Publicado 02 de Julho de 2015 - 5h30

A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) da Polícia Civil de Campinas vai investigar a agressão a uma manifestante na última sessão da Câmara, mostrada em um vídeo gravado durante a votação no dia 29, quando o Legislativo aprovou veto à discussão de gênero nas escolas municipais. O vídeo mostra o momento em que uma professora a favor da inclusão foi agredida por um rapaz — que se posicionava contra — levando dois socos na cabeça. A vítima, Carolina Figueiredo, registrou boletim de ocorrência após o caso e disse que a agressão foi “horrível”.

Durante a sessão, o acusado pela agressão, Cássio Guilherme Silveira, mostrava a bandeira do Movimento Integralista Linear Brasileiro — grupo de ideologia conservadora e nacionalista — quando entrou em conflito com a professora e socou a cabeça dela. Ele é presidente do movimento e disse que os tapas foram em legítima defesa porque a professora havia agredido os integrantes do Integralismo antes.

As imagens foram feitas pela TV Movimento, ligada a movimentos de esquerda. O vídeo mostra que guardas municipais estavam próximos aos manifestantes, mas não evitaram a agressão. A sessão aprovou, em primeira instância, o projeto de emenda à lei orgânica do vereador Campos Filho (DEM) que veta discussões sobre “ideologia de gênero” no Plano Municipal de Educação. Se aprovado em segunda instância, o texto proibirá que o Executivo inclua o tema no currículo escolar.

Segundo Carolina, o momento foi muito tenso. “A sessão teve um discurso de ódio muito grande. Eu estava muito perto do cordão feito pela GM que dividia o plenário entre as posições contrária e a favor, e o agressor me empurrou, deu tapas na cara. A Câmara e a Guarda Municipal foram coniventes com o que ocorreu”, disse.

Segundo ela, o agressor foi escoltado no plenário pela GM, mas não foi levado para a delegacia de polícia. Silveira diz que a professora agrediu antes os militantes do Movimento Integralista, tentando rasgar a bandeira que carregavam e que teria mordido a mão de um deles. Ela nega. “Não aconteceu nada disso. Pelas fotos e imagens dá para ver a desigualdade. Tenho 50 quilos, ele é enorme. Nada disso ocorreu”, disse.

Em nota oficial, o PSOL repudiou a agressão e disse que é “inadmissível que a violência contra a mulher e o machismo sejam reproduzidos no espaço que deveria combatê-los”. O partido também criticou a postura da GM, que, segundo texto da sigla, “nada fez e ainda tentou justificar a omissão covarde alegando que a agressão era mútua”. O PSOL pede punição ao acusado de agressão. O caso foi registrada no 1 Distrito Policial e encaminhado à DDM.

O presidente do PSOL, Arlei Medeiros, disse que a Câmara tem adotado atitude repressora, não liberando espaço suficiente para as pessoas contrárias à posição da maioria dos vereadores. “Nossos advogados vão acompanhar o caso.”

Câmara

A Câmara de Campinas informou, em nota oficial, que “refuta veementemente qualquer tipo de violência cometida por quem quer que seja, sob quaisquer alegações”. A Câmara também refutou a acusação de que o Legislativo e seus integrantes foram coniventes em relação a esse tipo de conduta.

O Legislativo informou que é aberto à população, e que permite a entrada de pessoas de todas as convicções para que se manifestem de maneira respeitosa. No entanto, devido ao assunto polêmico votado no dia 29, informou que tomou “medidas preventivas para evitar quaisquer confrontos entre os presentes nas sessões”.

Na segunda-feira, o Legislativo informou que “a Guarda foi acionada e estava na Casa já antes da sessão, e acompanhou toda ela dentro do plenário, assim como a Polícia Militar dava suporte do lado de fora”. Quando houve o tumulto, a Câmara informou que a GM interveio “separando as partes e levando-as ao 5 DP, que deverá proceder inquérito para apurar responsabilidades”.

A Casa ressaltou que a ação da GM pôde ser constatada inclusive pelas palavras dos vereadores ao vivo (e gravadas) pela TV Câmara, uma vez que “o vereador Pedro Tourinho (PT), que ocupava o microfone, alertou à presidência da Mesa sobre uma agressão que estaria enxergando no plenário e o presidente Rafa Zimbaldi (PP) prontamente pediu ao vereador que se acalmasse porque a GM já estava no local separando os envolvidos”.

A GM, por meio de assessoria, informou que os guardas que estavam no local e agiram corretamente. Após a agressão, a corporação informou que separou os manifestantes e encaminhou ambos para a delegacia.

Acusado é da PF e afirma que agiu para se defender

O engenheiro e presidente do Movimento Integralista e Linearista Brasileiro (Milb), Cássio Guilherme Silveira, afirmou, em entrevista ao Correio, que a agressão foi em “legítima defesa”, mas sem a intenção de machucar a manifestante.

Silveira é policial federal e diz estar alocado no Tribunal Regional do Trabalho. A PF confirmou que Silveira é servidor da corporação e que estava em folga. Um procedimento disciplinar interno será aberto para apurar a sua atitude. Segundo o policial, a professora estava agressiva e chegou a puxar a bandeira que ele segurava para rasgá-la. “Não fomos lá para criar confusão ou agir com violência. O problema é que alguns militantes a favor (da inclusão da discussão de identidade de gênero nas escolas) começaram a ameaçar pessoas do nosso movimento”, afirmou.

Silveira disse também que a professora mordeu a mão de um dos militantes integralistas. “Também fizemos boletim de ocorrência contra ela. E, no calor do debate, não podemos aceitar que sejamos ofendidos e não ter posição de defesa.” O militante integralista afirmou ainda que o movimento não tem interesse em entrar em confronto com membros de partidos. Ele disse que concorda com o veto ao debate de identidade de gênero nas escolas. Na sua opinião, a escola precisa de investimento, e não de discussões ideológicas. “Isso pode causar psicopatia e alterações comportamentais nas crianças. Não é o que precisamos.” (SB/AAN)