Publicado 03 de Julho de 2015 - 19h05

Tenho um metro e sessenta e dois centímetros de altura, o que, pelos padrões atuais, faz de mim um baixinho. Diga-se de passagem, um injustiçado baixinho visto de cima pela quase totalidade da população masculina. Por isto mesmo, começo a considerar não só a criação de um movimento nacional do orgulho baixo como a hipótese de entrar para certo partido político em decomposição e tornar-me presidente da República para impor um projeto de ideologia de tamanho a ser discutido nas Câmaras Municipais e, assim, desviar a atenção do impeachment de algum baixinho corrupto. O símbolo da campanha poderia ser um banquinho com o slogan “Baixinhos do mundo todo: uni-vos!”.

O certo é que Deus, por puro gosto, nos fez de tamanhos e tipos variados.

O incerto é a relatividade de tudo, aquela mesma que Einstein tornou célebre com umas equaçõezinhas que não se pejam nunca de dar fim a todas as nossas certezas.

Exceto, evidentemente, à certeza da própria incerteza.

Aí é que um gênio tropeçou em outro: Einstein no tal Heisenberg, aquele alemão metido que provou a contragosto que gato em caixa com arsênico tanto está vivo como morto.

Daí que, de gato vertido em miúdos ao molho socrático, “o que se sabe é que nada se sabe”.

Lembro-me, pesarosamente, das suas ininteligíveis equações diferenciais como o limite da minha sofrível matemática. O fato é que me apaixonei pela ideia mais do ponto de vista filosófico que físico e matemático. Não dá, mesmo, para saber tudo de tudo ao mesmo tempo.

Para os leigos, imagino pedagógica a comparação com o voo das borboletas: conhecida a posição, não se apura o destino, posto que, a qualquer momento, elas mudam a trajetória e a velocidade.

Assim é a natureza: natural!

A menos é claro da mediocridade oficial que não desiste da utopia ridícula de regular o incidental espontâneo. Nada como burocratizar o imburocratizável para controlar o incontrolável. Do ponto de vista político, porém, isto se dá aliando-se o aberrante ao estúpido e criando-se, com toda a pompa da semântica engravatada, o ideológico. Assim, de uma maneira geral, nascem as ideologias que como instrumento de luta política, ao contrário do que se pensa, poucas ideias organizadas e verídicas precisam conter.

Em matéria de ideologia, como bem disse Marx, o que vale é a eficiência, e desta, a mais maquiavélica que atenda aos resultados políticos desejados. No dizer dos entendidos, das entendidas e dos que não se classificam nem assim, nem assado, faz-se o diabo para chegar lá, no que, evidentemente, dana-se literalmente todo mundo, bem do jeitinho que o diabo gosta.

No caso da ideologia de altura, por exemplo, a estratificação, regulamentação e padronização pelo Estado de grupos humanos etiquetados em faixas e categorias específicas e excludentes, mostra a História, é o antepasto do totalitarismo e da violência. Veja-se, por exemplo, a abominável ideologia de altura no genocídio corta canelas de Ruanda e, com maior ênfase, a de raça e gênero dos nazistas que, apesar das inconsistências científicas e morais, acabou por dar cabo a milhões de judeus e homossexuais. Ai de quem falasse fino ou tivesse o nariz ou o lóbulo da orelha deste ou daquele jeito: direto para o chuveiro para tomar banho de gás. Tudo sob a supervisão de um boçal funcional do partido que seguia milimetricamente as idiotices eugênicas estipuladas no Mein Kampf.

Que não se exclua, portanto, da responsabilidade a totalidade dos eleitores que, num agrado ao “coisa ruim”, acharam por bem demolir a República de Weimar para eleger um tarado que meramente resolvesse seus probleminhas econômicos e sociais.

O respeito à diversidade, à família, ao privado e ao foro íntimo (que não é o Foro de São Paulo) é, sem dúvida, um tônico à saúde do Estado enquanto antídoto ao totalitário. Um Estado respeitoso sabe seu lugar e até onde pode e não pode ir.

Afora isto o caso é com o George Orwell e sua previsão profética de um Big Brother no ano de 1984, quatro meros anos após a fundação do PT.

A incerteza é o que está por vir depois da lei da palmada, da etiqueta sexual para crianças, do computador eleitor, da compra de congressistas e de outras aberrações.

Eis, aí, o acerto de George Orwell e o desacerto do ingênuo Stefan Zweig com seu Brasil, País do Futuro que ninguém sabe onde, qual e muito menos, quando ocorrerá.

Coisas da literatura e da teoria da incerteza, ou como no caso em questão do nosso desastre institucional e político, de alguma inédita, porém fatídica e certa teoria de uma certeza anunciada.