Publicado 04 de Julho de 2015 - 18h36

Por Agência Brasil

 Sattouf deu entrevista coletiva na 13ª Festa Literária Internacional de Paraty (13ª Flip), onde veio divulgar seu livro O Árabe do Futuro

Agência Brasil

Sattouf deu entrevista coletiva na 13ª Festa Literária Internacional de Paraty (13ª Flip), onde veio divulgar seu livro O Árabe do Futuro

Ao contrário do que tem sido publicado na imprensa após o atentado ao jornal francês Charlie Hebdo em janeiro, que deixou 12 mortos, de que os cartunistas satíricos são “paladinos” da liberdade de expressão, "na verdade eles não passam de pessoas frustradas que usam o desenho como válvula de escape".

A opinião é do cartunista francês Riad Sattouf, cronista da vida francesa, que publicava a série sarcástica A Vida Secreta dos Jovens no Charlie. Ele rompeu o contrato com o jornal seis meses antes do atentado.

Para ele, depois dos assassinatos, foi atribuída aos desenhistas de humor uma importância que não tem relação direta com a vida política desses profissionais. "Acho que não há pessoas mais afastadas dessa expressão de liberdade do que os desenhistas". E brincou: "Eu mesmo sou um covarde, tenho medo de futebol, medo de que a bola venha para cima de mim”.

Sattouf deu entrevista coletiva neste sábado (4) na 13ª Festa Literária Internacional de Paraty (13ª Flip), onde veio divulgar seu livro O Árabe do Futuro, que narra sua infância vivida entre o mundo árabe e a França. Ele disse que não faz cartum com temas políticos. Prefere mostrar "os fatos da vida e deixar que o leitor tire suas conclusões”. Mas Sattouf diz entender que as sátiras com líderes da religião muçulmana publicadas pelo jornal possam ter ofendido alguns islâmicos.

“Eu compreendo perfeitamente que algumas pessoas possam ter se sentido ofendidas com aqueles desenhos, mas nunca existe um bom motivo para alguém matar alguém, qualquer que seja a razão, nada pode justificar”, finalizou.

Único sobrevivente

Pela primeira vez após o atentado de 7 de janeiro deste ano, o diretor da revista satírica francesa Charlie Hebdo, Laurent Sourisseau, conhecido como Riss, saiu do país para falar sobre a publicação, de tradição anticlerical e ateia. Ele foi o único sobrevivente no massacre que deixou 12 mortos.

“Podemos escrever o que queremos sobre política e políticos, mas, no momento em que se fala de religião, principalmente do Islã, o negócio fica mais sensível e o Charlie Hebdo pagou um preço alto por isso”, disse em palestra no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.

Antes do início do debate, em vez de um minuto de silêncio pela morte dos 12 integrantes da revista, houve um minuto de aplausos. O aplauso ocorreu para “não perpetuar o silêncio da censura e celebrar a liberdade de expressão”, disse o diretor.

Riss disse que o atentado foi uma “surpresa”, já que naquele momento eles não tinham nenhum problema específico. “Não tínhamos consciência sobre a periculosidade daquele momento. Até a polícia foi surpreendida. É difícil agora prever qual o próximo golpe”, acrescentou.

Ele ainda disse que a ação dos extremistas se insere em um âmbito maior de criar um clima de terror nas democracias. “É preciso ter uma visão mais ampla, de uma agressão contra as nossas democracias”, avaliou.

Pelo tom crítico e satírico dos cartuns da revista, Charlie Hebdo é, frequentemente, alvo de ações judiciais. O diretor explicou que não é fácil lidar com as ações judiciais contra a publicação. “Muitas vezes estivemos diante da Corte de Cassação da Franca, mas esse tribunal sempre confirmou a tolerância às nossas publicações”, explicou.

Para ele, a censura foi privatizada. Enquanto antes quem se preocupava em cercear os trabalhos era o poder político, hoje são associações privadas. “Existem associações privadas que fazem ameaças judiciais para gerar uma forma de censura. A censura de origem política praticamente desapareceu”, concluiu.

Escrito por:

Agência Brasil