Publicado 04 de Julho de 2015 - 5h30

No ano em que as últimas eleições estavam por acontecer, alimentando a expectativa de uma mudança significativa na vida política do País, as manifestações de rua estavam muito vivas na memória das pessoas. Os protestos tiveram início com uma articulação pela redução do valor de tarifas de ônibus em algumas capitais, mas logo tomaram uma dimensão extraordinária. Todos os temas que se encontravam engasgados na população tomaram forma de manifestações espontâneas que invadiram as ruas, soltando o grito de indignação da sociedade contra a política nefasta que dava mostra de corroer as instituições.

Logo as implicações dos protestos começaram a ser compreendidas e o governo federal parece ter sentido o golpe. Não tardou para que as intervenções violentas de black blocs esvaziassem o movimento, intimidando e criando auras de proteção à presidente Dilma Rousseff e ao Partido dos Trabalhadores, que acabaram no foco principal das reclamações. Os protestos refluíram e a contagem dos votos em 2014 mostraram a eficiência de um projeto de eleição virulenta, plena de surpresas e mentiras.

Em meio a mais séria crise política que o Brasil viveu desde o impeachment de Fernando Collor de Melo, novamente articula-se a mobilização da sociedade para tomarem as ruas em protesto contra o governo federal, em evento marcado para o próximo mês em 200 cidades brasileiras. Seus organizadores levantaram um tema unificado: “Não vamos pagar a conta do PT”, uma referência ao ajuste fiscal proposto pelo governo federal, trazendo uma nova perspectiva para a marcha, que é a adoção de um discurso único, focado, objetivo. Para Campinas, os organizadores têm a expectativa de reunir mais manifestantes que da vez anterior, reforçando o movimento pelo impeachment da presidente, que sofreu sensível recuo (Correio Popular, 28/6, A8).

É de se conferir o nível de adesão da população, que a essa altura está precavida para não ser usada como massa de manobra ou pretexto para atos de violência. As marchas de rua são parte essencial da democracia e se prestam a expor em linhas claras a insatisfação da sociedade e suas reivindicações. Quando assumem a característica de um grupo de dezenas de milhares de pessoas, é preciso um discurso uníssono, legítimo e ordeiro, sem infiltrações mal-intencionadas com o objetivo de calar as vozes discordantes. Qualquer tentativa de radicalização não será bem-vinda, até porque se presta apenas para intimidar e abater os ânimos contrários.