Publicado 14 de Julho de 2015 - 19h05

O Brasil tem uma enorme variedade de ritmos e gêneros musicais; vem daí a pujança da nossa música. Alguns gêneros se mantêm vivos graças à abnegação de alguns apaixonados que se entregam ao ofício de tocar e propagar determinado gênero de música pela qual têm quase obsessão. O choro, por exemplo, vive e se propala graças a seus adoradores. É o mesmo com o samba e seus derivados, que pulsam incessantemente nas mãos de devotados jovens e veteranos. Com isso, o choro e o samba conseguem alcance nacional. O que é ótimo.

No entanto, nem todo tipo de música brasileira encontra quem a segure pela mão e faça com que seja levada às gerações que se sucedem anos após ano. Quase não se veem compositores e intérpretes dedicando ao frevo e à seresta, por exemplo, o mesmo fervor dispensado ao samba e ao choro. Atualmente o frevo e a seresta parecem sobreviver de algumas parcas, mas competentes e abnegadas, iniciativas.

Estes dois parágrafos são um introito para saudar o CD Cordiais Saudações (Por do Som, www.pordosom.com.br), o primeiro gravado por Roberto Seresteiro. Seu nome de batismo é Roberto Saglietti Manh, mas a ele Roberto agregou sua paixão, concedendo ao substantivo “seresteiro” a honra de ser nome próprio.

Com voz forte, como convém a uma interpretação digna da história do gênero musical, Seresteiro desfila um repertório exemplar. É simplesmente delicioso ouvi-lo, pois ali não há mediocridade. Há, isso sim, músicas seresteiras que ganham vida nova na sua interpretação.

Apesar de em algumas notas, no final das frases, a tendência seja a afinação oscilar um pouco, temos uma atuação que encanta pela verdade transmitida. Com vibrato na dose certa, Seresteiro entrega o canto à alma e ao seu entusiasmo, molas que impulsionam a sua aptidão de menestrel.

Ele é acompanhado em todas as 15 faixas do disco pelo competente Regional Imperial: João Camarero (arranjos e violão de sete cordas, Junior Pita (violão de seis), Lucas Arantes (cavaquinho) e Rafael Toledo (percussão).

Destaque para participações especiais, como a de Agnaldo Rayol, que emociona ao dividir com Seresteiro a triste Ave Maria do Sertão (Alberto Conde e Pádua Muniz). Outras são a de Roberto Luna, que arrasa no duo em Madrugada, samba-canção de Herivelto Martins e Evaldo Ruy, a do cantor Tuco Pellegrino, que, com Seresteiro, canta Vitória, samba esperto de Romualdo Peixoto e Noel Rosa, e a de Bolão, cantando com Roberto Jornal de Ontem, samba-canção de Romeu Gentil e Elisário Teixeira, que conta ainda com o belo som da flauta de Antônio Rocha.

Há também a participação especial de instrumentistas: o violonista Alessandro Penezzi em Cantiga Serrana, saboroso tango-canção de Erotides de Campos, e do bandolinista Izaías Bueno, na tristonha canção Jura de Cabocla (Cândido das Neves).

Num domingo qualquer é quando o CD de Roberto Seresteiro melhor se inclina sobre o ouvinte, cobrindo-o de rememorações guardadas. Quase perdidas.