Publicado 07 de Julho de 2015 - 5h30

Alunos e ex-alunos de diferentes turmas do curso de medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas conseguiram, por meio de financiamento coletivo na internet, R$ 45,7 mil para homenagear os professores demitidos no final de junho, após terem os nomes citados na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Trotes, da Assembleia Legislativa de São Paulo, e serem desligados da universidade. O dinheiro, segundo os alunos, é para financiar uma campanha publicitária, com outdoors na cidade, lembrando a importância dos professores na vida acadêmica e profissional. Dois dos três professores lecionavam no curso há mais de 30 anos e eram queridos pelos estudantes.

São 11 turmas diferentes, que levantaram o dinheiro pelo site de financiamento coletivo Vakinha (www.vakinha.com.br). No total, dez outdoors estão espalhados por Campinas. Um deles na Avenida General Carneiro, na Vila Industrial. A maior campanha arrecadou quase R$ 19 mil — a meta era conseguir R$ 15 mil. Além dos anúncios, os alunos também abriram um abaixo-assinado on-line, pedindo à PUC-Campinas que recontrate os professores demitidos. Até ontem, eram 636 assinaturas.

“Queremos homenagear e agradecer dois professores que contribuíram com o ensino médico e seus pacientes. A ideia é chamar a atenção da sociedade para a situação, pois o sentimento é de injustiça”, disse a aluna do 6 ano Beatriz Moraes. Ela criou uma das vaquinhas e arrecadou o maior valor no site. Segundo ela, os alunos ainda estudam o que fazer com o restante do dinheiro arrecado. Beatriz disse que as demissões proporcionaram perdas para a formação acadêmica e humanitária dos alunos, além dos pacientes, que perderam médicos dedicados.

Pressão

A campanha foi a forma encontrada para continuar a pressionar a PUC-Campinas para a volta dos professores ao corpo docente. A PUC, no entanto, mantém a decisão da demissão, sem informar o motivo. Dos três professores, apenas uma foi demitida por justa causa. A medida provocou uma onda de protestos dos alunos da faculdade, principalmente dos que estão no 5 e 6 anos.

Eles alegam que os professores demitidos não têm relação com os trotes e que as denúncias — de alunos do 1 e 2 ano — são infundadas. Os professores demitidos foram citados na CPI dos Trotes, que ouviu professores de universidades paulistas após denúncias de abusos. À CPI, os professores disseram desconhecer as práticas do trote, como agressões, venda de kits e cobrança de dinheiro para ser usado para compra de bebida em festas, e negaram todas as denúncias.

Os estudantes da universidade buscam auxílio jurídico para acompanhar o caso. Na última semana, eles entraram de recesso. Um dos professores demitidos, o médico Carlos Osvaldo Teixeira, conhecido como Caiá, afirmou na última semana que a demissão foi sem justa causa e que ele foi absolvido da sindicância interna da universidade sobre os trotes.

Alunos dizem que exigirão quadro completo de docentes

Os estudantes de medicina da PUC-Campinas pretendem entrar com pedido na Justiça para que o próximo semestre esteja com quadro completo de professores, após a instituição ter demitido três docentes e outros dois pedirem demissão em solidariedade. O caso ocorreu no final de junho e os alunos voltam às aulas no dia 4 de agosto. O presidente do Diretório Acadêmico, Guilherme Henrique Zanluchi, afirmou que os alunos estudam a medida judicial, caso os demitidos não sejam recontratados. “Infelizmente não podemos pedir a recontratação dos nossos professores (demitidos). Mas é um direito nosso como consumidor”, afirmou. Segundo ele, os estudantes podem exigir que o quadro de professores esteja completo e com professores de gabarito igual. Zanluchi, no entanto, não soube informar ainda quais medidas judiciais podem ser usadas. A faculdade de medicina da PUC-Campinas é particular e a mensalidade custa acima de R$ 5 mil. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, as universidades poderão propor o seu quadro de docentes, técnico e administrativo, assim como um plano de cargos e salários, atendidas as normas gerais pertinentes e os recursos disponíveis. Dentro do quadro, é preciso que um terço do corpo docente, pelo menos, tenha título acadêmico de mestrado ou doutorado e um terço deve trabalhar em regime de tempo integral. Em nota, a PUC-Campinas informou que “a Instituição assegura a todos o livre direito de petição, bem como, a regular interposição de recursos, e reforça que continuará primando pela qualidade de ensino”. A reitoria informou ainda que “as decisões tomadas em relação ao desligamento de docentes obedeceram aos ritos regulares internos e normas trabalhistas cabíveis, sem prejuízo e com integral respeito à honra e à intimidade dos envolvidos”.

Quanto às sindicâncias, a universidade informa que trata-se de assunto interno à instituição, razão pela qual, em respeito a todos os envolvidos, não se pronunciará. (SB/AAN)