Publicado 03 de Junho de 2015 - 12h40

Por Delminda Aparecida Medeiros

Sangue Azul

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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“Um filme para falar sobre o amor, sobre a impossibilidade do amor.” Assim o pernambuco Lírio Ferreira, diretor do longa Sangue Azul, sintetiza o filme que entra hoje em circuito comercial. Produzido por Renato Ciasca, da Drama Filmes, o longa teve pré-estreia na terça-feira na Casa do Lago da Unicamp, seguida de debate com o diretor e o produtor. Rodado em Fernando de Noronha e ambientado em grande parte sob a lona de um circo, o filme faz uma analogia com o isolamento de quem vive numa ilha. “Geograficamente temos a ilha externa – Noronha – e uma outra interna que é o circo. É uma ilha dentro de outra ilha”, diz Ferreira.

“A partir desses dois universos a história foi se criando, se enredando, tendo como ponto de partida a lenda dos dois irmãos, a impossibilidade do amor entre eles. Queria contar essa história de forma que não mexesse com “verdade absoluta”, com a questão da culpa. E a ilha tem a característica da pessoa não ter para onde correr. É a boca de um vulcão. Então é uma história de amor numa panela de pressão”, explica Ferreira.

A lenda dos dois irmãos ou lenda do pecado é sobre dois gigantes, antigos moradores, que viveram um romance clandestino e foram castigados pelos deuses. O órgão genital dele e os seios dela foram petrificados e seriam hoje o Morro Dois Irmãos e o Morro do Pico.

Sangue Azul conta a história de Rosa, que temendo uma relação incestuosa entre os filhos Pedro e Raquel - talvez por influência da lenda do pecado – entrega a guarda do menino, então com 10 anos, ao dono de um circo, para ser levado ao continente. Vinte anos depois Pedro volta à ilha com o nome artístico de Zolah, o homem bala, estrela do circo Netuno, para rever sua terra e resgatar seu passado.

O filme mostra o encantamento e estranhamento dos ilhéus com o povo do circo, a aproximação dos irmãos, os conflitos dos artistas circenses, as paixões e a mistura de alegria e temor de Rosa com a presença do filho na ilha. A paisagem paradisíaca de Noronha funciona por vezes como mais um personagem.

Daniel de Oliveira encabeça um elenco com nomes de peso como Sandra Corveloni, Caroline Abras, Matheus Nachtergaele, Paulo César Pereio, Milhem Cortaz, Rômulo Braga e Ruy Guerra, entre outros. A subida da lona do circo em preto e branco, logo no início, sugere o tom poético do filme, que explora ainda o erotismo da lenda do pecado em diversas cenas eróticas. O isolamento da ilha também se reflete na dificuldade de comunicação entre os personagens. O elenco como um todo está homogêneo e com bom desempenho, com destaque para Daniel de Oliveira, Matheus Nachtergaele e Sandra Corveloni.

Sócio de Beto Brant na produtora Drama Filmes, o diretor, produtor e roteirista Renato Ciasca conta que conhece Lírio Ferreira há muitos anos e juntos já fizeram planos de outros filmes que acabaram não se concretizando, até o encontro para Sangue Azul. “O longa coincidiu com a linha de trabalho da Drama Filmes, de buscar produções que tenham viés artístico não apenas de entretenimento, mas de propor uma discussão, de deixar dúvidas no espectador para que ele pense no filme depois de sair do cinema”, afirma Ciasca

A trilha sonora do longa foi elaborada por Pupillo, baterista da Nação Zumbi, com composições próprias e outras em parceria com Arto Lindsay, Vitor Araújo, Otto e Carlos Fernando, além de alguns clássicos. Sangue Azul ainda faz, por tabela, uma homenagem à sétima arte. A primeira e a última fala do filme são ditas, respectivamente, por Paulo César Pereio e Ruy Guerra, dois ícones do cinema brasileiro.

Saiba mais

Lançado em 2014, Sangue Azul participou de alguns festivais e teve sessões especiais em várias capitais brasileiras, antes de entrar em circuito comercial. No Festival do Rio 2014 recebeu o prêmio Redentor de melhor filme de ficção da Première Brasil, além de melhor diretor e ator coadjuvante para Rômulo Braga. No Paulínia Film Festival, também no ano passado, a fotografia de Mauro Pinheiro e o figurino de Juliana Carapeba receberam o prêmio máximo nas suas respectivas categorias. No Festival de Berlim 2015, o filme abriu a prestigiada seção Panorama, em exibição hors concours. (DM/AAN)

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Delminda Aparecida Medeiros