Publicado 16 de Julho de 2015 - 12h19

Por Vanessa Tanaka

Um dos jovens atendidos pelo Cais cria peça de artesanato com objetos que iriam para o lixo

Divulgação

Um dos jovens atendidos pelo Cais cria peça de artesanato com objetos que iriam para o lixo

O Centro de Apoio e Integração ao Surdocego Múltiplo Deficiente (Cais) foi fundado em 2003 em Campinas para ser instrumento de oportunidade para que o surdocego e múltiplo deficiente sensorial atinja o desenvolvimento máximo de suas potencialidades na família, na escola e na sociedade. A luta para ser referência nacional no atendimento, fomentando sempre a inclusão social da pessoa com deficiência, busca valores como respeito, boas atitudes e hábitos, diversidade, igualdade, justiça, solidariedade e sustentabilidade.

Os projetos e atividades desenvolvidos são voltados para a área cultural e social, mas sempre com interação com o meio ambiente. Na Oficina Pedagógica, por exemplo, os adolescentes participam de projetos anuais, como o Amassa Lata, Horta, Papel Reciclável e Fantoches. As atividades são semanais e têm como objetivo a aprendizagem da importância da reutilização de materiais e compreensão das etapas do processo de reciclagem do papel.

Oficina

Já a Oficina de Música funciona como uma roda de música com os atendidos, na qual também são usados materiais recicláveis para a construção dos instrumentos. Outra iniciativa, a Pedagogia Sustentável, surgiu após o curso de material reciclável que Márcia Arias, coordenadora técnica do Cais, realizou. Vendo as inúmeras possibilidades de reutilização de material, foi organizado esse curso visando a confecção de brinquedos pedagógicos.

A coordenadora explica que o objetivo é que o educando, utilizando material reciclável, reflita sobre a questão. “O curso visa formar conceitos que levarão os atendidos a serem pessoas mais conscientes da importância da criatividade na reutilização de materiais para a confecção de brinquedos feitos com sucata e despertando o amor e o respeito pela natureza, além de incentivar a necessidade da reciclagem. Como consequência desse ato, a criança auxiliará na redução da produção do lixo, reutilizando materiais para a construção de novos objetos”, diz Márcia.

O curso é oferecido aos sábados, com duração de seis horas, e é aberto a todos os interessados. Na sua maioria, a procura se dá mais por educadores e pais de crianças na idade pré-escolar. As mães também têm espaço aberto na oficina Costurando Sonhos. Elas participam dos trabalhos durante o período em que seus filhos são atendidos e a adesão à atividade é espontânea.

Meta

A instituição, afirma a coordenadora Márcia, sempre foi a favor da reutilização de materiais em todas as situações possíveis. Desde o início houve esse pensamento como meta, e observou-se que as possibilidades do uso de materiais recicláveis ajudaria não só a organizar o espaço, como passaria a contribuir para o sustento da entidade por meio de confecção de artesanato com artigos doados, como retalhos, tampinhas de garrafa, linhas, garrafas PET, embalagens, cordões, papéis usados e botões, tudo proveniente de amigos, outras instituições e, esporadicamente, do comércio.

“Isso se estendeu ao trabalho com os usuários, pois a educação e o trabalho pedagógico devem ter também como objetivo levar a criança, adolescente e jovem a refletir por meio de suas ações do dia a dia, mostrando que por meio de pequenas atitudes, como a separação e reutilização desses materiais, é possível aprender e apreender conhecimentos de grande escala e valor”, diz a coordenadora.

Mães

As mães dos atendidos também desempenham um papel fundamental nessa ação verde e, ao mesmo tempo em que aguardam os filhos finalizarem suas atividades, dão um novo sentido ao que iria para o lixo. “O artesanato feito pelas mães, inicialmente, veio como uma forma de terapia, na qual se trabalhava com a autoestima, levando as mães a descobrirem seu potencial para outras atividades, troca de experiência e, principalmente, como um momento de descontração. Como as peças confeccionadas foram se aperfeiçoando, foi sugerido pela coordenadora do grupo que aumentassem a produção para que o material pudesse ser vendido e a renda revertida para o Cais”, conta.

Durante a produção, uma peça é dada para a participante e as outras são vendidos em bazares. São confeccionadas bolsas, estojos, toalhas, cabides e bordados em camisetas, entre outras peças, que são vendidos ou usados internamente.

A especificidade das patologias atendidas pelo Cais levou à necessidade de uma equipe técnica especializada, tendo hoje profissionais pós-graduados nas áreas de neurologia, surdez, surdocegueira, psicopedagogia e certificados de capacitação em surdocegueira e múltipla deficiência.

Os usuários são atendidos de duas a três vezes por semana, de acordo com as necessidades individuais, divididos em programas de acordo com a idade cronológica. São eles: intervenção precoce, educação infantil e acadêmico.

Vivências para a exploração dos sentidos

Ao buscar novas vias para potencializar o atendimento, o Cais encontrou nas atividades externas uma possibilidade de aprendizado mais próximo da natureza. Periodicamente, são feitas atividades nos parques, alguns próximos da entidade e também a locais públicos como mercados e feiras livres de Campinas. Segundo Márcia Arias, coordenadora técnica do Cais, o objetivo vai além do fortalecimento do contato com o meio ambiente natural ao permitir explorar sensações táteis, olfativas e gustativas, como é necessário para o deficiente sensorial.

“As atividades externas proporcionam oportunidades de vivências não muito comuns aos usuários. Nelas, além da convivência saudável com amigos, é vivenciada a observação de lugares, objetos, odores e sons diferentes. Proporciona também o amadurecimento de ambas as partes, sociedade e família, da ideia de inclusão, de respeito ao diferente e de como essa partilha nos enriquece”, diz a coordenadora.

Aproximação

Iniciativas que visam aproximar o homem da natureza e fazer com que compreendam a importância de preservá-la é apenas um passo perto dos muitos que ainda são necessários. Para Márcia, o Cais segue fazendo sua parte, e ela acredita que a valorização do material

que em situações cotidianas seria jogado no lixo, é o princípio básico para a construção da cidadania, para aprender a respeitar o espaço em que se vive. “Como educadores, temos diante de nós centenas de opções para contribuir tanto para um planeta melhor, quanto para a reeducação dos nossos educandos, tornando-os cidadãos conscientes e atuantes na sociedade”, afirma. (VT/AAN)

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Vanessa Tanaka