Publicado 11 de Julho de 2015 - 19h05

Para quem acha que o tempo passa muito rápido ou que está ficando velho, saiba que as curiosas aventuras da garotinha chamada Alice pelo País das Maravilhas encantam leitores pelo mundo há exatos 150 anos. Pois é, julho de 2015 é uma data importante para a famosa história do inglês Lewis Carroll que, de alguma forma, por algum motivo, conseguiu encantar e tocar o público ao ponto de se transformar num conto atemporal, um clássico de magnitudes inimagináveis.

Impossível não dizer que Alice é uma garotinha excepcional, principalmente ao lembrar que a curiosa garota “nasceu” no século 19, pronta para dar bronca em adultos que tentassem forçá-la a fazer qualquer coisa que ela não quisesse em uma época em que mulheres, ou crianças, dificilmente tinha voz para algo.

Mais do que isso, Alice e sua história passam longe dos tradicionais contos de fada, o que, por si só, se tornou um marco na literatura infantojuvenil. Afinal, a menina não precisa de uma figura masculina para resgatá-la de nada — ou mesmo nortear sua história. Alice é independente, esperta, questionadora, uma menina cheia de personalidade pronta para remodelar um mundo já fantástico, habitado por seres tão fascinantes quanto ela.

Qualidades, obviamente, não faltam para este clássico nonsense, responsáveis pela sobrevivência de Alice no País das Maravilhas ao longo desses 150 anos e pelas inúmeras adaptações que vieram no mesmo período, sejam literárias e, mais recentemente, cinematográficas.

Início

A musa inspiradora de Lewis Carroll (ou Charles Dodgson, seu nome verdadeiro) foi a pequena Alice Pleasance Liddell. Dodgson se tornou amigo da família de Alice e adorava passear com a garotinha, usando-a também como modelo para diversos retratos. A relação resultou em duas homenagens: além de Alice no País das Maravilhas (1865), ele escreveu também Através do Espelho (1871), este, com direito a um poema em que as primeiras letras de cada estrofe formam o nome da pequena.

Só que a amizade entre o escritor na casa dos 30 anos e uma menininha, como não poderia ser diferente, gerou diversas especulações, inclusive a de uma forte paixão entre eles — consumada ou não. Fofocas que se tornaram ainda mais fortes após o escritor cortar relações com a família, subitamente, em 1863. Não se sabe, até hoje, o real relacionamento entre eles, mas a biógrafa britânica Karoline Leach encontrou documentos que elucidam que o escritor era tão simpático com Alice e suas irmãs porque talvez estaria interessado na governanta da casa.

Verdade ou não, o que se sabe é que Lewis Carroll escreveu Alice em 1962, durante uma viagem de barco pelo rio Tâmisa entre Oxford e a aldeia de Godstow. Harry Liddell, pai de Alice e diretor da faculdade Christ Church, onde o escritor atuava como matemático, estava na viagem acompanhado de suas três filhas — além de Alice (com 10 anos), Edith (8 anos) e Lorina (13 anos).

O manuscrito, que ganhou o título As Aventuras Subterrâneas de Alice (Alice’s Adventures Under Ground), chegou até o autor escocês George MacDonald, pioneiro na literatura de fantasia e ídolo de Carroll, que o leu para seus filhos. Animado, o escritor revisou o material, incluiu o Chapeleiro Maluco e o Gato de Cheshire, e entregou a versão final com o dobro do tamanho. O primeiro manuscrito ficou de presente para Alice, que o vendeu, já adulta e com três filhas, quando o marido morreu e ela se viu sem dinheiro.

Polêmicas

O fato é que, até hoje, há diversos estudos que tentam decifrar o livro, em busca de significados ocultos. Teorias não faltam, a maioria voltada ao suposto lado obscuro do texto. Segundo Dimitra Fimi, professora de inglês na Cardiff Metropolitan University, entre as teses mais controversas, está que a história baseada em um sonho poderia ser apenas uma metáfora para uma jornada interior, em direção às vontades incontroladas do subconsciente. Argumentos para isso é que Alice, no final das contas, ameaça comer vários personagens do País das Maravilhas, talvez refletindo o estágio oral de Freud de desenvolvimento psicossexual.

Mais do que isso, segundo a especialista, vários personagens perguntam a ela “quem é você”, e nem sempre ela responde de uma forma clara. “Eu... eu... nem eu mesma sei, senhora, nesse momento... eu... enfim, sei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então”, responde Alice à Lagarta Azul, no exemplar de 1980, página 69.

Outro ponto polêmico, lembrado pela professora, é o consumo frequente de comidas mágicas por Alice, o que poderiam ser uma alusão ao uso de drogas. “Ela come cogumelos mágicos, afinal, enquanto conversa com uma lagarta que fuma. É uma interpretação da cultura pop, baseada na forma com que as sequências dos livros foram analisadas por gerações mais novas — notavelmente a cultura hippie dos anos 60 e 70. Mas é uma ideia popular ainda hoje, como é demonstrado pelas cenas de abertura de Matrix”, analisa.

Bom, diante de tantas análises e indagações, Alice certamente continuará na vida de inúmeros pesquisadores e leitores mundo afora. E, mais do que isso, impossível também não imaginar que Lewis Carroll, como matemático, deve estar radiante onde quer que esteja por saber que seu enigma permanece em discussão há 150 anos.

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