Publicado 30 de Junho de 2015 - 16h02

Por Maria Teresa Costa

Maria Teresa Costa

Da Agência Anhanguera

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Depois de 92 anos pintadas de branco, as fachadas da Catedral Metropolitana de Campinas começam a voltar à cor original, o amarelo-ocre. A fachada frontal, primeira a ter a restauração concluída, será entregue na sexta-feira, com a cor que tinha na inauguração, em 1883. Para encontrar a tinta original, foi necessário um trabalho intenso de prospeção, segundo o arquiteto Ricardo Leite, responsável pelo restauro, porque na grande reforma de 1923 quase toda a argamassa do templo foi trocada. Sem recursos para a conclusão da obra, não há previsão de quando as demais fachadas da Catedral serão restauradas

A falta de documentos do período da construção, no entanto, impede que a restauração do templo seja orientada para trazer a Catedral ao que ela era em 1883. Nessa época, a cúpula da igreja era pequena e as paredes do presbitério mais baixa do que é hoje. A configuração atual do templo foi adquirida na reforma de 1923, segundo Leite, quando a igreja ganhou uma cúpula maior e as paredes do presbitério foram ampliadas. Assim, é a igreja de 1923 que está orientando o restauro, com exceção da cor – amarelo-ocre nas paredes e branco na cúpula.

O restauro da Catedral está longe de ser concluído. O templo precisa ainda de R$ 4,3 milhões para o projeto de restauro ser integralmente implantado. A Arquidiocese conseguiu autorização do Ministério da Cultura, em 2012, para captar R$ 7,1 milhões para as obras, utilizando os benefícios da lei de incentivos fiscais (Lei Rouanet) e, desse total, obteve R$ 2,8 milhões, suficientes apenas para o restauro das fachadas. A fachada da frente do templo teve toda a argamassa trocada, os anjos foram restaurados e dois dos quatro evangelistas da fachada, recuperados. Os recursos obtidos até agora vieram dos bancos Itaú e Bradesco e das empresas de alimentação Ticket, Alelo, Sodexo e FMC.

Nessa parte da obra, os azulejos que revestem a torre da igreja foram retirados para a substituição dos que estavam danificados por outros que fabricados com a mesma técnica utilizada nas peças originais. Os terraços do campanário também foram recuperados e os antigos mecanismos que acionam os sinos passaram por revisão. Toda a argamassa externa foi refeita.

As imagens da fachada passaram por restauro. Ali estão os quatro evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João – e mais quatro anjos do apocalipse com seus trompetes. Uma delas, a de Marcos, estava sem a cabeça desde 2010. A peça caiu, mas não quebrou e foi guardada na igreja a espera do restauro. Mateus é o primeiro a direita do prédio e tem um anjo a seus pés. Marcos, o que está sem rosto, é o segundo, com um leão. Depois vem Lucas com um touro e João com uma águia.

Para conclui a segunda fase das obras falta conseguir verbas para substituição dos sistemas elétrico e hidráulico e de comunicação da Catedral.

Na primeira fase, com R$ 1,58 milhão captados pela Lei Rouanet, foram feitas a troca do telhado do templo para eliminar as infiltrações que, em dia de chuva, permitiam a entrada de água que acabavam danificando altares e chão do centenário templo. O telhado foi construído em três lances. Um, sobre a nave central, outro, do altar-mór e Capela do Santíssimo e outro que atravessa a igreja em frente ao altar-mór. Também foi feita a restauração do teto, com reformas na parte hidráulica e elétrica. Os três imensos lustres de cristais também passou por restauro.

Tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc), a Catedral é uma referência histórica, pois sua monumentalidade e excelência arquitetônica, presentes na talha do Mestre Vitorino dos Anjos e na elaboração dos vitrais, simbolizam a fase de grande desenvolvimento urbano vivido pela cidade ao longo do século 19, graças à economia cafeeira.

RETRANCA

A obtenção de recursos para a conclusão do restauro da Catedral enfrenta mais um impasse. A igreja não tem o registro de matrícula do imóvel, documento necessário para poder comercializar o potencial construtivo do templo – a lei que instituiu o potencial construtivo exige que esse potencial em metros quadrados seja averbado no registro da matrícula do imóvel. O setor jurídico da Arquidiocese de Campinas está tentando resolver a situação para que a Catedral possa utilizar o potencial para arrecadar os recursos necessários ao término do restauro.

Em todos os momentos em que precisou captar recursos utilizando lei de incentivos fiscais, a Arquidiocese de Campinas apresentou um documento assinado pelo marechal Floriano Peixoto, primeiro presidente do Brasil republicano, em que a Catedral, um bem do Império, foi transferido para a Igreja, com a proclamação da República.

A Catedral irá colocar no mercado apenas parte dos metros quadrados que está, desde ontem, autorizada a vender. A quantidade será equivalente a uma arrecadação de cerca de R$ 4,3 milhões, que é a necessidade atual, para concluir a segunda fase do restauro. O restante ficará como uma reserva para financiar a terceira fase, quando será feita a recuperação das madeiras do templo, incluindo os altares, forros, revestimentos, cujo custo ainda não está estimado, informou o arquiteto Ricardo Leite, responsável pelo projeto de restauro da Catedral.

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Maria Teresa Costa