Publicado 07 de Julho de 2015 - 5h00

Por Victor Almeida Filho

Victor Almeida Filho, padre, colunista

Cedoc/Rac

Victor Almeida Filho, padre, colunista

Jesus revela o rosto amoroso do Pai. Essa revelação não é apenas iniciativa de Deus. É também tarefa humana, marcada por tropeços, limites e fragilidades, componentes de nossa condição. Deus se comunica a nós por liberdade, gratuitamente se revela e ao se revelar Deus se desvela. Deus quis necessitar-se do ser humano para se revelar. Este, a partir de sua sensibilidade e criatividade, recepciona essa revelação.

A revelação não é apenas iniciativa de Deus, mas também iniciativa humana. Nesse encontro Deus sai de si e se deixa descobrir. Porém, Ele continua se fazendo mistério. É experiência de encontro com o amado que será sempre transcendente.

Como se fôssemos crianças numa brincadeira de esconde, onde ora Ele se revela, ora se oculta em sua grandeza e pequenez admirável. Ele estará sempre além de nossa capacidade cognoscível, mas, ao mesmo tempo, próximo de nossa insignificância.

Se a revelação de Deus é assim histórica, ela certamente está ligada às nossas percepções.

Ou seja, é por meio da fé que se responde à revelação do mistério de Deus. O Concílio Vaticano II — que este ano faz 50 anos de sua conclusão — em um de seus documentos chamado, Dei Verbum, no item 11 diz:

“Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria.”

A concepção católica de revelação se sustenta em dois alicerces: escritura e tradição. A escritura revela Deus porque homens inspirados conseguiram olhar acontecimentos factuais a partir da fé. Conseguiram perceber Deus que agia nessa mesma história. As experiências vividas quando de suas transmissões foram enriquecidas. Como diz o ditado popular: “Quem conta um conto, aumenta (ou diminui) um ponto”.

Com isso acima descrito, o leitor pode até pensar: “Então onde entra a inspiração divina em todos esses textos tão humanos?” Precisamos entender que Deus tem uma lógica totalmente diferente da nossa. Sua revelação não se dá fechada, enquadrada nos padrões humanos, mas plural, diversificada, multiforme e com o auxílio do homem.

A Sagrada Escritura não apareceu como palavra formada, pronta e acabada; recebida diretamente das mãos de Deus, mas se fez a partir da experiência e contato misterioso do Povo de Deus com o sagrado. Ou seja, o texto bíblico é construção simbólica a partir de tudo o que foi vivido ao longo da história, traduzido de forma alegórica para as gerações que viessem depois.

O uso das hipérboles, metáforas e alegorias se faz necessário, a fim de que as gerações futuras pudessem ter acesso à mesma experiência originária com o sagrado. Esses acréscimos serão sempre lidos para exaltar a presença constante, singela e discreta do Divino.

Entretanto, estaríamos equivocados ao pensar que isso diminua a experiência original, é antes a realidade e a força da experiência, junto com a eficácia da atividade fabuladora que podem expressar a presença de Deus nos acontecimentos e ali os apoiava. Como nos relata a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios: “vocês são uma carta de Cristo da qual somos instrumentos, escritas não com tintas, mas com o Espírito de Deus.” (cf.: 2Cor3, 3-4).

O Papa emérito Bento XVI diz na exortação Verbum Domini: “Quando esmorece em nós a consciência da inspiração, corre-se o risco de ler a Escritura como objeto de curiosidade histórica e não como obra do Espírito Santo, na qual podemos ouvir a voz do Senhor e conhecer a sua presença na história.”

Escrito por:

Victor Almeida Filho