Publicado 14 de Julho de 2015 - 9h50

Por Da Agência Anhanguera de Notícias

Ilustre campineiro, Carlos Mendes, sempre foi apaixonado pela cidade que residiu

Cedoc/RAC

Ilustre campineiro, Carlos Mendes, sempre foi apaixonado pela cidade que residiu

Alguns campineiros sempre fizeram questão de preservar os tesouros da cidade, como era o caso do desenhista, poeta e jornalista José de Castro Mendes, o Zeca. O jornalista Luso Ventura disse certa vez que Castro Mendes era o homem de dois amores, “o amor à sua mãe e o amor à sua cidade”. Campinas unia-se à sua vida de forma quase visceral. Sua dedicação à cidade chegava a ser, segundo os companheiros, parte de seu caráter.

O também jornalista e escritor Paranhos de Siqueira reafirmou, em artigo publicado no jornal Correio Popular, a dedicação com que Zeca entregava-se aos estudos relacionados à Campinas: “Espírito solitário, andava sempre sozinho. Tinha muitos conhecidos, mas poucos amigos. Dava-se bem apenas com os papéis velhos dos arquivos oficiais, onde ia buscar, na cata das vigílias prolongadas, o acontecimento histórico ainda não revelado pela história. Aí sim, no manuseio dos alfarrábios comidos pelo tempo, no convívio de documentos sem idade, empastados de poeira e atacados de traças, ele sentia-se à vontade. Para saber se Carlos Gomes espirrou ou tossiu, em 1870, em Milão, quando levou à cena "O Guarani", ele passava noites e noites fazendo consultas".

O texto de Siqueira, apesar dos exageros, serve para ressaltar uma característica presente nas biografias e na produção de Zeca: sua extrema dedicação à sua cidade, que se transformou ao mesmo tempo em seu local de vida e seu objeto de estudo, a sua “marca”. Por meio de livros, artigos nos jornais, aquarelas e organização de diversas coleções e exposições, Castro Mendes celebrou a sua “amada” terra natal sem que isso lhe valesse algum lucro, ou colocasse pão à sua mesa. Era um apaixonado pela cidade e cada um de seus trabalhos era repleto de dedicatórias e elogios à sua terra natal.

Ainda que fosse membro de uma família campineira tradicionalmente ligada ao comércio de bens culturais — seu tio-avô Antônio Benedito Castro Mendes era proprietário da afamada Casa Livro Azul, loja importadora de instrumentos musicais e sempre aberta à produção cultural da cidade —, não teve uma infância fácil, pois, desde que perdeu seu pai teve que trabalhar para ajudar no sustento da família. Aparentemente, o sobrenome conhecido não lhe trouxe muitos benefícios em sua juventude.

Zeca era um bom desenhista. Esta sua habilidade lhe propiciou, além do emprego no setor de Botânica do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), onde desenhava plantas, envolvimento desde a juventude com artistas e intelectuais da cidade. Ele adorava desenhar o que Campinas tinha de mais belo e importante.

Poema

"De minha terra para minha terra

tenho vivido. Meu amor encerra

a adoração de tudo quanto é nosso.

Por ela sonho, num perpétuo enlevo,

e, incapaz de servi-la quanto devo

quero, ao menos, amá-la quanto posso!"

O poema de Martins Fontes era muito usado por José de Castro Mendes (1901-1970), uma das mais respeitadas figuras da intelectualidade local, para celebrar sua paixão por Campinas. Jornalista, pintor, músico, fotógrafo e poeta, Zeca adorava retratar sua terra.

Qualquer assunto referente ao passado da cidade despertava o interesse de Castro Mendes, tema para o qual dedicou um artigo na Monografia de Campinas, organizada por Júlio Mariano e Carlos Francisco de Paula.

Autor de artigos, livros e pinturas, Castro Mendes foi desenhista até a aposentadoria e trabalhava no setor de Botânica do Instituto Agronômico de Campinas, onde desenhava plantas. No IAC publicou seu primeiro trabalho, o álbum Velhas Fazendas Paulistas, realizado em parceria com o engenheiro J.E.Teixeira Mendes, em 1947. Coube a Zeca compor as aquarelas, que tinham o intuito de mostrar ao mesmo tempo a pujança de tempos anteriores e o “atual estado” das fazendas da região. Por esse trabalho recebeu elogios do escritor Menotti Del Picchia, que referenciou Velhas Fazendas como um dos principais registros em imagem das antigas fazendas cafeeiras.

Segundo a crônica local, seu dia a dia era trabalhar no IAC e depois ir ao arquivo do Centro de Ciências Letras e Artes de Campinas, onde dedicava horas à leitura de jornais e documentos antigos. Também no CCLA, Zeca foi criador e diretor dos museus Carlos Gomes e Campos Salles.

As antigas fotografias, algumas de coleção particular, outras do acervo do CCLA, que vez ou outra reproduzia em aquarelas, possibilitou-lhe compor alguns de seus mais conhecidos trabalhos, como o artigo Retratos da Velha Campinas, publicado inicialmente na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, em 1951, e Efemérides Campineiras, lançado em 1960, trabalho pelo qual ganhou a medalha Carlos Gomes de literatura.

É admirável o trabalho que Castro Mendes realizou no Correio Popular, de 1968 a 1970, no suplemento História da Cidade de Campinas. Capas belíssimas e textos que apontam aspectos marcantes da vida cultural e social da cidade. No Correio Popular, Castro Mendes trabalhou de 1927 (ano da criação do jornal) até o final de sua vida. Escreveu inúmeras séries a respeito da história da cidade, como Isto não é História, Documentário de duas épocas, Efemérides Campineiras e Retratos da Velha Campinas. No início da década de 1960 elaborou, dessa vez para o jornal Diário do Povo, uma série em quadrinhos sobre a história da cidade, destinada às crianças.

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