Publicado 03 de Julho de 2015 - 19h05

[CR_TXT_3LINH]João Nunes*[/CR_TXT_3LINH]

[CR_TXT_PROCE]ESPECIAL PARA O CORREIO[/CR_TXT_PROCE]

Aparentemente, a literatura e a vida do argentino radicado na França há 23 anos, Diego Vecchio, e do bósnio Sasa Stanisié, radicado na Alemanha desde 14 anos, nada têm comum. No entanto, aos poucos, surgiram tantas coincidências (claro, previamente estudadas) sobre as quais o mediador fez várias piadas e emprestou leveza ao debate de ambos dentro da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que termina neste domingo na cidade fluminense.

Autor de Micróbios, o primeiro trata da hipocondria, enquanto o segundo traz a guerra como tema em Soldados. Pronto: aqui se estabeleceu a primeira ponte. Diego tinha 12 e morava em Buenos Aires quando explodiu a guerra das Malvinas. Sasa era um adolescente que vivia num povoado ao Sul quando a eclodiu a guerra da Bósnia.

“Para mim a guerra era algo meio onírica, porque distante, uma vez que o conflito se deu no Sul do país. Só depois me dei conta do que havia passado, ou seja, foi uma experiência traumática”, afirma Diego. Ele só não sabe dizer se isso o influenciou como escritor, mas garante que o afetou pessoalmente.

Sasa também vivia longe, no Sul, enquanto os combates se davam no Norte. “Costumávamos fazer piadas sobre a guerra, pois não tínhamos noção do que estava acontecendo; nem mesmo quando os soldados chegaram até nós. Vi pessoas e animais morrerem, mas até hoje ninguém acredita direito no que ocorreu. Só sei que minha vida mudou radicalmente.”

Diego não fugiu da Argentina. Foi fazer um curso e acabou, aos poucos, ficando. Sasa, sim, refugiou-se com a família na Alemanha. O argentino adotou a França, mas não o idioma. “Seria falso escrever em francês. O espanhol é meu lugar secreto de viajar ao meu país.”

Sasa, ao contrário, escreve em alemão. Não teve dificuldades de aprendê-lo porque era jovem. Ao mesmo tempo, conta que não se sente à vontade se expressando em bósnio. Tem até uma explicação: acha que as más lembranças o bloqueiam a escrever no idioma natal.

Como mimetiza seus personagens, o argentino se proclama hipocondríaco, pois o livro trata de enfermidades. Segundo ele, o hipocondríaco tem maior sensibilidade para detectar doenças — poderia até ser comparado ao paranoico, porém, este está marcado por se sentir perseguido.

E compara: hipocondríacos e escritores têm em comum o fato de trabalhar com a imaginação. Ele disse que não vai ao médico e se diagnostica pela internet. Antes de viajar se preocupou com os problemas dos trópicos e pensou em vacinas etc., mas descobriu que o vento de Paraty impede a aproximação de micróbios. “Fiquei mais tranquilo”, brincou.

Sasa conta que o livro foi concebido a partir da visita que fez ao vilarejo onde viviam os antepassados dele, um lugar de apenas 13 pessoas — todas parentes; assim como no cemitério onde descobriu que o sobrenome dele estava em todos os túmulos.

“Era um lugar mágico”, avalia. Alguém lhe sugeriu tomar água de um poço porque este tinha sido construído pelo tataravô dele. “Foi a melhor água que tomei na vida.” Esse povoado vai desaparecer, ele diz, não existem jovens lá, só velhos.

Por isso, o romance tem tantos personagens idosos. “Eles lutam contra o próprio desaparecimento; este é o papel do escritor moderno, ou seja, recolher essas histórias para que elas não desapareçam.”

Diego diz que lutou para fugir da influência de Jorge Luís Borges (1899-1986), “um micróbio do tamanho de um elefante” pela importância que tem no cenário argentino, e de Júlio Cortázar (1914-1984). Mas faz um comentário a respeito deste: ele leu os romances do escritor quando adolescente e se encantou, mas hoje prefere os contos.

E defende que a Paris de Cortázar não é a mesma. Naquela época, a cidade era um centro mundial do pensamento. Hoje não há um centro, mas muitos, diz. E conclui assumindo que, sim, Borges o influenciou a escrever Micróbios.

* O JORNALISTA VIAJOU A CONVITE DO ITAÚ CULTURAL E DO ITAÚ UNIBANCO