Publicado 16 de Julho de 2015 - 5h30

Vieram uns pingos grossos de chuva e parou por aí. Fiquei a madrugada toda esperando pela chuva que não veio. Tosse. Ar seco. Rinite. Pego um frasquinho e derramo pingos nas narinas. As plantas da varanda estão sedentas. Rego-as. A pequena fonte está seca. Alimento-a. Tic-tac. É o relógio da sala pingando o tempo. E não tenho como enxugá-lo. Vou pra cama e faço palavras-cruzadas assimétricas. O lápis escorregou dos dedos e tenho preguiça de buscá-lo debaixo do criado-mudo. Isso sempre acontece. O sono não avisa. Um carro canta os pneus em alguma curva da Orosimbo Maia e... graças!, seguiu sem maiores problemas. O coração acelera. Penso na mãe recebendo notícia do filho acidentado. E reacordo. A água da talha está fresca. O vizinho do prédio próximo também está sem sono e fica espiando a madrugada se esvaindo em estrelas empoeiradas e Lua em aspa afiada. Ele considera razões, pelo visto. É sempre bom considerar em madrugadas insones. Muita gente considera, e até gosta, e muito, de tecer considerações em parapeito de janela, seja de uma casa ou apartamento. Quem considera é incapaz de atrapalhar a vida do próximo, ou mesmo do mais distante próximo. Quem gosta de comer sorvete na rua também. Muitos gostam de chupar sorvete, mas, bom mesmo é mordê-lo em pequenos pedaços, que depois irão se dissolver em uma leve pressão da língua contra o céu-da-boca. A nova reforma ortográfica vai me permitir escrever céu-da-boca, tiretado; ou a partir do ano que vem deverei escrever “céu da boca”, sem os ditos tracinhos? Sei que será mantida a grafia atual de cor-de-rosa, com hífen, como se nota. Mas cor de vinho não terá mais tiretes. O que os nossos doutos acadêmicos da reforma da língua portuguesa têm contra a cor de vinho? Vinho não é cor? Ora, rosa também não é. E cor-de-burro-quando-foge é de que cor? Sem cor, será escrito com hífens? E quando chamarão o hífen de tirete? Pois é, hífen e tirete são a mesma coisa. Vá entender a cabeça dessa gente, hein? É o que considero. E repito que considerar é muito bom. Só é perigoso, diria até letal, quando se acha em considerar na hora de atravessar uma avenida Glicério na hora de pico, que aí o bicho pega, com buzina, palavrão e tudo a que tem direito o motorista que tem uma pressa que ele nem mesmo sabe, freada brusca e susto que dura um dia inteiro. Considerar, só em beira de praia ou parapeito de varanda de apartamento. Em beira de rio vale também, é claro; e de preferência com vara de pescar lambari rabo de prata – com ou sem tirete.

Considerar, meu raro leitor, é ficar espiando o espaço sideral, e pensar que não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos. Mas, mesmo assim, acreditar que tudo foi feito para o homem admirar. Considerar é achar ideias no espaço sideral. Consideratus, em latim. Portanto, não ligue à mínima para uma pessoa que começa uma frase com um “considerando que...”. E, veja só, projetos de lei e sentenças judiciais estão cheios desses “considerando que...”. Mas é bom seguir as regras apesar de todos os considerandos e quejandos. E desnecessário aconselhar que todos se guardem com bons advogados, ou que se estabeleçam em algum tipo de imunidade parlamentar.

Faz séculos que mudaram o sentido exato da palavra considerar, mas ainda acho muito bom considerar de vez em quando, de preferência, na madrugada, no parapeito de uma varanda, ou no velho muro da casa do avô. E comer sorvete também; visto que chupar só vale para os desejos dos velhos dedos da imaginação.

A moça-que-manda-em-mim, ela, sim, que tem tiretes nos substantivos, verbos, advérbios e adjuntos pronominais, que os acadêmicos ainda não inventaram, mandou recado nessa minha madrugada seca e esturricada, assoprando uma ligeira brisa na varanda de nossa casa; embora distante que ela está em ares de Mantiqueira, na velha serra paulista-mineira, saudando a minha saudade e todas as minhas ruas e praças campineiras... e assim me deixei adormecer numa cadeira da varanda. Santo telefonema!

Bom dia, Campinas!