Publicado 11 de Julho de 2015 - 19h05

Há dias que, sem planejar nada, de repente você tem aquilo que os psicólogos e comunicadores chamam de “insight”. E isso sucedeu com Riório na hora em que, banho tomado, se vestia. Próspero empresário vivia com a esposa num enorme apartamento na Rua Maria Monteiro, com sala quase do tamanho do Largo do Rosário. Era sábado e, ao enfiar a camisa que comprara numa butique de Londres, pensa: “Acho que faz mais de dez anos que não vou ao Mercadão”. Daí resolve que sairia justamente para rever o centenário ponto de compras. Curiosamente a esposa, que nunca perguntava aonde ele ia, então perguntou. E após ouvir:

— Ué, vai lá fazer o que?

— Acho que nada...

Preferiu nem sair com seu carro de luxo descomunal. Ao saltar do táxi em frente ao tradicional estabelecimento, ficou, durante alguns minutos, olhando a fachada e o que havia em volta. Descobriu que fora um verdadeiro achado ter resolvido fazer o passeio.

Ao iniciar, em passos lentos, a caminhada pelos corredores, Riório sentia baita bem estar. Até porque houve tempo, em sua vida, que muitas vezes andou por ali, não só acompanhando a mãe em compras nos tempos de menino como depois, numa período em que morou no Centro; então não dispensava ir lá pegar frutas, mantimentos, ou, simplesmente, trançar pernas. Assim, já fazia quase duas horas que rodava quando encostou no balcão de biboca para um café. Colocava açúcar, ao ouvir alguém perguntar: “Posso lhe falar”? Virou-se e deu de cara com homem de uns 50 anos vestindo roupas visivelmente baratas, mas ajeitadinhas, limpinhas. “Pois não”, respondeu. O camarada, que estava com um papel na mão, fala, com segurança:

— Eu queria lhe vender isso.

— E do que se trata?

— Tenho escrito aqui seis números dados por um feiticeiro cigano, que mora em Araçatuba. Ele me garantiu que se forem comprados pela pessoa certa, ela ganhará na loteria. E eu acho que essa pessoa é o senhor.

Homem vivido e para não alongar a história, Riório pegou sua carteira onde as notas de alto valor faziam morada; retirou uma pixula de 50 reais e entregou:

— Eu não quero comprar nada, amigo. Mas aqui está, isso é para o senhor. Até logo.

O sujeito pega a inesperada gratificação; diz, com segurança, enfiando o papel no bolso da camisa do nosso herói:

— Não, os números são seus.

Rapidamente, rodou no calcanhar e saiu.

O primeiro impulso de Riório foi pegar aquilo e jogar fora. Porém, não o fez e seguiu no seu passeio.

Ao chegar em casa trocava de roupa e o papel com os números que o homem do Mercadão enfiara no seu bolso cai. Pega, olha, resolve que poderia dá-lo a alguém que estivesse precisando de dinheiro. “Nunca se sabe”... Pensou. Colocou o papelote na carteira, porém nunca procurou algum necessitado. Dias depois acabou guardando os números dentro de um livro na pequena estante do seu escritório doméstico.

Enquanto isso corre o tempo, passam os meses, que se transformam em anos. Tempo suficiente para que a crise prestes a destruir o Brasil chegasse à empresa do nosso personagem. De repente os negócios dão piorada absolutamente avassaladora. Houve queda das encomendas, as exportações pararam, pintou a dura necessidade de cortes na companhia. A situação chegou a tal ponto que, certa manhã, Riório se assustou com sua própria frase, dita à esposa:

— Não sei o que será de nós...

Veio o pedido de concordata, a situação enegreceu de vez. Foi quando, lendo o Correio Popular, viu a notícia de que a Mega Sena acumulada estava com prêmio de quase 100 milhões. Imediatamente, como se uma luz acendesse em sua cabeça, lembrou do papel com os números que tempos antes terminara em seu bolso, no Mercadão. Corre para o escritório, a fim de procurar o livro entre cujas páginas guardara. Só que a estante, não muito grande, sumira. Vai à esposa saber dos volumes:

— Ora, meu bem, na reforma no seu escritório eu os doei para a gerente da padaria da esquina. Ela tem um filho estudante que adora ler...

Sentindo calafrio e sem dizer nada, Riório desce para a rua. Chegando na panificadora busca a funcionária, porém recebe a informação, seca, de que ela não mais trabalhava lá. Pede o endereço da casa, porém a resposta o arrasa: “Ela e o filho mudaram para a Austrália. Já faz um bom tempo”.

— Mas para a Austrália? — Riório arregala os olhos.

— Pois é, Austrália. Ela ganhou uma nota preta na Mega Sena acumulada, faz alguns meses; cheia do dinheiro, resolveu deixar o nosso país, que, como o senhor sabe, virou uma esculhambação...

Cabisbaixo, o fulano volta pra rua, faz sinal para um táxi. Deu a direção ao motorista na base do “rápido, toca pro Mercadão”. E por lá ficou andando, a esmo, na esperança de que poderia estar por ali a solução para todos os seus problemas.