Publicado 01 de Julho de 2015 - 5h30

A Polícia Civil de Campinas prendeu um homem suspeito de ter matado a tiros dois moradores em situação de rua no bairro Botafogo, nos dias 18 e 20 de junho, supostamente para cobrar dívidas relacionadas ao consumo de drogas. Danilo Almeida Costa, de 27 anos, conhecido na região central como Boy, foi preso na sexta-feira e apresentado pelos policiais civis do Setor de Homicídio e Proteção à Pessoa (SHPP) na manhã de ontem.

Desde o início do ano, dez moradores de rua morreram em Campinas, e a polícia ainda aguarda os laudos das demais mortes. Segundo a polícia, há relatos de que Boy quisesse fazer uma “limpa” na região central. O suspeito já foi reconhecido como autor de uma tentativa de latrocínio ocorrida dia 12 de junho, em frente à rodoviária.

Boy é apontado como autor da morte do morador de rua Marcus Eugênio Martins Corrêa, de 28 anos, com o apelido de Salsicha, no dia 20 deste mês, em um barracão abandonado em frente ao Setor de Atendimento ao Migrante, Itinerante e Medicante (Samim), no Botafogo. Segundo o delegado titular do SHPP, Rui Pegolo, a motivação seria dívida de drogas.

“Chegamos ao suspeito através de relatos dos próprios moradores de rua, cansados de tanta agressão e violência imotivada, o denunciaram indicando onde ele morava”, disse Pegolo. Boy foi preso ao chegar em uma casa abandonada que usava como residência, no Centro, por volta das 15h de sexta-feira. No local a polícia encontrou facas, um estojo com projéteis calibre 38 e acredita haver indícios de que Boy era traficante.

“Há vários depoimentos na região central de que ele andava com um revólver calibre 38, e agora vamos comparar os projéteis das vítimas para ver se partiu da mesma arma de fogo. Ele não confessa os crimes, porém, os indícios são fortes e os reconhecimentos eficazes de que ele seja o principal suspeito de ser o matador de moradores de rua”, disse o delegado.

“Infelizmente, os moradores de rua, para manterem o próprio vício, acabam vendendo pequenas porções, pois de cada dez que vendem ganham três. Ele fornecia para os moradores, que no caso consumiam e não lhe pagavam.” A suspeita de que ele “faria uma limpa” veio do depoimento de uma testemunha protegida. “Isso nos surpreendeu e nos remeteu a começar a investigação de outros crimes na região central com as mesmas características”, afirmou Pegolo.

A polícia informou que na segunda-feira ouviu uma testemunha, vítima de uma tentativa de latrocínio no dia 12 de junho, que afirmou ser Danilo Almeida o autor do disparo que o acertou na região do abdômen. A vítima saía com a mulher da rodoviária quando teria sido abordada pelo suspeito, que sem motivo efetuou o disparo. A vítima passa bem.

Agora a polícia investiga todos os outros homicídios ocorridos na região central com essas características, ou seja, tiro com calibre 38 — segundo Pegolo já há uma forte suspeita de ele seja o autor do assassinato do morador de rua Ednaldo Alves dos Santos, de 38 anos, conhecido como Baiano, que levou um tiro também de calibre 38 no ouvido, enquanto dormia em um gramado próximo à rodoviária, no dia 18 desse mês.

Entretanto, Danilo nega as acusações, e disse que a polícia o estaria confundindo com “outro Boy”, mas não deu detalhes sobre esse outro suspeito. Ele disse que faz alguns bicos na região central, e não explicou o motivo de estar com um estojo de calibre 38 no local onde vivia. “Não teria motivo para matar ninguém”, disse.

A Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) auxiliou na investigação e, de acordo com Rui Pegolo, com a prisão do suspeito há uma expectativa de que caia o número de crimes na região central. Segundo o delegado, Boy ficará preso por 30 dias para auxiliar nas investigações.

Laudos

Segundo o delegado, ainda não há uma conclusão sobre a motivação dos outros casos de morte dos moradores de rua. “Estamos atentos por que, realmente, houve um número grande de mortes de moradores de rua, e o SHPP, juntamente com o 1 DP, aguardam esses laudos para podermos atuar e detectar alguma causa externa, não natural, envolvida nessas mortes, ou se foi por envenenamento, intoxicação”, finalizou. A mistura de álcool combustível com suco em pó para consumo é uma das hipóteses para explicar as demais mortes.

Casal que apelava por atendimento será internado

O casal de moradores em situação de rua e dependentes do crack Elissandro da Silva, de 32 anos, e Franscislaine Aparecida, de 30, receberá hoje atendimento no Instituto Padre Haroldo, através do Programa Recomeço do governo estadual. A situação do casal, que busca há mais de dez dias a internação, foi mostrada pelo Correio na edição de ontem. Francislaine será internada em definitivo, e seu companheiro passará por uma avaliação de perfil — último passo para também receber o tratamento.

Na segunda-feira, Francislaine esteve com Elissandro na sede da Coordenadoria Municipal de Prevenção às Drogas de Campinas para retirar o seu Cartão Recomeço. Esse instrumento é uma política pública de prevenção e tratamento do álcool e outras drogas em comunidades terapêuticas, no caso de Campinas, o Instituto Padre Haroldo, que recebem R$ 1.350,00 mensais por usuário em tratamento. O cartão serve também como instrumento de monitoramento da frequência do dependente no tratamento e controle da prestação do serviço pela entidade. Não há possibilidade de outro uso comercial.

Ambos relataram que estão no mundo das drogas desde a infância, e na semana passada, durante ações da semana de Prevenção às Drogas realizada na região central, o casal buscou junto à coordenadoria uma internação imediata, já que não aguentava mais ficar nas ruas, segundo seus relatos. Porém, o casal precisava seguir os trâmites necessários até o ingresso no instituto, e por duas ocasiões, segundo a Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência e Inclusão Social, eles faltaram às entrevistas e o prazo para a internação foi estendido. Eles deram entrada no tratamento através do programa Recomeço no dia 11 de junho, e no dia 17 não compareceram no instituto. Foi novamente agendado para o dia 22, mas tornaram a não comparecer. O casal confirmou que fez uso da droga na data e não compareceram.

A reportagem também revelou a conduta do coordenador do programa de Prevenção às Drogas de Campinas, Nelson Hossri, junto ao casal, que o procurou na semana passada. Ele disse na gravação feita pela TV Correio que o dependente de crack é “incurável” e para que o casal parasse com o “costume do assistencialismo”, ao reclamarem da demora para reinternação e pedirem atendimento rápido.

A maneira da abordagem feita por Hossri foi considerada inadequada pela secretária municipal de Cidadania Jane Valente e pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Social, que não viu consonância com o protocolo de atendimento inicial aos usuários de substâncias psicoativas, conforme preconiza o Programa Recomeço. Hossri afirmou anteontem que se exaltou, mas que o casal foi agressivo e que já havia se entendido com os dois. A secretária informou que teria uma conversa com o coordenador ontem, para que ele explicasse a conduta que teve com os moradores. Porém, por meio da assessoria de imprensa, a titular da pasta informou que agora o teor da conversa “será tratado internamente”. (GA/AAN)