Publicado 06 de Julho de 2015 - 10h05

Por Gustavo Abdel

Ação voluntária mudou a perspectiva de crianças do bairro Jardim Columbia, na região do Campo Belo, em Campinas

Dominique Torquato/AAN

Ação voluntária mudou a perspectiva de crianças do bairro Jardim Columbia, na região do Campo Belo, em Campinas

A cearense Maria do Carmo Pereira de Sousa tinha a plena certeza de que se não agisse rápido, em pouco tempo veria as crianças sendo agenciadas pelo tráfico de drogas, mulheres morrendo nas mãos de homens violentos e uma comunidade sem qualquer perspectiva de progresso ou voz ativa. Mas em 2012 decidiu mudar aquele cenário, e então enfrentou “os caras lá de cima”, consolidou uma rede que possui hoje 200 mulheres aliadas, e fez do próprio barraco de madeira com 6X4 um ponto para reforço escolar todas as tardes, uma farmácia popular e uma cozinha comunitária, que atendem mais de 250 famílias da comunidade “Menino Chorão”, cravada no bairro Jardim Columbia, um dos mais carentes da região do Campo Belo, em Campinas.

 

Entretanto, Maria do Carmo, ou Carmen como é chamada, quer mais, e trabalha diariamente para que a sociedade volte os olhares e contribua basicamente com doações para a sobrevivência do projeto que criou. Ela foi a primeira pessoa a assentar moradia, em 2011, no que hoje é chamado de Rua 1, de um total de 11 vias de terra. Viu aos poucos o local, às margens da Rodovia Santos Dumont, receber moradores em situação de rua e posteriormente caravanas de maranhenses que chegaram para trabalhar na região de Campinas, e que hoje correspondem a 89% dos moradores da comunidade. Viu-se também pressionada pelo tráfico, que queria vê-la longe dali, a partir do momento que sua notoriedade aumentava entre aqueles que ela acolhia.

Porém hoje, aos 45 anos, Carmen é a referência na liderança da comunidade e há quatro anos vem provando que através da plena entrega voluntária pode mudar - e já mudou muito - a realidade daquele ambiente. Vítima do tráfico de mulheres no Ceará, chegou em Campinas em 2004, sem saber onde desembarcara. Para traz deixou sete filhos e um companheiro agressivo, que lhe tirou a base do espancamento uma nova criança que carregava no ventre durante cinco meses. “Fui morar na região dos DICs sem saber onde eu estava. Fui vítima do tráfico de mulheres entre estados”, lembra. Três filhos já morreram, e conversa toda semana com os outros quatro. “Tenho muita saudade, mas eles estão encaminhados por lá”, diz.

REDE DE AJUDA - Quando estava completando um ano de Jardim Columbia e o local já com mais de 100 famílias assentadas, Carmen começou a perceber que não conseguia dormir tranquilamente nas noites de sextas-feiras e sábados. Os gritos de mulheres agredidas pelos maridos penetravam em sua cabeça como se revivesse a dor que sentia quando o companheiro a espancava, em Fortaleza.

A gota d’água para começar a agir foi quando sua vizinha de barraco amanheceu com o rosto queimado pelo companheiro, grávida de oito meses, e que depois de um certo tepo deixou a comunidade. “Se eu não tomasse uma atitude começaria a ter notícias de mulheres morrendo. Foi então que junto com as amigas Patrícia e Cristiane passamos a fazer vigília à noite pela comunidade. Qualquer barulho de mulher sendo agredida a gente ia até o local e perguntava o que estava acontecendo”, conta.

Aos poucos as mulheres foram se unindo, e de repente já havia 100 delas trocando experiências e relatando as ocorrências em casa. Maria do Carmo então organizou uma rede de apoio mútuo em que denunciava e punia os agressores sem recorrer ao Poder Público. “A gente chamava a polícia, mas não resolvia muito. Registravam a ocorrência e iam embora”, lembra. Ficou decidido pelas mulheres que se um homem agredisse a companheira ele seria punido com a exclusão das únicas atividades de lazer do bairro, o bar e o jogo de futebol. Além disso, os agressores são submetidos até hoje a uma "disciplina" que consiste em abstinência sexual pelo prazo que a mulher determina. “Foram uns quatro ou cinco casos no começo, e a regra foi aplicada e fez efeito. O marido ficava em casa cuidando das crianças enquanto a mulher vinha aqui para minha casa, ou conversar, fazer churrasco”. Em quatro casos extremos, as mulheres foram para cima dos rapazes. Os quatro deixaram a comunidade.

DESTAQUE - A cada 15 dias as mulheres fazem reunião para relatar o se passa na comunidade e em seus lares, mas segundo Carmen, hoje em dia é quase zero a agressão às mulheres. “Muitos maridos me insultavam no começo. A gente queria combater a violência, e eles estavam enxergando ao contrário, como se estivéssemos contra eles”, avaliou a líder comunitária.

Tal experiência na Menino Chorão ganhou destaque durante o “I Fórum sobre Violência contra Mulher: Múltiplos olhares”, realizado no ano passado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e com a presença de Carmen contando a medida que deu certo.

As aulas e a farmácia

As paredes do barraco de madeira fina estão forradas de cartazes, desenhos e mensagens como “esse lugar é livre de machismo”, “eu divido as tarefas com a minha mãe” ou “para trabalhar e estudar por creche eu vou lutar”. Logo no canto direito da entrada um fogão e ao lado a pia. No centro do cômodo, quatro cadeiras com apoio de braço e um banco de madeira encostado em um birô, doado há um ano. Na lousa, escrito em giz colorido “Reforço. Professora Ariane. Tudo posso naquele que me fortalece”, e ao lado um armário com mais de 50 livros recebidos de doação, além de giz de cera e outros materiais escolares.

Ariane Beatriz da Silva Batista, de 16 anos, está com Alessandro, de um ano e quatro meses grudado ao seio, amamentando, enquanto pede a atenção dos alunos. Há um ano ela dedica todas as tardes a ocupar com aulas de reforço 15 crianças, cujas mães trabalham o dia todo. “Meu sonho é ser pedagoga, mas enquanto não estou estudando vou treinando como professora”, disse. Ela completou o ensino fundamental, e apesar da pouca idade, a didática e concentração que consegue das crianças maiores chamam a atenção. Ela interrompeu os estudos para cuidar do filho, e o leva junto para as aulas à tarde. Sua especialidade é a matemática.

Além dela, Leyse Farias, de apenas 13 anos, que está na 9ª série, é a professora que auxilia os menores, passando tarefas para que treinem caligrafia. “Também dou aulas de ciências, matemática e educação física (no campo de futebol feito pelas próprias mulheres)”. E emendou: “Como tinha muita criança na rua sem fazer nada a gente teve a ideia de fazer a escolinha”. Ambas falaram com Maria do Carmo, que levou a ideia até as mães, que então viram uma oportunidade de deixar seus filhos no contraturno da aula em um local de confiança, das 14h às 17h.

“Minha professora disse que minha letra está melhorado muito. Eu treino bastante”, garantiu Wellington Dias, de 12 anos, com Maria do Carmo ao lado comprovando o que dizia. Já o garoto João Lucas de Oliveira, de 9 anos, melhorou seu desempenho em matemática. “Em um ano podemos ver o progresso deles na escola, somente pelo fato de estarem aqui, treinando, lendo e não à toa na rua”, avaliou Carmen. A idade das crianças varia entre 4 e 13 anos, e enquanto os menores dividem as quatro cadeiras, os maiores têm somente o banco de madeira para se acomodarem. “Já entreguei para alguns vereadores um projeto desenhado a mão de uma escola que queremos construir aqui. Essa agora é uma das principais metas para a comunidade, e vamos conseguir”, acredita. Antes das aulas à tarde, as crianças tinham oficinas de dança, vídeo e outras atividades levadas por grupos de voluntários, ligados a universidades, coletivos e empresas. Essas pessoas continuam a frequentar assiduamente os eventos programados na Menino Chorão.

BAZAR - O local de chão batido estava forrado na última quarta-feira com sapatos, doados através de pedido da líder comunitária. Mais de 10 sacos de roupas também foram levados por anônimos até a sede da Menino Chorão. Maria do Carmo e outras meninas voluntárias estavam separando as peças antecipadamente para algumas mulheres, antes de colocarem hoje (domingo) para a venda no bazar, que vai durar até a última peça ser vendida.

“Essa campanha será para a gente arrecadar dinheiro para o lanche que servimos todas as tardes para as crianças. Vai ser nosso terceiro bazar, e da última vez com R$ 110 conseguimos comprar duas caixas de pão, sucos e patê, salsicha”. E por falar em salsicha foi durante uma das tardes de lanche, nesse ano, que pela primeira vez o pequeno Lucas de Jesus Santos, de 6 anos, comeu um cachorro quente. E, claro, adorou. “Ele tem mais 13 irmãos, e vive em uma situação realmente difícil”, explicou a professora Ariane.

FARMÁCIA - No mesmo barraco, dividindo a sala de aula, uma estante com divisórias abriga dezenas de remédios, para diversas enfermidades, numerados por categorias e catalogados em uma planilha, onde quem tem o controle são médicos voluntários que atendem as mulheres do bairro mais de uma vez por mês. Além deles, Ariane é encarregada de fornecer o medicamento aos que levam a prescrição médica.

“Temos um problema grave na região, pois o posto de saúde do Jardim Fernanda já atende muitas famílias. Uma universidade e um médico nos ajudaram com o medicamento e com profissionais para atender as nossas mulheres. As consultas pouco a pouco foram sendo marcadas e vimos que precisava de uma farmárcia. Temos muito controle, inclusive com os medicamentos vencidos”, mostrou Carmem.

Todas mulheres empregadas

O ano de 2015 ficará na história para Maria do Carmo e as suas companheiras de Menino Chorão. Desde janeiro a líder vislumbra com a boa notícia de que todas as mulheres, pela primeira vez desde a criação da comunidade, estão no mercado de trabalho. O caminho foi longo, mas Carmen sabia que a semente plantada durante uma reunião com as mulheres em setembro do ano passado daria resultado.

“Durante o ano passado percorri todo o Centro de Campinas anotando, tirando fotos e as vezes filmando os postos de trabalho possíveis para que as mulheres pudessem ocupar. Fui pessoalmente em uma ONG em Ourinhos ver como as mulheres eram encaixadas no mercado, desde catadoras de reciclagem até motoristas. Na reunião em setembro apresentei todo o material e senti que muitas se animaram”, contou Carmen. “A mulher tem que ser independente, principalmente para mostrar seus valores ao marido”, continuou.

No dia 5 de abril desse ano, quando Carmen fez 45 anos, a grande surpresa. Uma a uma, as mulheres, no total 40, foram até sua casa lhe presentear com lembranças compradas pela primeira vez com os próprios salários. “Missão cumprida”, resumiu, sem conseguir segurar o choro. Carmen está com um problema na coluna, e atualmente faz tratamento e não está trabalhando.

“Enquanto tem alguém tentando dar rasteira e me prejudicar, tem gente que está do meu lado tentando me levantar e prova que as minhas forças depositadas para elas estão dando resultado”. E assim, a comunidade Menino Chorão começa a esboçar os primeiros sorrisos.

Os caras lá de cima

A Justiça Federal extinguiu em março desse ano o processo de reintegração de posse de uma área destinada a ampliação de Viracopos movida pela Aeroportos Brasil Viracopos, em 2013. Com isso, as famílias que ocupam área nos bairros Cidade Singer e Jardim Columbia poderão permanecer na área. Os lotes existentes nos dois bairros serão utilizadas para a implantação de alças de acesso da Rodovia Santos Dumont ao aeroporto internacional. A decisão foi muito comemorada por todos os moradores, em especial por Carmen, que viu em 2011 quatro barracos sendo demolidos por aqueles que ela chama de “os caras lá de cima”. “Conseguimos a assinatura de nossas 200 mulheres e provamos que a terra tem dono”, disse. Embora seja uma vitória, a indefinição permanece na área, porque não houve julgamento do mérito na ação, e ainda poderá levar um longo caminho judicial.

Origem do nome Menino Chorão

O nome Menino Chorão foi intitulado por Carmen em 2012, após lideranças do Jardim Columbia entrarem em intensa discussão com a líder comunitária. “Haviam interesses que a gente nem gosta de comentar muito, mas então como nesse local começou inicialmente com os moradores de rua, fizemos a homenagem com o título da música de Noemi Nonato”, explicou Maria do Carmo. Muitos dos moradores de rua que viveram no local e que hoje estão empregados, foram levados até a comunidade pela própria Carmen. “A gente tinha muitos roubos aqui no início. Então fomos até o Centro de Campinas e trouxemos para morar em um barraco. Em troca, quatro deles se revezavam em rondas pela comunidade”, conta. A notoriedade do trabalho que Carmen tinha desenvolvido com os moradores de rua, chegou até Alexandre Magno Abrão, o Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr., que aos 42 anos morreu em 2013 por overdose de cocaína. Chorão esteve em duas ocasiões na comunidade, em 2011, quando levou lonas, marmitas e outros mantimentos que os moradores precisavam. “Ele procurou os moradores de rua no Centro e ficou sabendo que eles tinham vindo para cá. Então ele e uma equipe chegaram até nós e por muito tempo nos ajudou”. A ajuda de Chorão aos moradores e mais a letra da música de Menino Chorão, da cantora e atual vereadora de São Paulo, Noemi Nonato, encaixaram perfeitamente naquela recente comunidade.

Trecho da letra Menino Chorão

Bateram em minha porta

E eu fui atender,era um menino que já venho pedindo

Moça eu quero comer

Perguntei sua história,sua casa onde mora?

Onde estuda você?

"Moça eu moro na rua, só o sol e a lua é quem sempre vem me ver"

"Moça eu passo mal, minha cama é um jornal"

Acredite você, minha mãe me esqueceu, o meu pai já morreu, é o que eu ouço alguém dizer: “Menino chorão, pede um pedaço de pão”

E ninguém lhe dá.

Escrito por:

Gustavo Abdel