Publicado 29 de Junho de 2015 - 20h28

Por Adagoberto F. Baptista

Fotos: Dominique (quinta-feira)

Gustavo Abdel

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A conduta do coordenador de Prevenção às Drogas de Campinas, Nelson Hossri, durante a abordagem a um casal de moradores em situação de rua abriu polêmica e dividiu a opinião entre especialistas que trabalham diretamente com dependentes químicos. A secretária municipal de Cidadania, Assistência e Inclusão Social, Jane Valente, disse que conversará com o coordenador nesta terça-feira para que ele explique a conduta que tomou. Hossri disse ao casal em situação de risco que o procurava na região do Viaduto Cury para pedir internação através do Programa Recomeço, do governo estadual, que o vício do crack é “incurável” e para que eles parassem com “o costume do assistencialismo”. O próprio coordenador confirmou ontem, entretanto, que ficou exaltado durante a abordagem, mas que já teria pedido desculpas ao casal pessoalmente. (veja matéria ao lado)

A conversa ocorreu na última quinta-feira, primeiro dia da Semana de Prevenção às Drogas no município, quando a coordenadoria liderada por Hossri iniciava uma campanha de conscientização sobre os riscos da ingestão de etanol (álcool combustível), na região central. Desde o início do ano 10 moradores em condição de rua morreram, e uma das hipóteses pode ter sido por causa da ingestão de álcool combustível misturado a outras substâncias.

O Correio gravou a conversa que o coordenador teve com Elissandro da Silva, de 32 anos, e Franscislaine Aparecida, de 30, na manhã de quinta-feira. O casal procurou o ônibus da Guarda Municipal (GM), no Viaduto Cury, onde concentrava as assistentes sociais do programa de Prevenção às Drogas e o coordenador Nelson Hossri, para pedir intervenção da coordenadoria para que fossem internados o mais rápido possível. O casal estava com os documentos em mãos e, segundo eles, a internação no Instituto Padre Haroldo, que acolhe a população através do Programa Recomeço, estava “demorando muito”. Dizendo que não aguentavam ficar mais nenhum minuto nas ruas atrás do crack, imploravam para serem acolhidos. Desde então a reportagem tenta localizar o casal pelas redondezas do Viaduto Cury e outros pontos de concentrações de moradores de rua no Centro, mas sem sucesso.

A secretária Jane Valente assistiu ao vídeo e pontuou que a maneira com que Hossri fala exigiria uma forma mais adequada. “É um assunto muito delicado. Ele usou conceitos-chave, mas a forma e o local reconheço que precisam ser revistos. Era preciso primeiro acolher esse casal e depois fazer o reconhecimento. A forma como foi feito estava inadequada”, disse Jane.

OPINIÕES - A discussão começou quando Francislaine começou a reclamar sobre a demora no atendimento e o atual governo municipal. Hossri então saiu em defesa do programa e sugeriu então que o casal pagasse R$ 5 mil por um tratamento particular. “Vocês têm que parar com esse costume de assistencialismo. Você está sendo ajudada da forma que tem que ser. É assim, todo mundo passa por isso. Desde o dependente VIP, artista, de qualquer um, até pessoa em situação de rua. Tem que ser igual”, falou ao casal o coordenador.

Em outro trecho da conversa o rapaz diz que a dependência dele tem cura, mas o coordenador foi enfático ao dizer que é incurável. “Não, ela é uma doença incurável. Pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ela é uma doença espiritual, mental, progressiva e incurável, física, é uma doença crônica, amigo”, disse Hossri. A palavra incurável despertou a atenção da secretária Jane e também de outros especialistas que trabalham na área.

Para o psicólogo Rodrigo Lazzarini, especialista em dependência, o vício do crack é uma doença crônica, como a diabetes. “Vai ser preciso fazer o controle talvez durante toda a vida, senão pode voltar a ter recaídas”, disse, considerando como uma doença crônica progressiva. Já o psicólogo Thiago Lusvardi, que também atua na área de dependência química, não enxerga como uma doença incurável, já que possui um olhar social à política de álcool e droga. “Não vejo nem isso como uma doença, pois existem as incoerências que precisam ser analisadas caso a caso”, avalia. Cura, aliás, é palavra em desuso entre especialistas, que preferem falar em abstinência estável.

“A OMS fala em doença, os grupos de apoio falam em uma doença progressiva, e hoje é complicado fazer uma concepção exata. Existem aos que não vão atingir a abstinência total, e para outros a droga vai sendo socializada”, disse o gestor técnico do programa Despertar para a Vida, do Instituto Padre Haroldo, Cesar Rosolen Jorge. “Há uma corrente de pessoas que pensam dessa forma (sobre ser incurável), e não podemos desconsiderar”, completou.

INTERNAÇÃO - De acordo com o gestor técnico do programa, a Francislaine será internada nesta quarta-feira, e Elissandro passará, no mesmo dia, por uma entrevista de avaliação de perfil. Após a entrevista é agendada a sua internação. De acordo com o gestor, Francislaine já esteve internada no Padre Haroldo, mas se recuperou bem e teve uma nova recaída. A secretária Jane Valente confirmou as informações do gestor, e informou que eles deram entrada no tratamento através do programa Recomeço no dia 11 de junho, e que no dia 17 não compareceram no instituto. Foi novamente agendado para o dia 22 mas tornaram a não comparecer, disse a secretária. O casal confirmou que fizeram uso da droga na data e não compareceram.

RETRANCA: SECRETARIA ESTADUAL

A Secretaria de Desenvolvimento Social de São Paulo informou por meio de nota que o a conduta do coordenador Nelson Hossri não segue o protocolo de atendimento inicial aos usuários de substancias psicoativas, conforme preconiza o Programa Recomeço. De acordo com a secretaria, o protocolo correto deve estar pautado “na entrevista, no acolhimento, no procedimento de triagem e no encaminhamento à rede de serviços referenciados no território”. “Desta forma, entendemos que o ocorrido apresentado no vídeo não segue esse protocolo”, informou.

Por outro lado, segundo mesma nota encaminhada pela secretaria às 20h30, as informações e as orientações fornecidas pelo coordenador “estão de acordo com os procedimentos de atendimento para o encaminhamento de tratamento aos usuários de substâncias psicoativas e suas famílias”.

Seguindo uma linha de cuidados para serem acolhidos em comunidades terapêuticas, no caso Instituto Padre Aroldo, conveniado ao Programa Recomeço, a secretaria informou que faz-se necessária a prévia análise de avaliação do equipamento de saúde e os procedimentos de exames clínicos prévios ao acolhimento no intuito de garantia de uma linha de cuidados qualificados, “o que não exclui o acesso dos usuários ao serviço”.

O Programa Recomeço, coordenado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, realiza parcerias com os municípios que aderem a uma proposta de uma política municipal sobre drogas. Campinas foi um dos primeiros a realizar adesão. Criando assim a coordenadoria municipal sobre drogas, órgão vinculado a respectiva prefeitura.

RETRANCA - EXPLICAÇÕES DE NELSON HOSSRI

O coordenador Nelson Hossri informou ontem que o tratamento do casal já havia sido disponibilizado, e que não era pra eles estarem na rua naquele dia (quinta-feira) caso tivesse comparecido na data estipulada pelo Instituto Padre Haroldo para as avaliações necessárias. Entretanto, Nelson reconheceu que se exaltou com o casal durante a abordagem, mas justificando que Elissandro o teria agredido antes na cabeça com a pasta de documentos que carregava.

“O dependente abusa, são manipuladores, agendam e não comparecem. O tratamento deles já saiu e não era para estarem na rua”, disse Hossri. De acordo com ele, o casal recusou atendimento da equipe de assistentes que estavam no local, e que chegaram com ameaças. “Você tem que se defender. O momento realmente foi de explosão por que eles vieram com explosão, e temos que estar firme. Não estou dentro da minha sala”.

O coordenador disse que o casal fazia “show no momento em que estava para ser internado”, e que “ele está cuspindo no prato que ele comeu”. “A secretaria me ligou, ela observou um lado, esse vídeo se divulgado vamos ter que tomar uma medida. Não podemos passar a mão na cabeça de um dependente químico”, disse.

Hossri também garantiu que as pessoas, inclusive moradores de rua que passaram pelo tratamento do Padre Haroldo, o apoiaram naquele momento. “Ele bateu com um atestado na minha cabeça, ele tumultuou, ele não era para estar lá”, frisou.

Porém, segundo o coordenador, a situação com o casal foi normalizada ontem mesmo, já que Elissandro e Francislaine teriam lhe procurado na sede da coordenadoria e lhe pedido desculpas pelo ocorrido na quinta-feira passada. “Ela foi até lá receber o Cartão Recomeço e também pedi desculpas. Disse que não tinha o por quê eles fazerem aquele barulho. Ele me abraçou, depois tomou um café e está tudo certo”, finalizou.

Trecho da conversa entre o coordenador Nelson Hossri e o casal:

Nelson Hossri - Você está falando que isso é dinheiro do governo para a bolsa do Jonas (Donizette, prefeito). Como você vai entrar em um tratamento que está sendo pago pelo Poder Público? Então junta R$ 5 mil por mês e paga o tratamento.

Francislaine - Pagar R$ 5 mil por mês, Nelson? O coordenador falando assim? Estou precisando da sua ajuda.

Nelson Hossri - A ajuda está aí. Você foi encaminhado para um serviço público gratuito.

Francislaine - Mas é um mês esperando.

Nelson Hossri - Um tratamento custa R$ 5 mil e você está com uma vaga gratuita e está reclamando. Você está indo para o terceiro melhor centro de tratamento do mundo, referência mundial. Vocês têm que parar com esse costume de assistencialismo. Você está sendo ajudada da forma que tem que ser. É assim, todo mundo passa por isso. Desde o dependente VIP, artista, de qualquer um, até pessoa em situação de rua. Tem que ser igual.

Elissandro - Não tem algo melhor, que possa ajudar o mais rápido possível?

Nelson Hossri - O que você quer? Uma particular (clínica) você precisa ter dinheiro e pagar. Então você está indo para uma pública.

Elissandro - Mas não tem uma que você me encaixe hoje mesmo?

Nelson Hossri - Não existe para ontem, amigo. Existe uma regra, exames...

Elissandro - E como o senhor iria sentir se fosse seu filho nos seus pés dizendo pai me ajuda?

Nelson Hossri - Eu iria interna-lo. Procurar um tratamento, uma equipe, seguir uma regra.

Elissandro - O senhor é filho de Deus Pai Todo Poderoso. Eu estou te pedindo ajuda. Você é o coordenador e tem o poder de ligar lá e dizer para me internar.

Nelson Hossri - Não posso, por que se você tiver uma doença você vai atrapalhar o tratamento dos outros.

Elissandro - Eu não tenho doença nenhuma (mostrou o documento).

Nelson Hossri - Ótimo, então agora você leva esse exame para o Padre Haroldo.

Elissandro - Eu quero sair da rua, peço pelo amor de Deus.

Nelson Hossri - Vamos parar com o sensacionalismo.

Elissandro - Mas minha dependência química ela tem cura.

Nelson Hossri - Não, ela é uma doença incurável. Pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ela é uma doença espiritual, mental, progressiva e incurável, física, é uma doença crônica, amigo.

Elissandro - Mas tem cura.

Nelson Hossri - Não, é incurável, tem tratamento. Tem controle. Tem o dependente na ativa e o dependente limpo. Você está com uma ajuda amigo, você deveria agradecer. Você tem um tratamento de graça.

Elissandro - Mas até quando? Até quando eu levar um tiro na cabeça?

Nelson Hossri - Sim, até o dia que você levar. A responsabilidade é sua, você entrou na droga e você precisa sair dela. Para sair você precisa parar com isso (documentos) e levar lá.

BOX - O Setor de Homicídio e Proteção a Pessoa (SHPP) de Campinas prendeu na tarde de ontem o suspeito de ter assassinado com quatro tiros o morador em situação de rua Marcus Eugênio Martins Corrêa, de 28 anos, com o apelido de "Salsicha", no dia 20 de junho. A polícia vai apresentar o suspeito na manhã de hoje na sede do SHPP. Marcus foi morto dentro de um galpão abandonado, em frente ao Setor de Atendimento ao Migrante, Itinerante e Medicante (Samim), no bairro Botafogo. Ele foi o nono morador de rua que morreu desde o início do ano. A polícia somente adiantou ontem que o suspeito de matar Salsicha era procurado também por uma tentativa de latrocínio no começo do mês de junho, em frente a rodoviária.

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista