Publicado 10 de Julho de 2015 - 5h30

O presidente da Serviços Técnicos Gerais (Setec), autarquia que administra os cemitérios municipais de Campinas, Sebastião Sérgio Buani dos Santos, informou ontem que vai pedir autorização ao Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Condepacc) para instalar um gradil no entorno do monumento aos heróis da Revolução Constitucionalista de 1932, em frente ao Cemitério da Saudade. A medida, disse, visa impedir atos de vandalismos como os que ocorreram este ano, quando as fotografias em louça e as 16 placas de bronze que identificavam os campineiros que pegaram em armas para combater a ditadura de Getúlio Vargas, e que estão sepultados no local, desapareceram.

A instalação de gradil, no entanto, não deve ser autorizada. O presidente do Condepacc, Ney Carrasco, disse que o conselho é soberano para decidir, mas que ele fará tudo para que não seja autorizado. “Já temos grades demais na cidade”, afirmou, durante a solenidade de comemoração dos 83 anos da revolução, em que várias autoridades foram homenageadas, ontem.

Carrasco disse que as fotos e as placas começaram a ser repostas, mas não mais em bronze. A Prefeitura mandou confeccionar as placas em material que imita o bronze para tentar evitar que sejam novamente roubadas. “Esse tipo de material (acrílico) vem sendo usado no mundo todo para evitar vandalismos em monumentos”, afirmou.

Para o vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), Guilherme Campos Júnior, a instalação de gradil e a substituição das placas de bronze que foram roubadas por outras de acrílico mostra a incompetência do poder público em cuidar de um patrimônio que é público. Campos, quando deputado federal, apresentou emenda parlamentar ao orçamento federal, que só foi liberada em 2013 pelo Ministério do Turismo, para o restauro do monumento.

História

De autoria de Marcelino Velez, o mausoléu do soldado constitucionalista foi inaugurado em Campinas em 9 julho de 1934, dois anos após os combates, e abriga os restos mortais de voluntários campineiros que morreram em decorrência do movimento de 1932. A construção foi financiada na época pela iniciativa privada. A inauguração contou com a presença do poeta da revolução, Guilherme de Almeida, que fez o discurso inaugural.

Entre os 830 paulistas mortos durante a revolução, 16 eram campineiros e estão homenageados no monumento em frente ao Cemitério da Saudade. Foi necessário um grande esforço de guerra e, em Campinas, antigas fábricas passaram a ser depósito de balas, capacetes e granadas, materiais fundamentais no combate.

A Casa de Saúde transformou-se em hospital de guerra para atender combatentes feridos e Campinas foi uma das primeiras cidades a ser bombardeada, levando à morte do menino Aldo Chioratto, escoteiro atingido por uma série de estilhaços. O último revolucionário de Campinas morreu no ano passado. A solenidade de ontem no monumento aos soldados constitucionalistas teve a presença de José dos Santos Marques, de 100 anos, que era escoteiro na época da revolução.

Cavaleiros desfilam para lembrar os combatentes

Em homenagem aos combatentes da Revolução Constitucionalista de 1932, o Clube dos Cavaleiros de Nova Odessa realizou na manhã de ontem o 3 Desfile de Cavaleiros e Charreteiros de Nova Odessa e região. As homenagens aos soldados foram abertas com uma celebração ecumênica do padre Renato Marchioro no Cemitério Municipal, onde estão enterrados nove combatentes da Revolução.

Também foi realizada uma exposição de alguns objetos da época no Centro Ecumênico do cemitério. Doados há mais de dez anos à municipalidade, entre as relíquias expostas estão medalhas, munições e um capacete que teria sido usado pelo ex-combatente paulista Aristeu Valente. As relíquias voltarão agora para o Centro Cultural Herman Jankovitz.

O percurso do desfile dos cavaleiros e charreteiros foi de aproximadamente cinco quilômetros e teve início na Praça dos Três Poderes, em frente à Prefeitura. O desfile passou pelas principais ruas do Centro e pelos bairros Bela Vista, Santa Rosa, São Jorge e Nossa Senhora de Fátima. No final do trajeto, foram realizados shows e sorteio de brindes. Parte do valor arrecadado com o estacionamento será revertido para a Associação dos Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos de Nova Odessa (Apadano).

Presidente do Clube dos Cavaleiros de Nova Odessa, Lindolfo Oliveira, conhecido como Tieta, destacou a importância da homenagem e afirmou que o evento é uma forma de manter viva a memória dos soldados. “É uma responsabilidade grande, porque eles foram heróis. Apesar de terem se rendido, lutaram e fizeram algo por esse País”, disse.

O prefeito Benjamim Bill Vieira de Souza (PSDB) compareceu ao evento vestido a caráter, montado em seu cavalo, com bota e chapéu de cavaleiro. “Nova Odessa teve 13 combatentes e um deles perdeu a vida em combate. Essa homenagem valoriza a Revolução de 32. São Paulo é uma potência e um Estado que é solidário ao Brasil”, afirmou o prefeito.

Em 1932, até então distrito de Americana, Nova Odessa enviou às batalhas 13 combatentes: Alberto Bartolo, Antonio Prado, Aristeu Valente, Benedito Camargo, Eduardo da Silva, Faustino de Moraes, Fausto Moraes, Francisco de Souza, Joaquim Rodrigues Azenha, Martholino Teixeira Filho, Roberto Whitehead, Shano Jorge Sprogis e Theodomiro Delegá.

Aristeu Valente foi o único morto em combate. “Os nossos familiares contam que ele não foi convocado para o combate. Na época, os pais dele chegaram a pedir para não ir, mas, mesmo assim, foi de livre e espontânea vontade, pela paixão que tinha à pátria e acabou morto em uma emboscada com uma baioneta”, contou a sobrinha do combatente, Maria Célia Dias Blanco. (Bruno Bacchetti/AAN)