Publicado 03 de Julho de 2015 - 5h00

Por Pasquale Cipro Neto

Os intermináveis casos de violência registrados no Oriente Médio, que se intensificaram depois do surgimento do Estado Islâmico, fizeram e fazem muita gente discutir sobre o islamismo e os islamitas. Nem de longe pretendo me meter na discussão político-religiosa. O que quero é trocar duas palavras sobre questões linguísticas relativas ao mundo árabe, ao islamismo.

De início, é bom dizer que a palavra “islamismo” vem de “islã”, nome de uma grande civilização erguida sobre a base da fé islâmica. “Islã” vem do árabe e significa “resignação”, “submissão” (a Deus). “Islamismo” é o nome da religião seguida pelos islamitas. É bom lembrar que “islamita” é sinônimo de “muçulmano”.

Que relação isso tem com o Brasil? É simples: entre nós, é muito grande o número de muçulmanos. Não custa lembrar que os árabes, por exemplo, são muçulmanos (ou islamitas, é bom repetir). Os árabes nos fizeram gostar de esfirras, quibes e outras inumeráveis delícias.O detalhe é que eles entraram em nossa vida muito antes de desembarcarem no Brasil. Já no século VIII (em 711, mais precisamente), os árabes conquistaram a Península Ibérica e de lá só foram expulsos aproximadamente 700 anos depois.

O que é mesmo a Península Ibérica? Para quem não se lembra, é bom dizer que uma península é uma porção de terra cercada de água por todos os lados, menos por um. A palavra “península” é de origem latina e resulta da soma de “pene” (que significa “quase”) com “insula” (que significa “ilha”). O “pene” de “península” é o mesmo de “penúltimo”. E o que significa “penúltimo”? Significa “quase último”.

Pois bem, onde é que estávamos? Na Península Ibérica, que é formada por Portugal e Espanha. Antes que me esqueça, é bom lembrar que o adjetivo relativo à Ibérica é “ibérico”, que passa a “ibero” nos compostos (“ibero-americano”, “ibero-brasileiro” etc.). Note, por favor, que não há acento no “i” de “ibero”, portanto a palavra não é proparoxítona; é paroxítona (a sílaba tônica é “be”).

Mas voltemos aos árabes e à Península Ibérica. Se os árabes dominaram essa região por tanto tempo, é claro que deixaram muitas marcas por lá. Não é difícil concluir que, por isso, a nossa língua tem muitas palavras árabes. A lista é grande: arroz, açúcar, alcatrão, alfaiate, acelga, açougue, alcaparra, açude, algazarra, álgebra, algodão etc., etc., etc.

Como você acabou de ver, algumas dessas palavras começam por “al”, o que leva muita gente a exagerar e dizer que todas as palavras portuguesas que começam com “al” vêm do árabe. Isso não é correto. Será que “álbum” e “albumina” vêm do árabe? Não; vêm do latim. “Álgido”, por exemplo, também vem do latim, e não do árabe. Essa bela palavra, muito comum em textos clássicos, significa “gélido”, “muito frio”. Não é à toa que na Itália existe uma fábrica de sorvetes chamada “Algida”. Na Itália, é bom lembrar, fala-se italiano, uma das línguas que vêm do latim, como o português.

Escrito por:

Pasquale Cipro Neto