Publicado 04 de Julho de 2015 - 19h05

Pra mim o céu, não o das religiões, sim o que nos cobre, é visão a permitir o exercício do alcance. Com certeza não sabemos onde termina, ou se termina. Porém, com certeza, começa no lugar de onde o observamos. Antigamente, sem as tantas informações astronômicas hoje disponíveis, não tínhamos intimidades maiores com as cerúleas circunstâncias. Todavia, apesar, sempre para elas olhávamos; e as noites estreladas ou enluaradas faziam parte das nossas caminhadas em busca do belo. Bilac, o poeta parnasiano, num dos seus talvez mais famosos sonetos, chegou a ironizar as pessoas que não acreditavam pudéssemos ouvir e entender estrelas. E mesmo quando, ao final do poema, acentuou ser isto dádiva reservada aos apaixonados, certamente contribuiu para que muita gente passasse a olhar para o alto em certas noites.

Falo disso porque neste Correio Popular do último dia 14 de junho li, em excelente reportagem de Luciana Félix, da Agência Anhanguera, que está sendo construído, junto ao Observatório Municipal, em Joaquim Egídio, um “astroteatro”. Que nada mais será do que um local onde 80 pessoas a cada vez poderão, devidamente deitadas, observar estrelas. Com um astrônomo no meio a explicar. Não, digamos, com o mesmo espírito do poeta acima citado. Porém a falar, sim, de algo fascinante.

Isso, naturalmente, é uma contingência; oferenda do mundo moderno. Uma vez que os astros, ofuscados por causa das luzes das cidades, nelas mal podem ser observados a olho nu. Ou não... Todavia, seguem a aguçar curiosidades. A primeira reflexão a que o futuro “astroteatro” me remete é que outrora as estrelas apareciam facilmente. E nem vou buscar lembranças dos tempos da meninice, mas uma muito cara daqui mesmo, da Chácara da Barra. Quando o querido chefe André, meu filho, era criança, costumava com ele deitar, em certas noites, num elevadinho de cimento no quintal para apreciar o cintilar dos astros. Não foram poucas as vezes em que, com eles tão nítidos, conversamos sobre os inúmeros sois que vivem lá em cima. Num velho gravador de fitas alimentado a pilhas, se o luar também se abria, invariavelmente nos entregávamos ao infinito ouvindo Clair de Lune, de Debussy. Fica a sugestão para a música de fundo das aulas que serão ministradas no Observatório das Cabras.

E foi depois de ter lido a matéria da colega Luciana que passei a indagar, aqui e ali, entre meus amigos, quais ainda buscam ver estrelas. Fiquei surpreso. O empresário Pedro Porto, por exemplo, dono de verdejante fazenda nas brenhas do município de Mococa, me contou que é enorme a nitidez com que os astros aparecem no céu de lá. E mesmo com parcos conhecimentos de astronomia, fez mapa deles. Como percebeu certa incredulidade no meu olhar, chamou-me para um uisquinho na sua linda mansão campineira e, de repente, quando eu menos esperava, abriu diante dos meus espantados olhos vários mapas das instâncias celestes desenhados de próprio punho por ele. “Esta aqui — me disse, mostrando uma das cartas — é a Constelação de Orion, nosso céu mocoquense no Verão.” Na continuação exibiu Leão, do Outono; Escorpião, do Inverno; e, Pegasus, da Primavera. Saí de lá convencido que o Observatório Municipal está perdendo um ótimo professor para se revezar com o efetivo no futuro “astroteatro”. Com a vantagem de que, por não precisar de ganho extra, dará aulas de graça...

Mas a surpresa maior estava reservada para a manhã de sábado quando fui à casa do professor Borges, encravada num silencioso recanto de Barão Geraldo. Minha intenção era pedir que me deixasse estar em seu quintal numa noite qualquer para olhar o céu limpo que sempre faz por lá. Só que, quando cheguei à enorme residência, percebi, logo na entrada, muitas pessoas a se movimentar pra cá e pra lá. Borges, porém, tratou de explicar que se tratava apenas dos preparativos para o casamento de um dos seus filhos que ocorreria ali mesmo, com festança e tudo, no dia seguinte. Arrastou-me para a biblioteca e logo disse que nem era muito favorável ao enlace, pois tanto o noivo como a noiva trafegam por parcos 18 anos. Todavia, retirando foto de uma gaveta mostra, dizendo:

— Mas veja aqui, esta é a moça por quem meu filho se apaixonou. Não dava mesmo para resistir, certo?

Concordei logo porque, de fato, a criatura não poderia ser mais linda. E vendo que o instante não era propício para pedir o quintal a fim de fazer observações astronômicas, levantei para sair. Mas antes, já junto da porta, perguntei o nome da futura nora do amigo.

— Estrela — ele respondeu — Estrela Krüll, filha do alemão lá da rua de cima.

Contive o susto, pálido de espanto como o personagem do soneto de Bilac. Na rua segui em frente, recitando cada verso. Que sei de cor.