Publicado 02 de Julho de 2015 - 19h05

Completei, há alguns dias, 75 anos. Recusei comemorações. Aceitei, apenas, um almoço simples com filhos e netos. Aconteceu que, pouco antes, me surpreendi com o número de anos vividos. Ao contrário de muitos que dizem não ter sentido “o tempo passar”, percebi ser, a minha, a sensação de ter vivido um milênio. E abismei-me com as ainda tão vivas lembranças que ficaram. De quase tudo, para não dizer que de tudo. O cansaço foi quase insuportável. Pois, para mim, não é “o tempo que passa”. Nós é que passamos por ele. E, então, senti o cansaço de ir passando, ir passando, ter passado, ainda passando... Caminhar mil anos cansa. Mas, estranhamente, não exaure. Pois andei com asas...

O curioso foi a exaustão ter-me pesado nos ombros, não na alma. Eles arriaram de cansaço, às lembranças de tudo o que aconteceu. No entanto, a alma, o espírito, a inteligência pouca importância deram aos seus 75 anos de existência, ávidas por querer mais, como se apenas recém-nascidas. No mais fundo de mim, eu sabia o que a data significava: um milagre.

Pensei em Giorgio Angelozzi, um italiano de Tívoli, não sei haver, ainda, quem se lembre dele. Com 80 anos, viúvo, aposentado como professor, ele espalhou pelo mundo que desejava ser adotado por alguma família sem avô. E até pagaria pela adoção, garantindo ser, ainda, “socialmente útil”. Lembro-me de ter perguntado a mim mesmo porque alguém, aos 80 anos, ainda insistia em ser útil socialmente. Mas fiz apenas 75 anos e nem penso em utilidade, a não ser a de velho contador de histórias.

Em situações assim, sempre me lembro da figura plácida e imóvel do Buda e daqueles três macaquinhos da sabedoria oriental: não ver, não falar, não ouvir. Meu sonho, pois, é imitá-los. E sem qualquer, sem nenhuma, sem uma única sequer utilidade para quem quer que seja. Pois, tem utilidade aquilo que é para se usar. E continuo recusando-me a ser usado.

No entanto, sei ter sido útil demais a vida toda. Para muita gente. Para os outros. E, agora, desejo ser inútil para eles, tentando ficar comigo mesmo pelo menos por mais algum tempo da vida. Quero viver a experiência de gostar de mim primeiro. E com inveja de velhos africanos cujas tribos os levam para o alto das montanhas onde, em cavernas confortáveis, lá ficam, eles, olhando e ouvindo os sinais da vida e do mundo: nuvens e passarinhos dos céus, o dia luscofuscando em mistérios de entardecer, cores de cada amanhecer, transparências dos pingos de chuva, cricrilares de grilos, cucuricares de galos, zumbidos de abelhas, piares de coruja e até zunidos de mosquitos.

Em cada som, há mensagens. Em cada visão, avisos. Assim, os velhos põem-se em contemplação, à espera de os moços lhes perguntarem coisas de saber. Como os velhos áugures ou agoureiros romanos, lá ficam, eles, à disposição para revelar os bons ou os maus augúrios, agouros anunciados pelos voos e cantos das aves.

Tidos por bruxos, mágicos, feiticeiros, eles, no entanto, são apenas vividos. Capazes de contar, contam por já terem visto e ouvido. Contando, chegam até a adivinhar o que poderá ocorrer. Adivinhando, previnem. Quando acontece, passam por maus agoureiros, invocadores da má sorte. A simples cena de uma criança subindo na cadeira é bastante para ilustrar. “Você vai cair” — fala o velho. “Não vou” — desafia a criança. Então, cai.

Tudo de que idosos e vividos podem dispor é alguma experiência de vida. Só. E, no entanto, a experiência de viver não serve nem mesmo para quem já a tem. Ora, que diabos iria, por exemplo, lá, eu, fazer com minha experiência de militância político-ideológico-partidária? Serve-me, apenas, para não ser militante de mais nada. Em mais nada.

Não sou velho tolo para dizer, a um jovem idealista, ser impossível construir o mundo idealizado. Que moço acreditaria? Graças aos céus, a juventude é surda. Sem ouvir, vai em busca de viver seus sonhos, acreditando neles. O inventor de todas essas coisas — de céus, terras, mares, bichos — soube fazer as coisas: se jovem ouvisse o realismo da experiência dos velhos, o mundo seria desinteressante.

Agora, quero aquilo que o italiano de Tívoli recusou: não ter qualquer utilidade para ninguém, ficar quietinho no meu canto, ter todas as horas do dia para mim e minha sociedade dos poetas e músicos e pensadores mortos. E escrever. Ora, é um inverno estranho, um inverno primaveril. Ainda ouço zumbido de abelhas, vejo borboletas misturando-se às flores, vejo gatos e cães no cio, é o mundo no cio. Apenas os loucos não o percebem.

Aos 75 e mesmo no Inverno, insisto na sagração pessoal à Primavera. E na consagração. Quando se descobre o sagrado da vida, o coração é de criança, eternamente surpreso diante do novo que se repete a cada dia.