Publicado 11 de Julho de 2015 - 5h30

A sociedade vive um dilema e uma contradição evidente: a evolução da dengue como uma epidemia desafia toda a lógica de controle sanitário nos centros urbanos, a capacidade de mobilização de agentes de saúde, a sensatez de se eliminar os possíveis focos de procriação dos mosquitos transmissores e de estabelecer um pacto de seriedade para o enfrentamento de um grave problema de saúde. O número crescente de casos demonstra que as principais providências, que parecem simples por conter princípios elementares de higiene e limpeza, acabam se tornando inviáveis. Todo esforço e toda mobilização não impediram que Campinas atingisse um número inédito de casos confirmados neste ano — 51 mil segundo levantamento realizado até 26 de junho —, um acréscimo de 20% em relação ao ano passado (Correio Popular, 7/7, A7).

O problema da dengue não se limita apenas aos efeitos dolorosos e aos graves riscos da doença que podem levar à morte. As filas nos postos de atendimento de saúde inviabilizaram a correta atenção à população, esgotando a capacidade de exames, encaminhamentos e cuidados especiais, criando uma situação de perigo por eventuais riscos de diagnóstico, sem contar parte da população que sequer procurou assistência médica e arriscou-se a deixar passar os efeitos da doença.

As autoridades de Saúde admitem que a extensão do problema é realmente grave e pode se repetir. Muito foi realizado neste ano para combater a proliferação dos mosquitos e a incidência da dengue, envolvendo as várias secretarias municipais, estaduais, elementos do Exército que se engajaram na campanha, num conjunto de providências que se poderiam esperar numa situação destas. Ainda assim, os resultados foram frustrantes e o próprio secretário de Saúde de Campinas admite que somente um milagre poderá evitar a reincidência da epidemia no próximo ano, mesmo considerando o período atípico de seca registrado em 2014. O motivo é o baixo engajamento da população nas medidas preventivas, sem o que não resolvem totalmente as ações desenvolvidas.

De fato, há uma enorme resistência de parte da população em assumir sua parte no trabalho preventivo, sem se dar conta de que o desleixo na limpeza de eventuais criadouros reverte em prejuízo a todo o sistema de saúde, agravando os efeitos do que poderia ser uma doença tropical facilmente controlável e resolvido com o simples engajamento da sociedade em uma luta em que a civilidade perde para a falta de consciência da busca de um bem coletivo.