Publicado 16 de Julho de 2015 - 18h15

Por Delma Medeiros

Bailaor esteve pela segunda vez em Campinas; conheceu o Brasil no ano passado, a convite de Karina Maganha, diretora do Café Tablao

Dominique Torquato/ AAN

Bailaor esteve pela segunda vez em Campinas; conheceu o Brasil no ano passado, a convite de Karina Maganha, diretora do Café Tablao

 Apesar de contar apenas 22 anos, o bailaor espanhol Angel Reyes já é veterano na arte da dança flamenca. Nascido em 1993 em Córdoba, na Espanha, onde mora até hoje, Reyes é representante do puro flamenco e afirma que procura aprender com todos os grandes bailaores.

Ele esteve pela primeira vez em Campinas no ano passado, a convite de Karina Maganha, diretora do Café Tablao. Os workshops e a apresentação que fez foram tão elogiadas, que ela o convidou a voltar este ano.

Durante sua estada ministrou workshops em Campinas e Sorocaba e fechou a turnê com uma apresentação no Almanaque Café. No palco, sua presença impressiona pela técnica, carisma e magnetismo.

O bailaor, que conquistou seu primeiro prêmio aos 6 anos, não se conformou com pouco e se especializou na dança espanhola num conservatório, formação que lhe dá o título de maestro. Um detalhe: torce para o Barcelona.

Caderno C — Você começou a dançar aos 3 anos. Sua família já tinha tradição no flamenco?

Angel Reyes — Minha família tinha um vínculo com o flamenco por meio de um primo, Pepin Navarro, que era bailaor. Minha mãe e meu pai não eram profissionais, mas sempre foram apaixonados por flamenco e tinham relações com muitas pessoas que estavam dentro do mundo do flamenco. Isso me levou a querer bailar ainda bem pequeno.

O que mais te encanta no flamenco?

O que mais gosto no flamenco é que é uma maneira de expressar tudo o que você tem por dentro, é como uma via de escape de que me sirvo a vida toda. Esta é a fórmula preciosa me mais me agrada no flamenco.

A dança exige um treinamento diário?

Sim, há que dançar todos os dias.

Você começou aos 3 anos, mas quando iniciou a formação profissional propriamente dita. Como foi esse processo de aprendizado?

Aos 9 anos comecei a formação básica e depois profissional no Conservatório de Dança Luis Del Rio, em Córdoba. Entrei para receber a titulação, ter o título de mestre e poder ser professor de dança, ministrar masterclass. Para isso precisava do título do conservatório na especialidade flamenco. Para seguir a carreira você começa num grau elementar, depois vai para o avançado.

É preciso fazer o conservatório para poder dar aulas depois?

Isso mesmo. Numa academia comum você não vai receber nenhum título. Já o conservatório te dá um título. Essa carreira dentro do conservatório dura dez anos, começa no elementar e depois vai para o profissional. O conservatório, ao contrário das academias, te dá o título profissional. E no conservatório tem várias artes, como balé, canto. Tirei o título de especialização no flamenco.

Mas também estudou outras danças?

Sim, balé clássico, contemporâneo, música, dança estilizada, dança espanhola, dança clássica espanhola.

É uma formação bem completa.

É bem ampla, mas com foco na dança flamenca.

Com 6 anos você ganhou seu primeiro prêmio, como foi isso?

Foi num concurso de televisão que era realizado na Espanha, chamado I Spy. Podiam se apresentar garotos até os 15 anos e eu consegui o primeiro prêmio desse concurso televisivo com 6 anos. Na verdade foi uma experiência muito boa, porque era um menino, estava começando e foi muito interessante, uma experiência boníssima.

E ao longo da carreira você conquistou vários outros. Cite alguns que foram especiais.

Sim, teve o Certame Andaluz de Jovens Talentos, que ganhei na Andaluzia (região Sul da Espanha), que ganhei por dois anos. Pelo prêmio, era considerado como o melhor bailaor de Andaluzia, mesmo que não seja assim (risos), era um prêmio importante e foi muito bom.

Esta é a segunda vez que você vem a Campinas. Como vê o movimento do flamenco na cidade?

Na realidade, no Brasil há um grande envolvimento com o flamenco. Da outra vez que vim nesta escola (Café Tablao) foi muito bom, o nível dos alunos é bom, estão interessados nas aulas, em montar as coreografias. Aqui o que se vê é uma disciplina muito grande. São todos muito disciplinados. Na Espanha tem menos disciplina que aqui.

O que podemos esperar dessa apresentação no Almanaque (realizada no último 2 de julho)? É um espaço pequeno com o palco bem próximo das mesas. Essa aproximação é boa para o baile, lembra os tablaos espanhóis?

Sim, é feita nos moldes dos tablaos espanhóis, com o público praticamente cercando o espaço. Para mim é importante porque sentimos o calor do público e quanto mais gente, melhor. Porque o aplauso dá uma sensação de se estar em família, é a sensação de um tablao da Espanha, com o público bem próximo. Necessitamos desse calor da plateia, nós que estamos no palco temos uma interação com esse público.

A proximidade cria uma energia?

Isso mesmo, e é muito importante.

Quais foram suas principais referências no flamenco?

Eu gosto muito do maestro Antonio Canales.

Eu o vi bailar, é maravilhoso.

É um grande bailor, muito grande. Quando era menino queria ser como Joaquín Cortés, por causa daquele brilho, das luzes que tinham nas suas apresentações, queria ser como ele. Sigo amando a Canales, mas hoje em dia tenho também outras referências, porque gosto de aprender com todo mundo, então tenho um bom amigo que é o Jesus Carmona, que é jovem mas uma grande figura, um bom maestro. Gosto também de outros que são jovens, como Pol Vaquero, Alfonso Losa, Farruquito, são muitas referências. De todos temos algo a aprender para seguir desenvolvendo nosso trabalho.

Você viaja bastante, mas continua morando em Córdoba? Sua sede é lá?

Continuo vivendo em Córdoba, mas não faço muitas turnês (risos). Estive na Jamaica, Itália, Nova York, Brasil. Vivo em Córdoba, mas pretendo morar em Madri por conta de alguns trabalhos que desenvolvo lá. Mas sigo em Córdoba e tudo que faço é a partir de Córdoba, começa lá para viajar depois.

Você tem uma companhia de flamenco ou dança mais sozinho?

Tenho o projeto de uma companhia, vou bailando como solista e com uma artista convidada, a bailarina Estefania Cuevas. Estamos tentando seguir adiante com esse projeto. Ainda não temos uma companhia, mas este trabalho que estou estruturando com esta bailarina. Também temos um guitarrista muito bom que me acompanha, Jesus Majuelos. Estamos trabalhando em alguns projetos.

Tem algum show que estejam montando?

Sim agora monto um espetáculo que será dirigido por La Lupi, que é uma diretora que mora em Málaga. Chama-se Mar, Tierra e Enea. Também estou trabalhando em Málaga em outro espetáculo que se chama A Buen Entendedor, que vou fazer com Estefania e Jesus, com produção própria.

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Escrito por:

Delma Medeiros