Publicado 07 de Julho de 2015 - 15h44

O artista plástico Egas Francisco em seu ateliê: "Não existe mercado de arte em Campinas. Como também não há consciência de arte"

Dominique Torquato/ AAN

O artista plástico Egas Francisco em seu ateliê: "Não existe mercado de arte em Campinas. Como também não há consciência de arte"

Em momentos de crise financeira, com a inflação em alta, como o que os brasileiros vivem atualmente, o comum é “segurar” o bolso. Alguns economizam no consumo diário, na compra do supermercado, no gasto com roupas e com itens considerados supérfluos. E o mercado de artes, como fica diante dessa situação? A crise vivida pela Galeria Britto, na badalada Rua Oscar Freire, em São Paulo, que vende obras do popular Romero Britto, por exemplo, acende essa discussão — segundo a imprensa paulistana, a galeria está ameaçada de despejo devido aos aluguéis atrasados desde fevereiro e teve uma queda de 80% no faturamento.

Foto: Dominique Torquato/ AAN

Lucila Vieira, proprietária da Quadrante Galeria: diversificação

Lucila Vieira, proprietária da Quadrante Galeria: diversificação

Que o segmento sentiria os reflexos da situação do País, isso é um fato, no entanto, artistas plásticos de Campinas levantam outro ponto de reflexão sobre o tema. Para eles, a questão é bem mais profunda, independentemente de crise econômica. “Não existe mercado de arte em Campinas. Como também não há consciência de arte. No Brasil até há, mas comprometido. Aqui se mexe com arte mais por interesse, como com qualquer outro produto”, dispara o artista plástico Egas Francisco, um dos nomes mais respeitados do cenário artístico campineiro e nacional.

“Pintar é um desafio de vida e morte, o artista tem que trabalhar por paixão”, afirma o artista, que pinta compulsivamente. Segundo ele, existem alguns privilegiados, que nem sempre são os melhores. “O que rege são os interesses do mercado. Minha pintura não é feita para enfeitar mas, antes de tudo, incomodar. A arte não tem compromisso com a beleza, que é diferente do belo.”

Foto: Dominique Torquato/ AAN

A leiloeira Ana Clara de Mello e Silva: ela está há 30 anos no ramo

A leiloeira Ana Clara de Mello e Silva: ela está há 30 anos no ramo

Para Egas, a situação do País sempre foi caótica, escandalosa. “Mas o pior momento, sem dúvida, foi a ditadura militar”, avalia. Egas não tem marchand nem compromisso com galerias. “Trato diretamente com o cliente, mas atualmente vendo muito pouco. Hoje tenho um prestígio limitado, menor do que quando tinha 30, 40 anos, mas não vou banalizar minha arte por isso”, conclui.

Mais críticas

O artista plástico Álvaro Azzan, assim como Egas, é enfático: “Como artista, a crise é diária”. “Em Campinas, o mercado é fraquíssimo, praticamente inexistente, uma luta constante que abrange desde os ditos artistas ‘renomados’ até os novos talentos. O público campineiro não frequenta exposições, caso raro quando há um excelente coquetel. Então, se não visita, quem dirá consumir. A crise, acredito, começa muito antes do consumo. Começa na educação e na cultura transmitidas às crianças para que cresçam e desenvolvam o gosto e apreciem as artes — teatro, literatura, música e artes visuais.”

Leilões

Segundo a leiloeira Ana Clara de Mello e Silva, com 30 anos de profissão, os clientes do mercado de artes formam um público eclético. “Tem o amante de arte, o colecionador, a dona de casa, o empresário, o investidor e o de ocasião. Dependendo do perfil, ele não mede esforços para garimpar e arrematar as obras”, diz. Mas, observa: “Percebo que, em tempos de crise, os olhares dos frequentadores de leilões de arte são mais para os utilitários. Os amantes de arte, a dona de casa, o estudante priorizam luminárias, lustres, aparelhos de jantar e de cristal, tapetes orientais, mobiliários e outros, com destaque sempre para os de época, estilo e design”. Já o colecionador não mede esforços em adquirir mais uma peça ou completar sua coleção, de acordo com ela. “O investidor tem um número, logo, tem reserva para investir. O de ocasião aproveita a oportunidade, não está interessado em um determinado lote, está em busca de uma boa e melhor oferta, o que fica mais fácil no decidir por um lance. O leilão propicia negócios para todos os gostos e bolsos, talvez por isso não sentimos a queda nas vendas em pregão.” O que Ana Clara notou, no entanto, foi que em tempos de crise, há algumas restrições por parte de determinados clientes assíduos que substituem obras mais caras por outras de valores menores. Ao mesmo tempo ocorre o aumento dos leilões on-line. “O universo de interessados nesse nicho se multiplica em todo o mundo. Procuramos criar oportunidades, inovando, selecionando e inserindo outras opções de lotes a cada leilão de arte”, afirma. 

Inovação

As pessoas continuam se casando, construindo, decorando suas casas com obras de arte. Mas, em tempos bicudos, as galerias precisam inovar, investir em outras linguagens e facilitar pagamentos para manter as vendas. “As galerias não acompanham a sazonalidade básica do comércio. O segmento se mantém em dois níveis: do colecionador, que investe independentemente da situação do mercado; e quem busca peças de decoração, de valores menores. Esse último é o mais afetado. Ao montar uma casa, o foco primeiro é na construção civil, depois na decoração e mobiliário. As paredes acabam ficando por último”, diz Lucila Vieira, proprietária da Quadrante Galeria. “As vendas das telas não sofreram muita oscilação, já outros serviços tiveram queda. A pessoa compra a tela, mas busca outras opções de moldura, pesquisa preços”, completa Newton Gmurczyk, também da Quadrante.

A proprietária da Urban Arts, Carla Bratfisch, diz que tem sentido fortemente o reflexo da crise atual. “Fevereiro, mês que esperava um movimento pequeno, foi atípico e vendeu bem. Mas, a partir de março, a procura foi diminuindo. Há muita visitação, mas poucas vendas. As pessoas querem comprar, decorar, pesquisam preços das obras, da moldura, mas, muitas vezes, a venda não se concretiza”, lamenta Carla.

Ela diz que percebe que o interesse pela arte aumentou, mas as vendas não seguem essa tendência. “Todos ficam chorando algum tipo de desconto até o final.” Carla, que está à frente da galeria desde outubro passado, explica que a Urban Arts trabalha com peças originais e impressão de obras em diferentes acabamentos, como papel fotográfico ou canvas (tecido de telas), o que representa preços variados. “Temos peças mais caras, de preço médio e mais baratas, mesmo assim está difícil vender.”

Lucila, da Quadrante, que tem 23 anos de experiência no mercado de artes, também considera que houve um aprimoramento no olhar para as artes. “Esse movimento é marcante com a facilidade da internet. As pessoas estão mais interessadas, pesquisando, visitando museus, física e virtualmente. Isso é bom para o mercado e abre espaço para as galerias investirem no atendimento virtual e redes sociais”, afirma.