Publicado 04 de Julho de 2015 - 19h05

[CR_TXT_3LINH]João Nunes[/CR_TXT_3LINH]

[CR_TXT_PROCE]ESPECIAL PARA O CORREIO[/CR_TXT_PROCE]

Da mistura de Angu de Sangue (Ateliê, 2000), de Marcelino Freire, e Kaos (Azougue Editorial, 1963), de Jorge Mautner, nasceu a mesa do Angu ao Kaos, uma das atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que termina hoje. O título da mesa já anunciava o que poderia vir a ser tal encontro, ou seja, com perdão do trocadilho, um angu. Ou um caos. Foi mais do que a expectativa geral imaginava. O músico começou lendo um belo poema escrito para Maria Bethânia, que completa 50 anos de carreira. Foi o momento mais comportado da noite.

Bem que o mediador Claudinei Ferreira tentou ser aristotélico e estabelecer uma lógica, mas no pensamento dos debatedores, dois mais dois poderia ser tudo, menos quatro. Mautner emendou citações e associações com pensamentos e reflexões em profusão, seguido do mantra “é tudo isso o tempo todo”, enquanto Marcelino, escritor performático e bom frasista, dava voz aos personagens de seus contos com leituras teatrais repletas de inflexões interpretativas.

“Escrevo para suportar o que tenho de suportar”, disse. “Escrevo para me vingar.” “Minha escrita é um grito.” “Escrevo para dar vexame.” Frases que poderiam ser mera retórica, mas não, pois tinham endereço. Com notícias do dia em mãos, ele mandou recados.

O político e crítico em Marcelino o levou a demonizar a votação do congresso que baixou a maioridade penal e a desdenhar a recusa do italiano Roberto Saviano em vir à Flip por falta de segurança. “Quem perdeu foi ele, aqui haveria um encontro de afetos; as mulheres estavam loucas para beijá-lo.”

O mediador aproveitou a deixa para falar do Brasil atual — temas políticos, claro. Mautner esboçou um discurso, mas preferiu as citações que foram de Jânio Quadros a Adhemar de Barros, passando por filósofos alemães a estadistas de diversas procedências e parou em Getúlio Vargas: “Deixa estar pra ver como é que fica”. Completou com o dito popular: “Não sou contra nem a favor, muito pelo contrário” e fechou com o mantra “é tudo isso o tempo todo”.

Antes discorreu sobre as riquezas do país, destacando inclusive a água. No entanto, se fala em crise. “Os problemas são artificiais”, pregou, ressaltando que vivemos a “exuberância da democracia”. E concluiu citando o chefe militar do governo de Vargas: “Vocês pensam que pensam, mas quem pensa sou eu”. Lançadas fora do contexto parecem uma coletânea de frases sem sentido. Não. Na voz e na maneira de dizê-las por meio de associações elas formam um rico painel.

O grito de Marcelino nasceu, segundo ele, em casa. Quando a mãe não tinha carne no almoço, angustiada ela batia panelas. Quando cantava Luiz Gonzaga, ele sabia que tinha boas notícias. E o modo de escrever também veio dela. Ao ver os pombos sujarem a roupa que acabara de lavar, imprecava durante meia hora com as aves. O pai ouvia silencioso e, ao final, dizia: “Vou matá-los”.

Tal grito se reflete nos contos dele. O silêncio do pai influenciou a escrita do primeiro romance, Nossos Ossos (Record). Mas o grito continua em outras instâncias. Diante do público que tomou a maior parte da plateia da tenda dos autores ele declarou: “Eu, homossexual, estou feliz que a Flip homenageia o escritor Mário de Andrade”. Detalhe: há poucos dias foi revelada uma carta de Andrade na qual ele se expressa homossexual.

* O JORNALISTA VIAJOU A CONVITE DO ITAÚ CULTURAL E DO ITAÚ UNIBANCO