Publicado 10 de Julho de 2015 - 7h00

Por Maria Teresa Costa

O estudante Cristiano Rio Branco, de 19 anos, desempregado, afirma que a tarifa pesa no orçamento e que tem apelado às caronas e bicicleta

Dominique Torquato/ AAN

O estudante Cristiano Rio Branco, de 19 anos, desempregado, afirma que a tarifa pesa no orçamento e que tem apelado às caronas e bicicleta

O número de passageiros que pagam tarifa no transporte público de Campinas caiu 9,3% nos últimos dez meses — são pessoas que simplesmente passaram a andar a pé porque não têm mais dinheiro para pegar um ônibus. A situação é consequência direta do aumento do desemprego que atinge todo o País. A retração na atividade econômica é o principal motivo apontado pela Associação das Empresas de Transporte Urbano de Campinas (Transurc) para que a média mensal de pagantes tenha sofrido uma redução de 796.554 passageiros. Outro motivo é o aumento no volume de integrações, que subiu de 22% para 27% dos usuários que usam o bilhete único — pagam uma única tarifa por um período de duas horas.

Segundo a entidade, que reúne as cinco concessionárias que operam o transporte público na cidade, os ônibus andam lotados, mas há cada vez menos passageiros pagantes dentro dos coletivos e cada vez mais pessoas que têm direito à isenção da tarifa. Os dados da Transurc mostram que, de janeiro a setembro de 2014, a média mensal de passageiros era de 8.522.136 pagantes. Nos dez meses seguintes, de outubro de 2014 a junho de 2015, a média caiu para 7.725.582 pessoas, uma redução de 796.554 nas cinco concessionárias do sistema.

O total transportado não inclui as cooperativas de transportes nem aqueles passageiros que não pagam tarifa porque são beneficiados com a gratuidade, concedida, por exemplo, aos idosos, policiais civis e militares. Se incluídos, a média mensal de passageiros transportados foi de 15.284.487 nos primeiros seis meses do ano, uma queda de 0,5% em relação ao primeiro semestre de 2014, segundo a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec).

Para o empresário Joubert Beluomini, da Itajaí Transportes Coletivos, o desemprego está na base da queda dos usuários do transporte público. Ele estima uma queda de 15%, na área atendida por sua empresa — região do Campo Grande e Corredor John Boyd Dunlop. “Tivemos oscilações este ano, mas, de abril para cá, a redução tem sido significativa. Sem dinheiro, as pessoas não usam ônibus”, afirmou.

“O crescimento do desemprego afeta muito a mobilidade urbana. Sem dinheiro, as pessoas deixam de circular pela cidade e usam a reserva que têm para garantir outras necessidades. Quando podem, fazem os trajetos a pé, em bicicleta ou pedem carona”, disse o consultor e economista Felipe de Andrade. A tendência, afirmou, é de aumento no desemprego e mais queda no número de pessoas usando o transporte coletivo.

De carona

Sem emprego, o estudante Cristiano Rio Branco, de 19 anos, vem apelando para caronas e bicicleta para economizar enquanto não consegue uma colocação no mercado. O preço da tarifa, disse, pesa demais no seu orçamento. “Está caro demais e as condições dos ônibus são péssimas. Banco quebrado e janela quebrada sempre tem. Além de ser caro, o transporte público está horrível”, disse.

“Eu deixei de sair e agora só pego ônibus quando preciso muito”, disse a desempregada Maria Benedita, de 21 anos. Essa saída também é adotada pela estagiária Amanda Franco, de 23 anos, que agora é beneficiada pelo cartão universitário, mas ainda sente o peso das passagens no bolso. “Evito sair de casa porque o valor do trasporte é alto. Agora liberaram o cartão universitário, o que ajudou um pouco, mas antes não tinha e era muito difícil conciliar os gastos”, afirmou.

Para as empresas, o quadro é preocupante porque a redução no volume de usuários significa queda na receita em um momento em que há o aumento de custos do diesel, da folha de pagamentos, da renovação da frota para atender exigências do contrato de concessão e das peças de veículos, segundo o diretor de comunicação e marketing da entidade, Paulo Barddal. A Transurc, no entanto, não informou qual o prejuízo mensal do sistema.

Subsídio da Prefeitura será de R$ 30 mi este ano

A Prefeitura vai gastar este ano R$ 30 milhões para subsidiar o transporte coletivo da cidade, dos quais R$ 18 milhões serão direcionados ao Sistema InterCamp, operado por ônibus das empresas concessionárias do transporte coletivo e miniônibus do serviço alternativo, e R$ 12 milhões para o Programa de Acessibilidade Inclusiva (PAI). O valor é 56,1% menor que o total de subsídio pago em 2014. A expectativa era que o subsídio em 2015 ficasse restrito ao PAI, mas a mudança de cenário econômico, com aumento do diesel e a queda no número de passageiros transportados, levou a Prefeitura a subsidiar o sistema por mais um ano.

A tarifa de ônibus atual é de R$ 3,50. Em 2 de dezembro de 2012, antes do governo Jonas Donizette (PSB), o valor da tarifa de ônibus foi reajustado para R$ 3,30. O subsídio mensal da Prefeitura para o sistema de transporte público era de cerca de R$ 3 milhões. Em junho de 2013, o prefeito reduziu o valor da passagem para R$ 3,00, com subsídio mensal da ordem de R$ 6,6 milhões. Já em agosto de 2014, após mais de um ano, a tarifa voltou para R$ 3,30, com subsídio mensal de 3,6 milhões. Com a tarifa a R$ 3,50, o subsídio da Prefeitura é de R$ 1,5 milhão por mês.

Escrito por:

Maria Teresa Costa