Publicado 06 de Julho de 2015 - 19h05

A Record sempre quis fazer de Os Dez Mandamentos um marco da televisão nacional. A primeira novela bíblica da emissora estreou em março com ares de superprodução hollywoodiana, com efeitos especiais pós-produzidos nos Estados Unidos e orçamento de R$ 700 mil por capítulo. Para contar a vida do profeta Moisés (Guilherme Winter), a trama foi dividida em quatro fases, sendo que a principal mudança está prevista para ir ao ar na próxima quinta-feira, quando avançam-se 20 anos na história e todo o elenco começa a ser envelhecido pela equipe de caracterização liderada pelo coordenador de maquiagem Marcelo Ancillotti. “Fizemos uma série de testes com as pessoas para definir, em cada caso, a melhor solução para esse processo de amadurecimento. Isso incluiu sequências de plano aberto, de close, avaliação de próteses em regiões diferentes do corpo e análise do tempo que cada um levaria para ficar pronto antes de gravar”, explica ele.Processos diferentes

Para marcar a passagem do tempo, Ancillotti trabalha de forma distinta em cada profissional. As mulheres normalmente não ficam prontas antes de, pelo menos, uma hora e meia de trabalho. Adriana Garambone, que dá vida à vilã Yunet, recebe próteses para aparentar rugas na região dos olhos, bochechas e pescoço, além de ter o resto da pele mexido a partir de outras técnicas. As “bolsinhas” usadas são confeccionadas pela própria equipe com um material que, segundo Ancillotti, é igual ao utilizado nas grandes produções do cinema americano. “É similar a um látex e adere normalmente à pele. Depois, uniformizamos tudo com a maquiagem e torcemos para se conservar ao longo do dia de gravação”, conta. Mas, depois de prontas, essas próteses só se mantêm em condições normais de uso ao longo de 48 horas. Ou seja, quando as gravações de sábado estão prestes a seencerrar, a equipe já trabalha em cima dos materiais que serão utilizados na segunda-feira. A tática selecionada depende da faixa etária dos atores. Alguns têm idades que variam entre as que seus papéis teriam na segunda fase, exibida atualmente, e a terceira, que se inicia na próxima quinta-feira. Caso de Petrônio Gontijo, que vive o amargurado Aarão, irmão de Moisés. Quando começou a aparecer no folhetim, o escravo hebreu estava com 33 anos, ou seja, 13 a menos que seu intérprete. Vários rostos

“Sei que naturalmente pareço mais jovem, porém amenizaram muitos traços meus durante esse período”, entrega Petrônio. Agora, o contrário é feito. Para gravar as cenas em que aparece com 53 anos — 20 deles castigados pelo tirano Ramsés (Sérgio Marone), rei do Egito —, o ator tem suas marcas de expressão carregadas, usa próteses abaixo dos olhos e teve os cabelos e a barba esbranquiçados. “Alguns fios são meus, outros vêm de peruca. Mas acharam uma exatamente da cor do meu cabelo, um castanho acinzentado. Fiquei muito impressionado com a qualidade desse trabalho”, valoriza Petrônio. Nem sempre o que serve para um pode ser feito em todos. Larissa Maciel também seria envelhecida com a utilização de próteses para representar Miriã, a irmã mais velha de Moisés. Mas Ancillotti não pôde. “Ela já teve problemas antes com isso, na época em que gravou Maysa: Quando Fala o Coração, na Globo. Teve de ficar uma semana parada por causa de rejeição da pele e decidimos evitar que acontecesse agora”, justifica ele, que deu outro jeito para deixá-la apta a aparentar 58 anos no ar — a atriz tem 37. Sua caracterização se dá a partir de traçados feitos à mão pela equipe da Record em seu rosto. “Foi o que fizeram na época em que interpretei a Maysa também. Lá era dos 15 aos 40 anos, aqui vou chegar a ter 98 na quarta fase. Então optamos por guardar esse artifício das próteses para a parte final. Se eu tiver problemas, vão ser poucos dias de gravações mesmo”, adianta a atriz. Cada um na sua

É inegável a atenção e o tempo dedicados à caracterização da terceira fase de Os Dez Mandamentos. Mas coma novela dividida entre o grupo dos hebreus e o dos egípcios, Ancillotti não hesita na hora de responder qual deles é mais complicado para envelhecer. “Egípcios não têm pelos, as mulheres usam perucas e tudo isso torna nossa vida bem mais difícil. Os hebreus podem ter os cabelos grisalhos e, nos homens, a barba também. Pode até parecer besteira, mas faz uma diferença enorme no vídeo. Não precisamos destacar tanto os sinais da pele quanto nos egípcios”, garante. Para dar conta de todo o elenco, a equipe de caracterização de Os Dez Mandamentos ganhou reforços nesta terceira fase. Antes, eram 12 cabeleireiros e 12 maquiadores, alguns já preparados para esse tipo de trabalho e outros que receberam um “intensivão” ao longo da segunda parte da novela. Agora, são mais dois profissionais de cada área, totalizando 28 pessoas lideradas por Ancillotti. “Aos poucos, cada um vai se adaptando a um determinado ator. A Adriana Garambone, por exemplo, levava mais de duas horas para ficar pronta. Mas uma das nossas meninas já pegou o jeito com ela e, agora, leva cerca de 90 minutos”, diz. Clima propício

Apesar de já ter experiência com o uso desse tipo de material na teledramaturgia, Ancillotti teve quase 80 capítulos para treinar seus maquiadores e estudar a caracterização da terceira fase de Os Dez Mandamentos na prática. É que Zécarlos Machado, que vivia o faraó Seti na trama, e Angelina Muniz, a rainha Tuya do folhetim, já usavam as próteses em função da passagem de cerca de 30 anos entre a primeira e a segunda fase. E um detalhe prejudicava bastante o trabalho de todos: o calor. “Começamos a gravar em pleno Verão e o suor cria umas bolhas que nem sempre são corrigidas. Eu precisava ter uma disciplina diferente e tomar cuidado porque, do contrário, eram duas horas de maquiagem e mais uma para a retirada que eram jogadas fora”, conta Angelina. “Sem dúvida, estar no Inverno é bem mais confortável para cuidarmos de tantos atores utilizando a mesma técnica”, atesta Ancillotti. (Da Agência Estado)