Publicado 02 de Julho de 2015 - 5h00

Por Rodrigo de Moraes

Noite dessas, eu voltava de carro do jornal para casa pela Rua General Marcondes Salgado, espécie de prolongamento da Avenida Aquidabã que desce em direção à Avenida Princesa d’Oeste, contornando o Bosque dos Jequitibás. Não é um caminho que eu faça sempre, mas é mais ou menos equivalente em distância ao que costumo adotar no dia a dia.

Pois bem. Ao final da Marcondes Salgado, quase sob o viaduto que convencionou-se chamar de “Laurão”, olhei por acaso à esquerda e tomei um susto de deslumbramento: uma casa, um sobrado que avaliei depois remontar aos anos 40 ou 50, resistia solitário à voracidade do tempo. Resistia, conservado, pintado de um cândido azul e branco, e trazia chumbada na fachada uma placa metálica com o nome da rua.

A placa parecia falar de uma resolução férrea — uma resolução que imaginei ser mais da casa em si de que de seus proprietários —, de que o sobrado, com suas paredes grossas e fundação fincada nas entranhas da terra, ficaria ali para sempre.

Permaneceria — docemente anacrônica, quase insolente em sua graça provinciana —, por maior que fosse a ânsia dos homens em tirá-la do caminho para abrir alas aos seus prédios residenciais de nome italiano e lojas que oferecem soluções para tudo.

E foi como se me houvesse sido concedida uma graça — ou uma visão — que voltei para casa, pensando no heroico sobrado azul e branco que, apesar de tudo, ainda era.

Depois, porém, percebi que estava equivocado: a visão da casa foi mais como uma daquelas revelações que, acredita-se, desvelam-se diante dos olhos de um moribundo; o que é de cruel ironia, porque nada pode ser feito daquilo que se fica conhecendo momentos antes da morte.

Explico: poucos dias depois, fazendo o mesmo caminho — desviei do trajeto costumeiro por conta de uma parada em um supermercado — descia novamente a Rua General Marcondes Salgado, dessa vez à tarde, quando lembrei do sobrado azul e branco. Quando cheguei ao trecho da via onde, pouco tempo antes, havia deparado pela primeira vez com a singela construção que sempre esteve ali, girei a cabeça para a esquerda, mas não havia mais nada.

Ou melhor, havia um canteiro de obras no lugar onde existia uma casa. O sobrado havia sido colocado quase todo abaixo. Não havia mais telhado, apenas algumas paredes restavam em pé. Havia também máquinas, que se empenhariam em aniquilar o que restava.

Senti espanto, horror, indignação, tristeza. Acima de tudo, senti que o universo havia me pregado uma peça ao me revelar uma pequena maravilha, ao me entreter com um pequeno deslumbramento, para depois arrancá-lo de minhas mãos.

A casa ainda resiste (escrevo este texto na terça-feira) no ciberespaço: dá para vê-la no Street View do Google (https://goo.gl/8UXQXZ); um álbum de fotos talvez traga imagens de uma família em frente à residência em tempos mais tranquilos, quando nem o “Laurão” havia e a cidade estava longe de ser o lugar voraz, frenético e hostil que é hoje.

Mas as imagens também sumirão, e sumirá este texto e quem o escreveu, e qualquer coisa, por mais insignificante que seja, relacionada ao sobrado da Marcondes Salgado também deixará de existir um dia. E o tempo seguirá em sua marcha surda, alheio a sobrados e cronistas.

Escrito por:

Rodrigo de Moraes