Publicado 14 de Julho de 2015 - 17h42

Por Helio Paschoal

1,1 milhão de pessoas Foram assassinadas em Auschwitz entre 1942 e 1945, a maioria judeus

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1,1 milhão de pessoas Foram assassinadas em Auschwitz entre 1942 e 1945, a maioria judeus

Para muita gente, a história da Segunda Guerra é aquela vista nos filmes: uma sucessão de cenas de ação recheadas de frases de efeito, atos de heroísmo e a vitória final dos aliados sobre a Alemanha nazista. Para um número menor de pessoas, a história da Segunda Guerra é um tanto mais sombria - envolve dor, sofrimento e morte na casa dos milhões de pessoas, soldados e civis, homens e mulheres, adultos e crianças. E para um número mínimo de pessoas, a história da Segunda Guerra não é apenas história - é uma lição permanente do que o ódio, o racismo e a estupidez humana são capazes de provocar.

Particularmente, eu sempre me incluí neste último grupo - e ver de perto os rastros desse ódio, desse racismo e dessa estupidez se tornaram, com o tempo, quase uma necessidade. Dos historiadores, eu já havia sorvido muita coisa - mas jamais havia pisado onde pisaram aqueles milhões de anônimos e aquelas muitas personalidades notáveis com as quais sempre esbarrei em citações aqui e em descrições mais detalhadas ali. Já era, portanto, tempo de colocar o pé na estrada e ir ver de perto os lugares relacionados a esse trágico e impressionante momento da humanidade. Não todos, claro - isso demandaria muito mais tempo; mas pelo menos alguns dos mais essenciais e impactantes. E impacto é o que não faltou na viagem.

Quatro locais essenciais

Para que o roteiro fizesse o máximo de sentido possível, nele foram incluídas quatro cidades que estiveram no centro de tudo: Munique, onde o nazismo nasceu e cresceu, a primeira cidade a acolher (literal e figurativamente) os discursos de Adolf Hitler; Berlim, onde depois se estabeleceu a capital do III Reich; Varsóvia, da qual quase nada restou após a invasão alemã; e Cracóvia, ponto final da viagem, cujo bucolismo preservado pelos nazistas (a cidade serviu como base administrativa depois da Polônia ter capitulado, e apenas por isso foi poupada das bombas) esconde, a alguns quilômetros de distância, o principal testemunho do maior crime em massa cometido contra seres humanos: os campos de extermínio de Auschwitz e Auschwitz-Birkenau.

O roteiro, claro, interessa especialmente a quem deseja, como era o meu caso, se aproximar ao máximo de locais ligados a alguns dos principais acontecimentos relativos à Segunda Guerra - mas não exclusivamente: todas as quatro cidades possuem seus encantos próprios, e podem ser visitadas de maneira completamente desvinculada de qualquer interesse específico. Mas seria uma pena estar lá e não procurar se inteirar de pelo menos uma parte da história, uma vez que praticamente se tropeça com ela a cada passo dado em cada uma. É uma escolha pessoal para um passeio que, seja qual for a decisão do viajante, vale - e muito - a pena.

Munique

Foto: Divulgação

Munique

Munique

A cidade é mais conhecida pela tradicionalíssima Oktoberfest - que não pretendo abordar primeiro porque muito já falou sobre ela, e segundo porque quando estive na cidade, a festa ainda estava longe de acontecer. Mas com festa ou sem, é uma cidade sedutora. O estereótipo do alemão sério, sisudo e pouco hospitaleiro passa longe de seus portões e muralhas históricas. Dentro dela, o que o turista encontrará será muita simpatia, organização e beleza.

Não se trata de uma grande metrópole, embora tenha um sistema de transporte exemplar, excelentes opções de hospedagem e muita segurança. Há lojas, restaurantes e cafés à vontade (e, claro, muitos locais para uma boa cerveja. Gelada). Uma opção é a histórica Hofbraushaus (onde Hitler costumava reunir seus primeiros seguidores). O segredo em Munique (como nas outras três cidades visitadas) é ter disposição para caminhar. É o melhor jeito de aproveitar tudo o que ela tem a oferecer. E caminhar em Munique é algo que, definitivamente, não cansa.

A cidade está também cheia de pontos de referência para quem busca os primórdios do nazismo. O principal acabou de ser inaugurado em maio: o Centro de Documentação da História do Nacional Socialismo. Trata-se de um museu um pouco fora dos padrões - basicamente, mostra a história do nazismo em fotos, filmes antigos, registros pessoais, jornais e cartazes de propaganda. Tudo exposto feito uma ferida aberta (o que de fato é para a cidade e seus habitantes). O centro é um pedido da cidade de paz com sua própria consciência. Mas é um mea-culpa sem pieguice: é preciso, dissecado em detalhes até dolorosos - mas, para os interessados no tema, extremamente didático e profundamente sincero. Ali pode-se perder várias horas, e dali se sai com uma extensa lista de lugares a serem visitados na cidade, que estiveram ligados à ascensão do nacional socialismo.

Berlim

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Parlamento Alemão em Berlim

Parlamento Alemão em Berlim

Aqui já estamos em uma metrópole de primeira grandeza, onde as opções para os turistas se oferecem na mesma proporção. Há muito o que fazer e conhecer - embora pelo menos dois dos pontos principais de visitação também estejam ligados à história da Segunda Guerra: os restos do Muro de Berlim e o prédio do Reichstag, o Parlamento alemão (que é tão bonito por fora quanto por dentro - e deve ser visitado). Mais ligado à Segunda Guerra, existe o Checkpoint Charlie - o ponto exato em que a cidade se dividia entre Oriental e Ocidental. Era ali que ficava o marco divisório entre a parte da cidade controlada pelos aliados e a que ficou sob o comando dos soviéticos. O local tem, naturalmente, um um museu - embora de pequeno porte, também vale a pena ser visitado. E, é claro, por onde quer que se ande em Berlim, o visitante encontrará monumentos em homenagem às vítimas da Segunda Guerra, especialmente aos judeus. E se olhar para o chão encontrará também regularmente marcações por onde passava o Muro.

Varsóvia

Foto: Divulgação

A cidade de Varsóvia

A cidade de Varsóvia

A capital polonesa também tem ares de metrópole, um tanto quanto impessoal. Por toda a cidade, há muitos prédios construídos sob o domínio soviético, e é fácil identificá-los: tudo o que for quadrado demais, arquitetonicamente insosso e que não tenha qualquer identidade própria é, certamente, fruto daquela época. Quase toda reduzida a pó pelos bombardeios alemães, a cidade foi reconstruída após a ocupação soviética a toque de caixa: prédios residenciais eram erguidos em questão de duas ou três semanas. Restou, porém, uma parte preservada - a Cidade Velha, onde fica a Rota Real, com algumas das ruas mais bonitas de Varsóvia, uma lindíssima praça central e o que restou do bairro judeu da capital.  O viajante pode passar um período muito agradável explorando a área. Os poloneses são cordiais, e embora a língua seja inintelegível, praticamente todos falam um pouco de inglês. (Tente aprender uma ou duas palavras em polonês e você será ainda mais bem tratado).

Mas ao viajante que busca a história, Varsóvia oferece bem mais. Ali foi implantado o maior gueto judeu da Europa, onde uma revolta foi esmagada. Dali milhares foram enviados para a morte. Tudo isso deixou cicatrizes por toda a cidade - e o melhor meio de descobri-las é fazendo um dos tours diários que saem da praça central da Cidade Velha. Eles são feitos a pé (levam mais ou menos três horas) e são gratuitos - um guia reúne os interessados na praça em horários predeterminados todos os dias. No final, quem desejar faz um contribuição no valor que quiser.  Do gueto de Varsóvia não restou nada. Mas existem marcos espalhados pela cidade - visitados no tour. O ponto mais emocionante é o local do bunker construído pelos judeus rebelados dentro do gueto, de onde pretendiam lançar o ataque. Foram descobertos e massacrados. Mas uma pequena colina no meio de um parque marca o local exato - e sob ela ainda estão os corpos dos rebeldes, que jamais foram exumados - por isso é comum encontrar ali velas e flores.

Onde a piedade não tinha vez

Com relação ao nosso passeio histórico, o local obrigatório são os campos de extermínio de Auschwitz e Auschwitz-Birkenau. Mas quem se dispuser a ir até lá, é bom ir já sabendo: não é um passeio agradável. Na realidade, é chocante e pesado a ponto de ferir os mais sensíveis. De fato, não é para qualquer um pisar em locais como esse, onde milhões de pessoas foram exterminadas de maneira metódica, impessoal e impiedosa - o termo “fábrica de morte” é bastante preciso.

Em Auschwitz, o clima ainda é mais “ameno” - as câmaras de gás e os crematórios não ficam ali, mas em seu campo-irmão de Birkenau. Em ambos, as construções dos alojamentos dos oficiais nazistas e dos prisioneiros estão perfeitamente preservadas, e o visitante pode ver - e sentir - o que era a vida (se é que se podia chamar de vida) de quem chegava ali como “interno”.

Detalhe importante: só se entra nos campos através de tours guiados (e é mais do que recomendável adquirir os ingressos com antecedência, pela internet, porque dificilmente haverá lugar nesses tours para quem chega de última hora). A visita também é longa - cerca de três horas. Três horas divididas entre a incredulidade diante da crueldade que se espalha pelo local e a tristeza de saber que tudo aquilo foi real, que homens, mulheres e crianças eram mortos metodicamente, famílias inteiras eram dizimadas, seus bens (e até seus cabelos) eram roubados, suas memórias apagadas. Decididamente, não é nada ameno e exige uma certa dose de coragem. Mas é o mais essencial de todos os pontos a serem visitados pelo turista que busca a história.

Birkenau abriga diversas “salas-museu”, cada uma dedicada a um tema específico - todos eles chocantes. É um soco no estômago atrás do outro, ininterruptamente, até que finalmente se deixe o local.

E uma coisa é certa: ninguém vai deixá-lo do mesmo jeito que entrou, se for humano - porque nunca mais esquecerá o que viu ali, e, mais importante, nunca mais acreditará em discursos de ódio, o verdadeiro cimento a unir os tijolos daqueles alojamentos, daquelas câmaras de gás e daqueles fornos crematórios. Nunca mais.

Cracóvia

Foto: Divulgação

A Praça do Mercado, no centro de Cracóvia, é a maior praça medieval da Europa e aonde ficam cafés, restaurantes e lojas

A Praça do Mercado, no centro de Cracóvia, é a maior praça medieval da Europa e aonde ficam cafés, restaurantes e lojas

De todas as quatro cidades visitadas, Cracóvia é a que melhor serve tanto ao turista interessado na história quanto ao que procura apenas uma boa opção de passeio. A cidade é cidade encantadora, e faz o turista se sentir imediatamente “em casa”. Tem uma vida noturna agitada (tanto que nada funciona antes da nove ou dez da manhã). Possui uma quantidade inacreditável de igrejas (e algumas das mais antigas do Continente estão ali). A praça central é uma atração em si: dezenas de restaurantes e cafés a circundam, com uma culinária variada (e o passeio de carruagem, quase obrigatório).

O comércio se destaca, com lojas de todos os tipos - mas tente encontrar as de produtos locais. O artesanato é muito interessante - e para quem gosta, há lojas de bebidas oferecem vodka de primeiríssima qualidade (se quiser ganhar pontos extras, prove uma e diga que a vodka polonesa é melhor que a russa. O que aliás não fica longe da verdade). As construções são antigas, coloridas e bem preservadas. Enfim, um lugar onde se pode passar tranquilamente alguns dias.

Por isso mesmo, a não ser que se queira muita comodidade, é melhor deixar de lado os passeios com os carros elétricos. Eles percorrem os pontos principais da cidade - mas custam caro e não esperam ninguém: se você descer em um desses pontos, terá que se virar para voltar depois. E considerando que quase toda a cidade pode ser visitada tranquilamente a pé, não há mesmo muita vantagem. Vai do bolso (e da preguiça) de cada um. Ponto indispensável para o viajante que está atrás da história: a fábrica de Oskar Shindler, que fica um pouco afastada, mas que vale muito a pena - e abriga um museu, no mínimo, espantoso.

Escrito por:

Helio Paschoal