Publicado 15 de Julho de 2015 - 19h05

O que era som tornou-se silêncio. Os acordes inspirados do piano de Marco Ferrari, que embalaram incontáveis noites campineiras nas décadas de 1980 e 90, silenciaram por volta das 16h de segunda-feira. Ferrari, de 62 anos, estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Clínicas da Unicamp e na tarde de segunda perdeu a luta contra um câncer de pulmão. Natural de São Caetano do Sul, Marco Ferrari vivia em Campinas desde o início dos anos 1980. Em seu perfil na rede social Facebook, Daniela Gramani, que conviveu com ele na adolescência, quando era casado com sua mãe, Glória Cunha, escreveu: “Hoje (segunda), Marco Ferrari, responsável pelo belíssimo e sensível piano que embalou minha infância e que embasou minha carreira, nos deixou. Meu segundo pai, que me deixou, além da música, meus ‘irmãos-paraguaios’. A saudade já é grande, mas vai em paz, sua música, histórias fantásticas e lindos filhos ficarão sempre comigo. Obrigada.”

Entre os músicos o clima era de consternação pela perda precoce do talentoso amigo. “Ele estava doente há algum tempo. Era um grande músico. Além de brilhante pianista, juntamente com Bebeto (Arno Roberto von Buettner, morto em agosto de 2014), Marco ensinou e marcou várias gerações de pianistas”, afirma o baterista Jayme Pladeval.

“Tivemos a felicidade de gravar sua rearmonização de Manhã de Carnaval no primeiro disco do Hot Jazz Club Matisse (2004), no início de nossa banda. Começamos com os acordes tradicionais e migramos para os acordes do professor Marco Ferrari no improviso do Marcelo Modesto e na reexposição final. Nossa gratidão pelo quanto contribuiu para nossa formação como músicos. O nosso muito obrigado, amigo e grande músico”, postou em sua página o baixista Gilberto de Syllos.

“Marco Ferrari foi um dos grandes pianistas de Campinas, da mesma geração de Bebeto. Eles foram os principais pianistas das casas noturnas de Campinas nos anos 80/90. É uma grande perda para a cidade”, disse o secretário de Cultura, Ney Carrasco.

O amigo e baterista Leandro Barsalini lembra que logo que teve diagnosticado o câncer de pulmão, Ferrari apresentou um problema motor em uma das mãos que o impedia de tocar. “Mas ele não ficou inativo. Nesse período concluiu um livro de harmonia popular, chamado Harmonia na Música Brasileira - Um Guia de Sobrevivência nesta Selva. O livro está pronto, na sua versão final, mas não foi publicado”, aponta. Pouco antes, Ferrari gravou o CD L, em homenagem à sua mulher, Liliam Maria, com os músicos Gilberto de Syllos no baixo, José Manoel Scabello na bateria, Flávio Corilow, nos saxofones e Ramon Montagner na percussão. “Também criou outro quarteto, Catambá, com ele ao piano, eu na bateria, Paulo Signore no baixo e Corilow no sax. Esse grupo ficou ativo uns três anos e gravamos um disco, com músicas dele e duas ou três de outros compositores com arranjos dele. Mixamos, tenho a matriz, mas não conseguimos captar recursos para masterizar e prensar. Ele deu o título de Trem de Ferro e não queria lançar na internet, queria o disco mesmo. Estamos com esses dois produtos que dependem de recursos para serem lançados. Mas não sabemos ainda o que fazer, vamos esperar a poeira baixar para ver”, afirma Barsalini.

O velório de Marco Ferrari começou na madrugada de ontem no Cemitério Nossa Senhora da Conceição (Amarais) e depois seguiu para a capela do Hospital São Caetano, de sua cidade natal, São Caetano do Sul, onde foi enterrado. O músico deixa dois filhos, além da enteada Daniela.