Publicado 15 de Julho de 2015 - 5h30

Quando a crise econômica mais grave se abateu sobre a Grécia, o país não soube equilibrar as suas contas e o governo acumulou uma dívida crescente com seus credores na União Europeia (UE), gerando um quadro de instabilidade econômica, social e política. De maneira oportunista, a esquerda, que ostentava o discurso populista inspirado nos termos bolivarianos implantados na Venezuela, deu o seu recado de maneira clara e contundente: era preciso romper as amarras do capitalismo selvagem, não ceder às pressões dos banqueiros credores, enfrentar as normas da UE, manter os programas populistas e lançar a autodeterminação para enfrentar a crise. O discurso inspirado de Alexis Tsipras o conduziu ao cargo de primeiro-ministro, e sua primeira ação foi recusar-se a pagar a dívida e a seguir os termos contratados. Não foi preciso muito para entender o erro cometido, e não restou-lhe mais do que encenar gestos de indignação, convocar um plebiscito para livrar-se da responsabilidade do jogo infeliz, e finalmente baixar a cabeça para aceitar um acordo semelhante ao que vinha sendo negociado desde o início. Qualquer semelhança com os acordos de sindicatos de trabalhadores com patrões no Brasil não é mera coincidência.

A atitude dos gregos terá efeitos negativos por um bom tempo. Deve-se ter em foco que o mesmo Tsipras veio ao Brasil aconselhar-se com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff sobre o modelo brasileiro de “sucesso” alardeado em todo o mundo. Deu no que deu: uma visão irresponsável de responsabilidade fiscal que fatalmente descamba para a insolvência, baseado na simples constatação de que não se pode gastar mais do que se arrecada. Desafiar os credores e ameaçar sair do bloco europeu soou como bravata e o custo disso é a queda do grau de confiança que os gregos desfrutam agora, fechando muitas portas, inclusive de novas linhas de crédito.

Não foram poucos os discursos ufanistas que exaltaram o espírito “independente” da esquerda grega, baseado apenas no rompimento de um ciclo de dependência do capitalismo, sem apresentar qualquer alternativa lógica, plausível e racional de gestão econômica. Pregar apenas a responsabilidade social a qualquer custo é fácil com dinheiro dos outros; desonrar os compromissos e transformar os credores em carrascos é apenas mau-caratismo de Estado. Tem sido recorrente esse discurso que já fracassou em todos os países onde se tentou implantar. Na Venezuela deu certo enquanto o petróleo abundante e em alta sustentavam os sonhos megalomaníacos de Hugo Chávez. O resto a história se incumbiu de soterrar.