Publicado 16 de Julho de 2015 - 10h57

Por João Nunes

Homem-Formiga

João Nunes

Homem-Formiga

Homem-Formiga (Ant-Man, EUA, 2015), de Peyton Reed, prova uma vez mais que na arte não importa o gênero, mas a qualidade do resultado final. Não existem gêneros, temas ou ideias ruins; existe a má execução. Como não sou nem um pouco ligado a HQs, eu não esperava nada do filme.

 

E, sem ser obra-prima (nem próximo disso), Homem-Formiga surpreende positivamente pela falta de pretensão na abordagem do que seria um personagem menor (pelo menos na minha visão de leigo) em relação aos famosos heróis a que nos acostumamos ver nas telas.

 

A despretensão não significa pouco investimento dos estúdios Marvel no projeto (veja o número nesta página). Mas tem-se a impressão de que os produtores decidiram colocar uma tropa de choque na rua a fim de transformar um personagem aparentemente modesto (além de tudo, venal, pois é um ladrão) em produto de peso. E conseguiram.

 

Paul Rudd (também co-roteirista) empresta carisma ao herói por ser bom e versátil ator. Ele nos convence e desperta empatia desde a primeira e ótima sequência na qual leva porradas na despedida da cadeia. E, depois, emenda série de gags, diálogos e situações que conquistam o espectador.

 

A razão está no esmero da produção (como é bom ter bastante dinheiro!), que inclui efeitos especiais de extrema qualidade (o movimento das formigas, por exemplo) e em todo aparato tecnológico e técnico (a fotografia de Russell Carpenter), a música mais ou menos padrão de Christophe Beck, mas, pelo menos tem sutilezas e permite pausas; e, por fim, o humor.

 

Não piadas, mas situações que provocam riso. E nisto há remissão a Os Vingadores (Joss Whedon, 2012), não por acaso citado explicitamente com a aparição de Sam Wilson/Falcon (Anthony Mackie), pois o Homem-Formiga foi um dos fundadores destes no universo da HQ.

 

Costumo ser avesso a roteiros escritos por muita gente, pois implica em excesso de opiniões e, comumente, geram equívocos. Entretanto fui derrotado pela minha lógica, pois a partir do original de Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby, nada menos que seis pessoas escreveram e colaboraram com o roteiro. E funcionou, o que reforça minha opinião sobre o esforço da produção para, a partir da despretensão, se superar.

 

A história não foge ao óbvio. No entanto, e o mais importante, abriu possibilidade de brincar com os clichês – como Paul Rudd faz o tempo todo. Apesar de ladrão, seu Scott Lang se assume como tal e se dá o codinome de “bom ladrão”. E tem um objetivo quase banal: ver a filha que está com a mãe e um padrasto chato e policial (que ironia) trapalhão (Bobby Cannavale). Mas a filha não se importa; para ela, o pai é um herói.

 

E há o cientista louco, Hank Pym (Michael Douglas), que trabalhou o projeto do homem-formiga no laboratório; o alucinado Darren Cross (Corey Stoll), pronto para explodir o mundo (obsessão dos vilões); e a mocinha Hope Van Dyne (Evangeline Lilly), com quem Scott Lang se dará bem. Ou seja, tudo como deve ser. Com a diferença de que o filme não se leva a sério e isto funciona como trunfo. Não bastasse, há um ótimo coadjuvante, Michael Peña, como o personagem latino Luis.

 

O segredo: tenha orçamento de milhões de dólares em mãos, disponha de bons roteiristas que escrevam inteligentes diálogos, use referências da hora (muito boa as piadas sobre Titanic), acrescente o humor esperto, misture tudo e leve ao forno.

 

O resultado é um filme divertido, bem realizado e criativo, como demonstra a luta no autorama – grande sacada e um dos melhores momentos. PS: espere terminar os créditos, pois há duas boas cenas-bônus.

 

* Publicado no Correio Popular em 16/7/2007

 

O NÚMERO

130

MILHÕES

Foi o orçamento do filme

Escrito por:

João Nunes