Publicado 13 de Julho de 2015 - 10h19

Por Agência Estado

O Cantareira opera com 19,9% da sua capacidade total

Cedoc/RAC

O Cantareira opera com 19,9% da sua capacidade total

Duas diferentes teorias sobre fenômenos climáticos longos e cíclicos têm sido usadas por pesquisadores para explicar a queda significativa no volume de água que entrou no Sistema Cantareira na última década. Tanto a tese que considera a temperatura do Oceano Pacífico quanto a dos ciclos solares concluem que a região do manancial atravessa um período de estiagem previsível, que deve durar ao menos mais dez anos.

"Esta última década está inserida na fase fria da oscilação decadal do Pacífico, que começou em 1999 e tem o efeito de um El Niño ou La Niña de longa duração, até 30 anos. Ela é marcada por uma redução das precipitações, como se tivéssemos um mês chuvoso a menos do que na fase quente", explica o professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Rede Internacional de Estudos Sobre Meio Ambiente e Sustentabilidade, Pedro Luiz Côrtes.

Fase longa

Segundo ele, essa fase seca deve durar pelo menos até 2025, o que dificultará a recuperação do Cantareira. Um estudo feito por Côrtes projeta que o manancial só deve atingir um nível de segurança, de 38% da capacidade sem incluir o volume morto, em oito anos. "As fases frias e quentes do Pacífico têm impacto direto nas vazões dos rios. Por isso chamo atenção para que esse prognóstico climático de médio e longo prazo seja incluído na nova forma de operação do sistema", diz.

O diretor do Departamento de Recursos Hídricos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Antonio Carlos Zuffo, vê nos ciclos solares, que influenciam a circulação atmosférica e a temperatura oceânica, a explicação para eventos climáticos extremos no mundo, como a seca do Cantareira.

Temperatura em queda

Segundo ele, a temperatura máxima média da Terra apresenta tendência de queda desde 1998 - embora 2014 tenha sido o ano mais quente da história, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) -, semelhante à observada entre 1930 e 1970, que coincide com o período mais seco da região do Cantareira até a atual crise de estiagem.

Zuffo diz que o sistema foi concluído em 1974 e suas dimensões definidas com base em um período seco, de baixas precipitações, enquanto que sua operação pelos 30 anos seguintes ocorreram em período predominantemente chuvoso, aumentando os riscos de enchentes. Ele alerta que cenário inverso ocorre desde a outorga de 2004.

"O comportamento se repete. De 1930 a 1970, as precipitações caíram; de 70 até 2003, aumentaram. E, agora, de 2004 para cá, têm caído novamente. Então, temos ainda mais três décadas em que as chuvas devem diminuir e ficar abaixo da média." Segundo a Sabesp, a chance de uma seca como a de 2014 ocorrer era de 0,004%.

Há um ano

Se o volume morto é o cheque especial, como afirmam especialistas em recursos hídricos, faz um ano que o Sistema Cantareira estourou seu crédito e sobrevive no vermelho. Foi no dia 11 de julho de 2014 que o estoque de água que fica acima do nível das comportas, chamado volume útil, se esgotou de vez.

Desde então, toda água captada pela Sabesp para abastecer parte da Grande São Paulo sai da reserva profunda das represas. Inédita, essa captação, contudo, já havia começado antes, em 16 de maio, na Represa Jaguari-Jacareí, na região de Bragança Paulista, porque o estoque nela acabou antes.

Segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), se chover dentro da média nos próximos meses, o volume morto se recupera em 200 dias. Até ontem, contudo, só havia chovido 44% do esperado para o mês de julho.

Situação

Após dez dias consecutivos registrando aumento no volume armazenado de água, o Sistema Guarapiranga voltou a ficar estável nesta segunda-feira (13), segundo boletim divulgado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). O nível do Cantareira também não sofreu variação.

De acordo com os dados da Sabesp, o Guarapiranga, que atualmente é responsável por garantir o fornecimento de água ao maior número de pessoas na capital paulista e na Grande São Paulo (5,8 milhões), opera com 78,6% da capacidade - mesmo índice do dia anterior. Não choveu sobre a região nas últimas 24 horas.

Principal manancial

O volume de água no Sistema Cantareira, considerado o principal manancial de São Paulo em função de sua capacidade de armazenamento, também permanece o mesmo: 19,5%. Nas últimas 24 horas, a pluviometria sobre o sistema, responsável por abastecer 5,2 milhões de pessoas, foi de apenas 0,1 milímetro, o que fez o acumulado do mês subir para 21,9 mm. A média histórica de julho é de 50 mm.

O nível de água do Cantareira é medido também em outros dois índices. No primeiro deles, o nível de água do sistema voltou a ficar estável em 15,1%. No segundo, o qual leva em consideração o volume armazenado dividido pelo volume útil somado às duas cotas da chamada reserva técnica, o manancial permanece com -9 8%.

Outros mananciais

Os dados divulgados pela Sabesp apontam queda no volume de água armazenada nos outros quatro sistemas: Alto Tietê, Rio Grande, Rio Claro e Alto Cotia.

O Alto Tietê viu o nível de água armazenada voltar a cair 0,1 ponto porcentual nesta segunda, passando de 20,2% para 20,1%. O índice leva em conta uma cota de volume morto, com 39,4 bilhões de litros de água, adicionada em dezembro passado. No Rio Grande o indicador sofreu queda semelhante: de 92,5% para 92,4%.

Já os Sistemas Rio Claro e Alto Cotia sofreram variação negativa de 0,2 ponto porcentual. O primeiro caiu de 74% para 73,8%, enquanto o segundo foi de 66,4% para 66,2%.

 

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