Publicado 09 de Julho de 2015 - 5h30

A Polícia Civil de Campinas divulgou ontem o resultado de sete laudos das dez mortes de moradores de rua registradas desde abril deste ano. Nos documentos apresentados, três foram relacionadas a casos de homicídio ( um deles não é considerado pela Prefeitura como sendo morador de rua). Sobre os outros quatro, o delegado-titular do 1 Distrito Policial, José Carlos Fernandes, informou que o álcool combustível, até então considerado um dos principais fatores dos óbitos, não foi detectado nas análises toxicológicas feitas pelo Instituto Médico Legal (IML).

De acordo com a polícia, a partir de agora será instaurado inquérito para apurar a causa da morte de Luis Carlos Pedro Dias, de 62 anos, encontrado na Rua Barão de Jaguara no dia 4 de junho. O laudo apontou como causa do óbito traumatismo craniano, mas a polícia investiga se pode ser por queda ou crime. Esse caso será encaminhado para o 10 Distrito Policial, responsável pela área onde o corpo foi encontrado.

Os laudos revelam que houve óbitos por infarto, hemorragia intracraniana não traumática e “causa indeterminada” (veja relação dos laudos nesta página). Na primeira morte, ocorrida no dia 3 de abril, o laudo apontou “causa indeterminada”. “Os exames toxicológicos e a dosagem alcoólica deram negativos. Também não houve sinais de violência, e o morador usava uma bolsa de colostomia”, explicou Fernandes. A vítima era Flávio Santos de Souza, de 37 anos, que foi encontrado na Rua Bernardo José Sampaio, no bairro Botafogo.

A polícia aguarda agora os laudos das mortes relacionadas a Marcelo Bueno de Lima, de 42 anos, conhecido como “Barbinha”, encontrado morto no dia 11 de junho em frente ao Terminal Metropolitano Prefeito Magalhães Teixeira; da vítima Oliveira Rodrigues, de 54 anos, encontrado na Avenida Benjamin Constant dia 17 de maio, e de Afrísio Pereira, de 61, o “Cotonete”, encontrado dia 15 do mês passado na Avenida Governador Pedro de Toledo.

Suspeito

Na semana passada, policiais do Setor de Homicídio e Proteção a Pessoa (SHPP) de Campinas prenderam o suspeito de ter matado a tiros dois moradores em situação de rua no bairro Vila Itapura e Botafogo, nos dias 18 e 20 de junho, respectivamente. Danilo Almeida Costa, de 27 anos, conhecido na região central como “Boy”, é apontado como autor dos disparos que mataram Ednaldo Alves dos Santos, de 38 anos, e Marcos Eugênio Martins Correa, de 28, conhecido como “Salsicha” — assassinado em um barracão em frente ao Serviço de Atendimento ao Migrante, Itinerante e Mendicante (Samim), no Botafogo.

Porém, a polícia atribui um dos casos de homicídio colocado no relatório à morte de Luciano Barbosa, assassinado por um morador de rua no dia 1 de junho ao lado do terreno da antiga rodoviária. Luciano não era morador de rua. Sendo assim, dos casos que precisam de esclarecimento sobre a causa da morte está o do morador de aproximadamente 55 anos. Ele passou por cirurgia no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, mas não sobreviveu. Ele foi encontrado inconsciente, com muito sangue nos ouvidos e nariz, em uma calçada do bairro Vila Itapura, na metade do mês de junho. Ele foi o 10 morador com a morte contabilizada pela Prefeitura.

A polícia também colocou no quadro de laudos Paulo João Tertuliano, de 34 anos, que morreu no dia 29 de junho na Rua Hilário Magro Junior, ao lado do Bosque dos Jequitibás. O laudo acusou infarto agudo do miocárdio, mas Paulo não constava, até então, na lista de óbitos da Prefeitura de Campinas. Com isso, o número de óbitos pode passar de 11, conforme já haviam declarado alguns profissionais de fóruns e entidades que trabalham diretamente com essa população.

A polícia, no entanto, não deu previsão para a divulgação dos próximos laudos. Enquanto isso, nesta semana o Conselho dos Direitos Humanos e da Cidadania de Campinas definiu duas principais frentes de trabalho que pretendem intensificar a discussão sobre a morte das pessoas em situação de rua. Uma delas será analisar junto ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) como foram atestadas as mortes dos moradores nos últimos meses, como uma alternativa de análise enquanto os demais laudos não são divulgados. A outra medida será instituir dentro da Secretaria Municipal de Saúde um comitê que acompanhe esses óbitos, com a presença de especialistas.

Falta de controle na entrada do Samim causa preocupação

A Comissão Permanente de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Câmara Municipal realizou na tarde de ontem uma visita às instalações do Samim (Serviço de Atendimento ao Migrante, Itinerante e Mendicante) e uma das preocupações apresentadas pelo presidente da comissão, vereador Carlão do PT, foi com a falta de controle na entrada de drogas e bebidas alcoólicas.

Essa deficiência foi relatada pelos próprios funcionários e frequentadores. “No abrigo, apesar de encontrar a estrutura boa, a situação de permanência dos moradores de rua tem sido precária. A preocupação é a entrada de álcool e droga, que pode gerar o grau de violência vivida na rua. Não há um controle total, embora exista uma portaria”, expôs o vereador.

“Tentamos controlar ao máximo. Não deixamos entrar com garrafas, as bagagens ficam no bagageiro, mas alguma coisa passa, sim. Seria hipócrita se eu dissesse que não”, disse Hilton Silva, psicólogo da Prefeitura que trabalha no setor de alta complexidade de população adulta de rua.

O representante da comissão, que começou na semana passada a abordar as condições dos moradores na situação de vulnerabilidade, informou que deverá apresentar para a Prefeitura, através do Legislativo, proposta de ampliação da política pública de acolhimento para até a utilização dessas pessoas como mão de obra para a cidade. “A intenção é que eles sejam prestadores de serviço e não só acolhidos. É preciso aumentar a permanência, sendo que sejam abrigados com alugueis sociais e em contrapartida prestem serviços”, disse.

No dia 1 de julho, um homem de 42 anos morreu dentro do Samim. De acordo com a coordenadora do local, Inês Rodrigues Cussolin, o morador em situação de rua deu entrada por volta das 23h30 do dia 31 de maio no serviço e não quis comer. Ele se deitou e pela manhã estava morto. Os médicos atestaram a causa da morte como natural. A coordenadora informou que o rapaz nunca havia passado por nenhum equipamento da rede municipal, e que familiares de Jacareí disseram que o último contato que tiveram com ele foi em uma clínica de recuperação, há poucos meses.

O acolhido Flávio Alves de Oliveira relatou que apenas um chuveiro está funcionando, e os banhos demoram muito. “Levo até quase 2 horas para poder tomar banho. Tem quatro canos sem chuveiro e ninguém arruma”, criticou. A coordenadora explicou que existe um responsável por anotar as necessidades e repassar para uma equipe de manutenção, mas não soube informar se os chuveiros serão repostos brevemente.

Já o aposentado Luis Carlos dos Reis Correia, de 60 anos, informou que teve seu aparelho de som furtado pelos drogados que entram no Samim. “Levaram meu som, roupas de um colega. Isso aqui virou uma festa de gente bêbada e drogada”, disse o morador, que está lá há pouco mais de três meses. (GA/AAN)