Publicado 02 de Julho de 2015 - 19h05

[CR_TXT_3LINH]João Nunes*[/CR_TXT_3LINH]

[CR_TXT_PROCE]ESPECIAL PARA O CORREIO[/CR_TXT_PROCE]

Uma frase de efeito bem-humorada do escritor Marcelino Freire (Nossos Ossos, Record, entre outros) marcou a abertura extraoficial da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), anteontem, na Casa de Cultura, num encontro promovido pelo Itaú Cultural e do qual o Correio Popular foi um dos convidados. A mesa antecipou-se à abertura oficial do evento, que prossegue até domingo na cidade fluminense.

Uma jornalista quis saber quais eram os pontos de contato entre as pessoas que ele encontrou nas viagens que realizou pelo País dentro do projeto Quebrar. “São todos doidos.” Ele se referiu aos escritores, poetas, artistas e agitadores que fazem cultura na raça e com pouco aporte financeiro. A criadora das Jornadas Literárias de Passo Fundo (RS), Tânia Rösing, outra participante da mesa, completou: “Todos nós empreendedores que trabalhamos com cultura somos doidos”.

A pauta da mesa foi a literatura brasileira fora dos eixos tradicionais. Não por acaso, havia jornalistas de São Luís (MA), Teresina (PI), Goiânia (GO), Campo Grande (MS), Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS), além de Campinas, entre outros convidados para a cobertura.

Marcelino narrou sua experiência com as viagens a cidades como Macapá (AP), Porto Velho (AC) e Palmas (TO), porque percebeu que seu papel como escritor o impelia a também compartilhar o que aprendeu. E citou um escritor conhecido que desdenhou: “O que pode ter em Palmas?”, ele perguntou. “Tem gente e meu objetivo é encontrar pessoas.”

E se surpreendeu com o que viu. Em Vitória (ES), por exemplo, foi na festa de cinco anos de uma editora que só publicava autores locais. De João Pessoa (PB), recebeu notícias que depois da visita do projeto, os participantes criaram uma revista. “Não fomos lá para levar soluções e nem sei no que vai dar o projeto, mas fico feliz que ele esteja reverberando.”

Também falou sobre a profusão de feiras e festas literárias porque apresentm uma “literatura sem frescura”. Segundo ele, cruzar com um escritor nas ruas de Paraty, fora do gabinete dele, talvez embalado por uma aguardente, o humaniza. “A Balada Literária, que coordeno e que neste ano terá a décima edição em São Paulo, foi inspirada na festa da Flip.”

Tânia, que comandou por 34 anos as Jornadas de Passo Fundo, enfatizou a necessidade de se entender o fenômeno eletrônico e digital como suporte para a leitura. “A tela é o novo espaço de leitura”, afirmou. E se classificou como “ativista da leitura”.

E defendeu os games adorados por crianças e adolescentes. “As etapas todas do jogo revelam uma narrativa impressionante; e são trabalhadas com inteligência, ao contrário de certa literatura, que aposta na chatice.” Completa dizendo que vivemos um tempo de narrativas curtas e de espaço para a estética — a linguagem eletrônica.

Sob mediação do jornalista Claudiney Ferreira, a mesa teve também o antropólogo e editor Felipe Lindoso. Questionado sobre o tipo de leitor brasileiro, ele criticou o preconceito contra segmentos de literatura. Entende que um leitor pobre da periferia de uma grande cidade tem expectativas diferentes das de um rico. “O mundo do livro é reflexo do mundo real”, teorizou.

Abertura

Ao contrário de anos anteriores, quando Gal Costa e Gilberto Gil, entre outros nomes famosos se apresentaram na abertura, a de 2015 se deu anteontem com um show do cantor de Paraty Luis Perequê. O motivo chama-se crise econômica do País. O orçamento deste ano alcançou R$ 7,4 milhões, segundo dados da própria Flip. No ano passado, foi de R$ 9,2; R$ 10,3 em 2012.

Para complicar, a estrela do evento, o italiano Roberto Saviano, que falaria no domingo, cancelou a vinda por questões de segurança. Ele é jurado de morte pela máfia italiana. No lugar dele, estarão dois jornalistas: o britânico Ioan Grillo e o mexicano Diego Osorno, especializados na cobertura da guerra entre cartéis mexicanos de traficantes de drogas.

* O JORNALISTA VIAJOU A CONVITE DO ITAÚ CULTURAL E DO ITAÚ UNIBANCO