Publicado 01 de Julho de 2015 - 19h05

[CR_TXT_3LINH]João Nunes[/CR_TXT_3LINH]

[CR_TXT_PROCE]ESPECIAL PARA O CORREIO[/CR_TXT_PROCE]

Um Pouco de Caos (A Little Chaos, Reino Unido, 2015), de Alan Rickman, que estreia hoje nos cinemas de Campinas, tem alguns encantos. A bela música de Peter Gregson que embala momentos chaves e oferece pausas adequadas, a fotografia de Ellen Kuras que, com cores ricas e fortes emolduram bem um filme de época (estamos em Paris em meados do século 17) e, principalmente a atuação de Kate Winslet que, refeita da maldição do Oscar, volta em grande estilo depois de ter embarcado em vários projetos duvidosos.

Há ainda o trabalho do belga Matthias Schoenaerts (o mesmo que se encaixou muito bem no belga-francês Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard, 2012) cuja personalidade marcante (perspicaz, sedutor e elegante) consegue chamar a atenção do espectador para si. Como são protagonistas, ele e Kate Winslet garantem o bom nível das interpretações — que se somam aos outros sempre competentes atores britânicos. Mas ficamos por aqui.

Alguém pode entender que tais qualidades seriam suficientes para considerá-lo um bom filme. Digamos que sim; porém, temos a nítida impressão de que já o vimos antes; talvez porque o roteiro abuse do tom telenovelesco.

Por exemplo, a mulher do famoso arquiteto André Le Notre (Mathias), interpretada por Helen McCrory, o surpreende e o espia através da janela (imagem lugar comum em novelas) e se encarrega de investir contra a paisagista Sabine de Barra (Kate), mas deixará uma pista óbvia para o marido encontrar.

São pequenos, mas insistentes clichês que nos fazem afastar da trama porque, afinal, tudo parece previsível demais. Da escolha de Sabine para ajudar o arquiteto a projetar os jardins do Palácio de Versalhes, na França, ao nada surpreendente romance entre eles, além do desfecho.

E, mesmo tendo feito nome como ator e com pouca experiência na direção, Alan Rickman encara logo três funções: diretor, ator e coroteirista (com Jeremy Brock). Isto talvez explique porque falta algo ao filme. Algo como um olhar de fora, por exemplo, que atue como crítico capaz de encontrar os defeitos que o diretor foi incapaz de ver.

Como a lentidão narrativa. E a notamos não porque nossos olhos se acostumaram com aceleração de imagens dos filmes atuais, mas porque ela se arrasta mesmo — ainda que isso possa se associada à linguagem, uma época em que o tempo parecia menos corrido. Ocorre que não funciona.

E o diretor/ator faz um rei Luís XIV entediado e de fala lenta, como se desacelerasse de propósito a narrativa. Resultado: tal abordagem do ator para o personagem afeta o filme. Somados os equívocos, os aspectos positivos se sucumbem.

Um tanto de caos é o que levará a plebeia Sabine de Barra à elegante e frívola corte francesa. Convencerá o arquiteto André que o projeto dela se coloca num patamar superior ao dele, seduzirá o rei com sua simplicidade e dará algum sentido a diversos personagens.

Pois talvez falte à linguagem do filme justamente uma quantidade razoável de caos em meio a tanto refinamento hipócrita tão típico das aristocracias. Ou seja, assim como a corte, o longa de Alan Rickman precisaria de uma boa chacoalhada.