Publicado 02 de Julho de 2015 - 18h51

Por Moara Semeghini

Depois de experimentar um sucesso estrondoso com o Rouge, Fantine Thó diz que ama o anonimato: "Amo ser uma pessoa comum, normal"

Divulgação

Depois de experimentar um sucesso estrondoso com o Rouge, Fantine Thó diz que ama o anonimato: "Amo ser uma pessoa comum, normal"

Ela se apresentou para quase 1 milhão de pessoas entre 2002 e 2005, quando era integrante do Rouge, grupo feminino de maior sucesso no Brasil e da América Latina, com mais de 6 milhões de discos vendidos. Agora, a cantora de coração campineiro Fantine Thó inicia pelo País o projeto musical Living Room Concert, que segue o caminho oposto ao que a projetou nacionalmente. O conceito é exatamente o que indica o nome em inglês: o artista se apresenta em uma sala de estar e faz um show intimista para um pequeno grupo de pessoas.

Essa nova modalidade, que já faz parte do cenário da música independente e é moda nos Estados Unidos e na Europa, pode virar tendência no Brasil, acredita Fantine. Há quase oito anos morando em Haia, na Holanda, ela volta no início deste mês a Campinas, cidade em que viveu durante a adolescência ao lado da mãe e do irmão (ela nasceu em Barra do Garças, no Mato Grosso), e onde começou a carreira musical e morava durante o processo de formação do Rouge, fruto de um reality show do SBT.

Com o fim da banda pop, mudou-se para o país europeu e pôde retomar sua natureza musical: canções com influências de rock’n’roll e blues, com “pitadas underground”, como ela define. Apesar de dizer que não sente falta da fama avassaladora que viveu na época do Rouge, Fantine voltou a chamar a atenção da mídia (inclusive no Brasil) depois de participar da quarta temporada da versão holandesa do reality The Voice — e foi aprovada. O vídeo da seletiva às cegas, etapa em que os jurados escolhem os candidatos apenas pela voz, sem saber quem está cantando, na qual interpretou Leave the Light On, de Beth Hart, fez sucesso na internet e bateu a marca de 100 mil views no iTunes.

Em outra fase do programa, a cantora venceu a talentosa candidata Dominique na batalha de duplas, com a apresentação da música Please Don’t Stop the Music, de Rihanna. Com batidas em seu violão e até trechos improvisados de música em português, a brasileira convenceu os jurados e foi ovacionada pela plateia. Após vencer etapas importantes, Fantine acabou eliminada na fase de apresentações ao vivo. Em um bate-papo com o Caderno C, a cantora conversa sobre o novo projeto e sua breve temporada no Brasil.

Correio Popular — Na época do Rouge, segundo você, “show pequeno era show para 20 mil pessoas”. Quais os melhores momentos dessa época?

Fantine Thó — A parte ao vivo, dos shows, era a parte mais divertida. A gente (o Rouge) se divertia demais no palco, com os músicos... A música ao vivo tem uma energia, uma química, muita mais poderosa do que o estúdio, onde é tudo mais “clínico”. E tinha aquela troca com o público que era o auge da adrenalina. Eu acho que nem saltar de paraquedas dá a mesma sensação (Fantine praticou paraquedismo quando morou em Campinas). Isso porque não é só a adrenalina, é uma troca. Todo mundo cantando junto e muita gente chorando — o que era um lance que assustava muito a gente. Antes do Rouge, eu tocava em barzinhos, e uma noite boa era quando o público chegava a 150 pessoas. E, de repente, milhares... Passou a ser a nossa rotina.

Foi difícil seguir em frente quando a banda acabou?

Olha, nós curtimos muito, demais. Vivemos aquilo tudo ao máximo. Quando acabou, nós estranhamos muito, pois acho que ficamos meio “mimadas” com tudo aquilo; estávamos com uma referência muito alta do sucesso. Nós saímos de um reality show, o que é bem diferente de um artista que constrói a carreira gradativamente; que vê o público crescendo progressivamente; que tem uma luta pessoal muito grande para conseguir com que as músicas toquem nas rádios etc. Pra gente veio tudo de mão beijada depois do reality, tudo pronto, esquematizado. Então nós assumimos personagens com nossos nomes mesmo, dentro do Rouge. Até a gravadora se surpreendeu com a quantidade de discos que nós vendemos — na época, vendemos mais que o Roberto Carlos, que é o rei da Sony Music.

Depois de dez anos do fim do Rouge, houve uma tentativa de voltar com o grupo.

Porque não deu certo?

Nós tínhamos a expectativa de fazer novos shows, que não rolaram justamente porque as condições de trabalho já não eram mais suficientes para nós como artistas. E recebemos propostas, individualmente, que passaram a ser mais interessantes — no aspecto estrutural e até financeiramente — do que a volta do Rouge. Sentimos que iríamos correr riscos voltando com o Rouge. Precisávamos de condições mais sólidas, porque se for pra correr risco, cada uma prefere abraçar novas oportunidades, se desenvolver mais como artista e alcançar novas metas.

Faz oito anos que você mora na Holanda. Como foi a decisão de morar no país?

Eu conheci o pai da minha filha, Christine (de 7 anos), que é músico holandês, quando eu ainda fazia parte do Rouge. Estava em uma turnê em Porto Alegre e eles estavam no mesmo voo que saiu de São Paulo. Nós namoramos e, quando o Rouge acabou, senti que era hora de ir para a Holanda. Me identifiquei muito com o país, onde encontrei tranquilidade e paz. Aqui posso andar de bicicleta às três da manhã com um violão Taylor nas costas e um iPhone na mão.

Você disse, em entrevista recente ao Caderno C, que ficou rotulada pelo repertório do Rouge, que “não tinha a ver com sua natureza musical”. E que sua maior sede era voltar a ser você mesma.

Enquanto eu fiz parte do Rouge, fiz com o meu sangue, garra e vontade. Isso dá para ver nos vídeos. Todas nós abraçamos, e fizemos aquela história ser a mais linda possível. Nós fazíamos disso uma oportunidade de fazer pessoas dançarem, sorrirem de uma forma saudável. Na época, eu achava um absurdo ver uma criança de 7 anos dançando Na Boquinha da Garrafa (sucesso do É o Tchan!) — por mais interessante que fosse ritmicamente, a mensagem era terrível. E nós entramos, justamente nessa época, com mensagens mais puras, ingênuas, mais brincalhonas. O melhor exemplo disso é a música Ragatanda (maior sucesso do Rouge). Eu tenho muito orgulho disso. Mas meu berço musical, e de todas nós, era outro. Mas nós tínhamos que ter responsabilidade. Ficamos superfamosas fazendo um som que não representava a nossa natureza. E quando não queríamos representar, chegavam para a gente e falavam: “Agora você quer dar uma de bacana e fazer esse som”. Não, eu já faço “esse som” há mais de 20 anos, antes do Rouge. Mas não foi esse som que nos levou à fama.

Então, na Holanda você encontra essa liberdade por ser anônima? Você prefere o anonimato?

Eu amo o anonimato, amo ser uma pessoa comum, normal. Amo educar a minha filha no anonimato e amo que ela vivencie a minha expressão artística, os meus trabalhos, sem personagem e da forma mais pura possível.

Mas você acabou saindo, novamente, do anonimato e voltou à mídia quando participou da versão holandesa do The Voice, em 2013. Você chegou a se inscrever nas três primeiras temporadas, foi chamada mas só aceitou da quarta vez. Como foi isso?

Aceitei no quarto convite, que foi na época de minha separação, e pensei: “E agora? Estou fora de meu País, o que sei fazer é música... Preciso me apresentar para o mercado e aumentar as minhas chance e possibilidades de trabalho”. Meu cachê precisava subir, eu não estava feliz com o que estava ganhando tocando em barzinhos. Queria ir para outro grau de trabalho e aceitei o convite do The Voice e, desde então, as oportunidades e os convites têm sido cada vez melhores.

Este mês você fará o Living Room Concert, que é um show particular na casa das pessoas, para pequenos públicos de até 30 pessoas.

Está sendo uma delícia preparar isso. Foi um processo difícil assumir e fazer um trabalho intimista. Tive diversas discussões com profissionais, familiares e amigos que disseram que eu deveria ir para grandes palcos, pois já tenho um nome. Meu interesse e necessidade, hoje, como artista é estar mais perto das pessoas e também saber da história delas. Eu também, como fã, já cheguei perto do John Mayer, por exemplo, e dá aquela tremedeira, pois é muita admiração. A coisa mais irritante como fã é saber tudo sobre um artista e perceber que ele tem uma completa indiferença com relação à sua existência. Temos poucas oportunidades de compartilhar os nossos dons e valores com os artistas que admiramos. Quero quebrar essa distância. Apesar de os grandes shows, palco, iluminação, tudo isso ser fascinante artisticamente, não deixa de ser um espaço de isolamento. Minha maior vontade é, realmente, me aproximar e esclarecer que todo mundo é gente. Receber e agradecer o carinho, mas também quebrar um pouco dessa idolatria. O que mais me interessa nessa vida são as pessoas e as histórias delas. Eu quero saber o que as inspira, o que as assusta, o que as trava, enfim, me interessa ter esse contato humano.

Como vai funcionar? E o que você vai tocar?

No projeto Living Room Concert, há duas opções de trabalho: ou faço apenas o concerto ou ficamos juntos desde de manhã e a música ao vivo encerra o dia. O que vai alimentar minhas canções, o que vai inspirar o meu repertório, é justamente a história das pessoas e de que forma elas mostrarão quem elas são. Deixarei as portas abertas para a intuição, conexão e criatividade e deixar que isso alimente o show. O conceito é esse. Peço para que os interessados me mandem uma mensagem pelo Facebook (Fantine Rodrigues Tho) com o endereço de e-mail deles para que eu possa responder com informações sobre o show.

Já tem shows marcados?

Já tenho shows marcados em São Paulo, Rio de Janeiro, Natal (RN) e Anápolis (GO). Ainda estou recebendo convites para julho e agosto — meses em que estarei no Brasil — e quero fazer de tudo para deixar programado para dezembro e, quem sabe, julho e agosto de 2016.

Além do projeto, o que tem mais vontade de fazer ao chegar ao Brasil?

Tenho muita vontade de fazer uns sons com meu irmão, Jonathan, com quem comecei a tocar, há mais de 20 anos. Não havia nada mais poderoso do que as reuniões que fazíamos com os amigos e familiares depois da escola ou nas férias. Não vejo a hora de tocar com ele de novo. E para mim é muito importante que minha filha — que está indo pela quarta vez ao Brasil — conheça melhor esse País. Quero que ela tenha mais contato com a nossa cultura, com a nossa comida, nosso povo, nossas cores, texturas, cheiros... Quero dar um banho de Brasil nela.

Escrito por:

Moara Semeghini