Publicado 10 de Julho de 2015 - 19h05

Já de princípio — e por dever de honestidade — confesso ao eventual leitor: não sei o que escrever. Há mais de uma hora, estou diante da tela virgem do computador, ouvindo canto gregoriano. A manhã é fria, cinzenta e meu olhar, pela janela, vê o inverno desfolhando árvores, flores morrendo. Sei que deveria tirar lições de vida a partir de flores, de borboletas — que vivem tão pouco. Deslumbram e morrem. Apenas isso e tudo isso. Estou, porém, sem ânimo.

Não há causa ou motivo especiais. Apenas uma paralisia não sei se física, se mental. Ou, pior ainda, paralisia espiritual. Diante da tela, vejo-me quase que inanimado. Apenas a respiração parece acompanhar o pacífico cantochão. Mas tão somente parece. Pois sinto-a no bater do coração, no pulsar das veias. Isso me dá a quase certeza de estar vivo, mas ainda assim me questiono: estarei mesmo vivo ou já respiro em outra dimensão? Fico sem saber. E estupidifico.

Não se trata de falta de assunto. Pelo contrário, há assuntos demais, desde os mais suaves e ternos até os mais cruéis e sórdidos. Não consigo escrever e nem sei optar por algum tema pois todos estão embaralhados, uma promiscuidade que rouba a identidade das coisas, dos sentimentos. Escrever o quê, para quê, para quem, como? Corro os olhos por meu cantinho aconchegante, pequenino ao lado da grande biblioteca e sinto uma ponta de remorso. Estou no meu pedacinho de céu, com meus companheiros prediletos de arte e de beleza, com a música que escolho, uma sensação cotidiana de estar em outro mundo, no meu mundo, construído tijolinho a tijolinho, peça por peça, aquelas coisinhas tão minhas que não, tendo valor de mercado, são preciosidades sem preço ao meu coração. Por quê, então, a paralisia?

Há um tumulto de informações, de acontecimentos, um caos que deveria ser criador ou inspirador tanto nas maravilhas quanto nos horrores que em torno dele gravitam. Meus olhos insistem em fixar-se na tela de um D.Quixote — de Gustave Doré — sentado no chão de uma cela, entre palhas, as grades separando-o de seu amigo Sancho Pança. Há desconsolo total em Quixote e um apalermado desespero no companheiro, como se reclamasse: “Não falei para você deixar de ser tolo?” O desconsolo de Quixote, vejo-o como uma simples pausa para ele retomar o caminho que escolheu. E é o da loucura vivificante, fazendo com que moinhos de vento sejam sua razão de viver. Penso, de mim para mim: não estariam faltando moinhos de vento?

Não quero, porém, escrever também sobre caminhos. Se é verdade que “todos os caminhos levam a Roma”, tão verdadeiro é que uns poucos, pouquíssimo ou apenas um me levam para dentro de mim mesmo. É lá que estou. Sei disso. Mas, nesta manhã, escapei de mim, deixando o essencial guardado. E não sei o que faço. Para escrever, nada me inspira, nada me motiva, nada me toca. É paradoxal: sinto-me um palhaço fora do circo e um agente funerário no picadeiro. Portanto, sem uma função adequada, tentando fazer rir onde há apenas ódios, levando tristeza onde apenas deveria haver alegria. O circo, onde está o circo? Cadê?

Um mínimo de prudência ou de sabedoria deveria impedir-me de prosseguir nestes rabiscos. Eles não têm sentido. Ou têm e eu não descubro qual. Sei que a paralisia passará, que o desânimo desvanecerá ao primeiro suspiro de alento, naquele banal mas verdadeiro “amanhã, será outro dia”. E o que há de mais óbvio nisso, os dias sucedendo-se um após o outro? Pois de óbvio nada há. A menos que, por obviedade, entendamos a repetição quase monótona do milagre. Cada dia é único. É uma ressurreição diária, a cada manhã. Aquele que morreu e foi enterrado nas trevas da noite, ressurge por inteiro, renovado e orvalhado de frescor logo que a terra, após tanto girar, dá espaço aos primeiros raios de luz.

Mesmo assim, continuamos no caos, um caos destrutivo. E , na manhã — que parece chorar sem mágoas — pareço ouvir aquela pergunta bíblica: “Pode um cego guiar outro cego? Ambos cairão no buraco”. Mais do que palavras, rememoro a trágica pintura de Pieter Bruegel, a Párabola dos Cegos, todos sem rumo, sem destino, sem referencial, cada um querendo ir para uma direção. Vem-me à reflexão que, quando todos estão cegos e sem quem os conduza, inevitavelmente aparecerá um tocador de flauta, o homem da flauta mágica que — com sua sedução — levará todos os cegos, como manada, para o mar.

Isso, agora, me soa que, sem saber o que escrever, refleti sobre uma sensação agônica: para onde ir, como e o quê fazer, em quê nos transformamos? Em cegos ou em manada? É ruim, muito ruim esta manhã. Perdoem-me.