Publicado 10 de Julho de 2015 - 7h00

Por Gustavo Abdel

Wanderlei Marcos Pereira, de 37 anos, e seus companheiros de calçada, os cachorros Negão e Lobo, se aquecem com cobertores na Avenida Governador Pedro de Toledo

Dominique Torquato/AAN

Wanderlei Marcos Pereira, de 37 anos, e seus companheiros de calçada, os cachorros Negão e Lobo, se aquecem com cobertores na Avenida Governador Pedro de Toledo

Lobo e Negão dividem um pequeno cobertor na calçada da Avenida Governador Pedro de Toledo, no Botafogo. Custaram a levantar os focinhos para uma fotografia por causa do frio cortante que fazia na manhã da última quarta-feira (8). Ambos vivem na rua há pelo menos cinco anos e foram acolhidos por aqueles que também não possuem um teto para viver. Porém, Lobo, Negão e outra centena de animais de rua poderão ser beneficiados por um projeto de lei protocolado esta semana, em Campinas, que, se aprovado, poderá permitir que cães e gatos tenham acesso nos abrigos que atendem moradores de rua em Campinas. A Prefeitura informou que estuda a construção de um canil da Casa da Cidadania, na Vila Industrial.

Os animais Lobo e Negão, bem cuidados pelo morador em situação de rua Wanderlei Marcos Pereira, de 37 anos, são exemplos de outras centenas de cachorros que fazem companhia aos que vivem nas calçadas. Esses animais muitas vezes fazem com que os próprios moradores de rua não entrem em um abrigo ou algum outro equipamento de acolhimento justamente pela falta de espaço para seus fiéis companheiros.

No caso da dupla encontrada pela reportagem anteontem, duas casinhas com coberturas, cobertas e potes de comida foram montados pelos donos em uma rua que dá acesso ao Serviço de Atendimento ao Migrante, Itinerante e Mendicante (Samin). “Eles não entram. Então, ajeitamos aqui para eles para não fugirem enquanto estamos lá dentro”, contou outro morador, José Carlos, de 39 anos.

O vereador Paulo Bufalo (PSOL), autor do projeto, diz que a amizade leal entre cachorros e moradores de rua já é bem conhecida. “A pessoa em situação de rua sempre divide o pouco que tem com seu animal. Esse tipo de amizade pode ensinar muito à nossa sociedade, que normalmente julga as pessoas por seus bens materiais e não pelo o que elas são.”

De acordo com ele, não houve qualquer definição no projeto em quais equipamentos públicos os canis deverão ser instalados. “Penso que o Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal e outras frentes da Administração possam definir onde vão montar as estruturas, principalmente, em um espaço próximo da população de rua, para que os donos tenham acesso permanente aos animais e possam dar os mesmos cuidados”, disse Bufalo.

Exemplo

Em Curitiba, a Prefeitura montou um canil junto ao abrigo para que os moradores de rua levem seus animais e fiquem todos protegidos. No local, os bichos recebem cobertores e ração. A ideia de montar uma estrutura semelhante em Campinas agrada o diretor do Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal, Paulo Anselmo Nunes Felippe.

“A ideia é muito interessante e o que a gente observa é que eles tratam muito bem os animais”, disse o diretor. Segundo ele, o departamento realiza mutirão de castração e cuidados com esses animais de rua, geralmente, quando são as entidades protetoras que encaminham. “Somente dessa maneira o pós-operatório, em caso de algum procedimento cirúrgico pode ser cumprido sob supervisão”, disse.

A secretária de Cidadania, Assistência e Inclusão Social de Campinas, Jane Valente, também considera importante a questão de abrigo aos animais dessa população de rua, justamente pela relação afetiva que existe. De acordo com ela, a Casa da Cidadania, que hoje funciona das 16h às 22h, poderá abrigar no futuro um canil e até mesmo um estacionamento para as carroças dos catadores de materiais recicláveis.

A efetivação desse projeto, segundo Jane, se dará quando o local passar a funcionar como casa de passagem e abrigar essa população. “Uma casa de passagem poderá ter as principais condições para abrigar esses animais no mesmo espaço. Já os abrigos de permanência, aqueles de saída do sistema, é preciso verificar no regimento interno se há a possibilidade. É preciso estar em alinhamento com a zoonose para definir as diretrizes”, explicou a secretária.

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Gustavo Abdel