Grécia?

A resposta para a primeira pergunta será conhecida esta semana, após o plebiscito de hoje em que a população dirá se aceita permanecer na zona do euro, pagando por isso o preço da austeridade fiscal imposta pelos credores de seus país, ou se prefere virar as costas a ela e caminhar por sua conta e risco.

Já a resposta para a segunda pergunta é um pouco mais complexa, embora não menos previsível. Tsipras quer o que todo esquerdista radical quer: provar ao mundo que sua sabedoria, suas teorias e sua infalibilidade dispensam coisas mundanas do tipo “racionalidade fiscal”, “austeridade”, “controle dos gastos” e outras bobagens capitalistas do gênero.

E como todo esquerdista radical, Tsipras se recusa a ouvir a voz não da razão, que ela nunca combinou mesmo com essa turma, mas dos números. Imerso em um mundo de faz-de-conta (vizinho, por sinal, de outras terras tão fantásticas como a Venezuela de Nicolás Maduro), ele acredita que seu país é forte, bom, poderoso, diferente e rico o suficiente para manter gastos acima da arrecadação sem que isso tenha qualquer consequência.

Ou pelo menos finge acreditar, porque ninguém me convence que uma pessoa minimamente esclarecida possa mesmo defender tamanho descalabro de maneira sincera.

A Grécia não é melhor e nem pior do que ninguém. À parte as variantes emocionais que Tsipras tanto gosta de mencionar, ela não está acima da mais simples das leis da economia, conhecida tanto por especialistas quanto por donas de casa: se você gasta mais do que ganha, quebra. Ponto. Só quem não entende isso é gente como Tsipras, para quem o verbo “ganhar” é um pecado mortal, enquanto que “gastar” é a maior das virtudes.

O problema da Grécia é muito menos financeiro do que ideológico. Seus credores não lhe viraram as costas (até porque têm ainda muito a receber). A questão financeira poderia ser solucionada com alguma dose de sacrifício. Mas isso, naturalmente, desagrada à população - que prefere acreditar em qualquer pilantra falastrão que apareça dizendo que pode sanar os rombos sem que ninguém precise apertar os cintos. Mentira, claro, mas ah - que mentira mais doce, e como é fácil acreditar nela.

Não foi por outro motivo que Tsipras se elegeu - porque prometeu o que, desde sempre, sabia que não poderia cumprir. Uma vez no poder, passou a representar outro papel típico dos populistas de esquerda: o de vítima. “Não é que a gente não queira pagar - os capitalistas selvagens é que exigem coisas que não podemos cumprir, porque ferem nosso orgulho enquanto nação livre”. “Não é que a gente não queira negociar, é que os abutres impõem condições injustas”. E por aí vai.

Muito bonito de ouvir, sem dúvida. Mas há que se considerar alguns detalhes. Por exemplo, os “vilões” não exigem nada além do necessário para que a Grécia saia mais rápido do buraco em que se meteu. Poderia-se, claro, negociar o tamanho do sacrifício imposto aos gregos - com algum tato político e boa vontade. Tsipras, contudo, não tem ou não quer usar nem um nem outro: prefere lançar mão de um mau-caratismo ímpar e dizer que é possível evitar qualquer sacrifício à base de ameaças infantis a seus parceiros europeus.

Só que aconteceu que os parceiros resolveram pagar para ver - e disseram não ao canto de galo do premiê grego. Deu no que deu: a Grécia aplicou o calote no FMI, com todas as consequências que isso acarretará - e elas serão muito mais pesadas do que qualquer exigência que pudesse ser feita ao país.

Agora, emparedado, o governo grego tenta passar a bola para a população. Que ninguém se engane: não é outro o sentido desse plebiscito senão o de dividir com todos o ônus da arrogância de alguns.

A novela grega tem apenas dois desfechos possíveis: ou o país fica na zona do euro, engole as exigências de seus parceiros e assume os sacrifícios que tiver que assumir para colocar suas finanças em ordem; ou sai do grupo e tenta andar com as próprias pernas e resolver a crise do seu jeito.

E aqui é que a coisa se complica, porque Tsipras já mostrou ser turrão o suficiente para querer continuar insistindo em sua ideia de que crises econômicas se resolvem com muito orgulho e sacrifício zero - quando a solução é precisamente o contrário.

Pior ainda, tais ideias levarão os gregos não a recuperar seu “orgulho nacional”, ou provar que eles podem sobreviver longe dos “capitalistas sanguessugas”, mas a aprofundar ainda mais a crise em que já estão. Não por causa de discursos ou ideologias - mas pelo fato de que, sem cortar despesas, sem apertar os cintos e sem passar por sacrifícios, as coisas não vão melhorar. Por mais tentador que seja acreditar que vão.