Publicado 08 de Julho de 2015 - 5h00

Por Gustavo Mazzola

A tarde de 15 de julho, a partir das 16 horas, será de grande importância para o Centro de Ciências, Letras e Artes: um evento em seu auditório lembrará quando foi tomada há sessenta e cinco anos, em Campinas, a importante decisão de se empenhar com maior reflexão em relação ao mais apaixonante dos temas atuais ligados à arte, o cinema.

Iniciava-se, assim, um movimento de conscientização, que passou a considerar a chamada “Sétima Arte” como verdadeira manifestação de valor cultural. Além do entretenimento como é hoje, fazia a comunidade despertar para momentos de debates, aprofundamentos no assunto, ir a fundo às raízes.

Essa comemoração especial se completará com uma exposição de fotos e documentos históricos em sua Galeria de Artes, sob a curadoria do jornalista João Antônio Buhrer de Almeida, apresentando o cinema em todas as fases de existência durante às quais vem encantando gerações. Mas, voltemos no tempo para se saber como tudo isso começou.

1950. Aos vinte e três anos, um jovem recém-saído dos bancos universitários da Faculdade de Engenharia Mackenzie, em São Paulo, estava em Campinas, pronto para arregaçar as mangas e tocar a vida dentro da profissão: a sua frente, projetos e plantas na prancheta de trabalho, ele munido da inseparável régua de cálculos, esquadros, transferidor, compasso... e muitos sonhos delineados para o futuro. Era o engenheiro Marino Ziggiatti, que dava os primeiros passos na cidade.

Entre seus planos, no entanto, ele guardava surpresas: não haveria de ser - embora de sucesso - somente um engenheiro em Campinas. Queria mais: também o atraiam as coisas da cultura, levando-o a pesquisar áreas distantes das dimensões exatas, alicerces, estruturas de alvenaria, tijolos, coberturas, fiações e encanamentos, assuntos em que se envolvia até as raízes dos cabelos. Tinha aspirações dentro da arte, como a arquitetura - ainda nos domínios da sua profissão - a música, a pintura... e o cinema.

Ah, o cinema. Esse era o ramo da arte que mais o apaixonava, desde a adolescência: pesquisava a história dos diretores, sabia tudo sobre os filmes da época. Assim, talvez motivado pelas suas andanças, ainda em São Paulo, pelo Museu de Arte na Sete de Abril, nasceu-lhe a ideia de incentivar a arte cinematográfica: fundou, aqui, um núcleo de cinema junto à Sociedade Reunida, órgão que congregava engenheiros, médicos e advogados.

Em 1955, convidado pelo, então, diretor-secretário do Centro de Ciências, o dr. Roberto Pinto de Moura, iniciou a organização de seu Departamento de Cinema, contando com a participação de diversos incentivadores do cinema na cidade, entre eles, Ricardo e Rafael Mila Bueno, Luiz Piccolotto, Celso Golveia, Herculano Solvia e Mário Pina Figueiredo. Era uma iniciativa que já se caracterizava como um verdadeiro Cine Clube. Foi quando fez realizar aqui o primeiro Curso de Iniciação ao Cinema, evento apoiado pela Cinemateca paulistana.

O cinema sempre empolgou o engenheiro Marino. Nos últimos cinquenta anos, acompanhou o desenvolvimento do Cine Clube Universitário, criado dentro da Universidade Católica, hoje, Pontifícia, vivenciando com seus fundadores, Days Peixoto Fonseca, Luiz Carlos Ribeiro Borges, Júlia Falivene, Roberto Alves e Dairton Tessari, cada uma de suas fases de desenvolvimento.

Outros nomes já então participantes do conhecimento cinematográfico em Campinas aliaram-se à iniciativa, como o do professor e acadêmico José Alexandre dos Santos Ribeiro, profundo conhecedor de cinema, de música e literatura, e do cineasta Henrique de Oliveira Junior, que pôs sua experiência em produção, sonoplastia, montagem e mixagem à disposição dessa envolvente modalidade de arte.

Hoje, o Centro de Ciências, com Marino presidente, é um polo de cinema em Campinas: conta sua história, promove debates sobre essa instigante arte, guarda exemplares de filmes raríssimos em seu acervo, exibindo esse material em instalações apropriadas - seu auditório de 200 poltronas (as mesmas que já foram do antigo Teatro Municipal da cidade).

Marino Ziggiatti está envolvido em cada detalhe, em todos os momentos das comemorações programadas para acontecer nos próximos dias. Afinal, ele foi o incentivador desse esforço de conscientização, dando valor ao cinema como arte em movimento, dedicando a ele grande parte da sua vida, um verdadeiro longa metragem de seus sonhos.

Abram as cortinas, pois. Comecemos a projeção!

 

Escrito por:

Gustavo Mazzola