Publicado 01 de Junho de 2015 - 21h02

Por Inaê Miranda

ÍíFOTOS: Camila Moreira

Inaê Miranda

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A Câmara de Vereadores de Campinas teve mais um dia marcado por tumulto envolvendo a proposta de emenda à Lei Orgânica que trava qualquer discussão sobre a Ideologia de Gênero dentro do Plano Municipal de Educação. Na audiência pública realizada ontem à tarde houve empurra-empurra e troca de ofensas entre manifestantes e parlamentares. O grupo contrário à proposta do vereador Campos Filho (DEM) também promoveu um “beijaço” no plenário e uma “chuva de purpurina”. Na próxima segunda-feira, a emenda deve ser votada em relação à legalidade e, na semana seguinte, quanto ao mérito.

A audiência teve início às 15 h. Antes disso, manifestantes favoráveis e contrários à proposta formaram fila do lado de fora da Câmara. Cerca de 250 pessoas lotaram o plenário e todos passaram por revista da Guarda Municipal (GM). Grupos de opiniões diferentes procuraram sentar em lados opostos, mas a todo o momento houve enfrentamento, empurrões e trocas de ofensas. Logo no início, um grupo de manifestantes realizou um beijaço, como forma de protesto à emenda. Ao longo da audiência, por diversas vezes, as falas dos convidados foram interrompidas e a GM precisou ser acionada para separar tumulto. Em um desses momentos, o grupo favorável à ideologia de gênero disse que sofreu discriminação racial de uma integrante do grupo contrário.

Juízes, estudantes, professores e representantes de coletivos convidados para participar da audiência emitiram suas opiniões em um tempo de 5 minutos para cada um, mas a confusão não permitiu que a discussão avançasse. Os convidados favoráveis à emenda defendiam os valores das famílias, que a ideologia de gênero poderia trazer como consequências a subtração da autoridade dos pais, acabar com o referencial da sexualidade e dizimar a humanidade. “As consequências da neutralização são a a perda de identidade, não somente sexual. A pessoa começa a ficar confusa e não sabe mais quem ela é. A segunda consequência é a desconstrução da maternidade”, afirmou Adelice Godoy, do Observatório Interamericano de Biopolítica.

Os participantes da audiência contrários à emenda defendiam que o debate nas escolas pode ajudar a reduzir o preconceito, a discriminação e a violência. “Não admito manifestação de machismo, racismo e homofobia na sala de aula. Na escola, dia a dia vemos violência. O professor tem direito de esclarecer tudo o que for dito na sala de aula para formar uma consciência que diga não à violência. Eu, como professor, sempre debati opressão e gênero e vou continuar debatendo. Aprovar uma emenda como essa é sujar as mãos de sangue”, afirmou o professor de escola pública Danilo Paris. Pilar Guimarães, do Coletivo das Vadias “é preciso promover esse debate nas escolas porque crianças e adolescente precisam construir desde cedo noções de respeito”.

Durante a audiência, um grupo de manifestantes jogou purpurina nas pessoas que estavam no plenário e nem o juiz Fábio Toledo, que se mostrou contrário à ideologia de gênero, escapou. “O que me trouxe aqui e a favor do debate não é jamais qualquer forma de discriminação com relação a homossexual, mas contra uma postura ideológica que a ideologia de gênero tem: que o ser humano é um simples livro aberto, não é nem homem, nem mulher, nem nada. É algo que vai ser determinado ao sabor das circunstâncias da sua vida e das suas escolhas. Nessa concepção de ser humano eu não acredito. Eu acredito que grande parte do ser homem e do ser mulher é dado pelo contexto social e cada homem e cada mulher tem uma natureza que já lhe é dada”, disse o juiz.

Thiago Ferrari, que presidiu a audiência, disse que por se tratar de um tema polêmico, estuda realizar outra audiência. “Infelizmente o tempo foi pequeno. “Pretendo conversar sobre a possibilidade da gente chamar outra audiência porque entendo que o tema é importante e que tem muitas pessoas que querem se manifestar acerca do assunto”. Segundo o autor da proposta de Emenda, o vereador Campos Filho, ela deve seguir para votação da legalidade na próxima segunda-feira. “Não queremos que crianças decidam na escola se vão ser meninas ou meninos”.

Retranca:

O vereador Cid Ferreira (SDD) voltou a se envolver em polêmica ao fazer declarações, desta vez, consideradas racistas. Em um confronto verbal com um manifestante negro, ele afirmou que o rapaz era feio e ele era bonito. Que ele tinha os olhos azuis e o rapaz não. “Também fez gestos com o nariz mostrando o quanto era fino e eu respondi que não vim debater beleza e sim a emenda da opressão”, afirmou Fernando Moraes, do coletivo Raízes da Liberdade. Na última quarta-feira, ele dividiu a plateia em "Deus" e "Diabo" e "Céu e Inferno" . "Deus está aqui e o diabo está lá . Nós vamos para o céu e vocês para o Inferno", afirmou. O vereador Paulo Búfalo disse que ouviu as declarações de ontem e que pediria as gravações da câmera. “São graves e nós precisamos ter respeito com a população que esteve aqui. Visivelmente, as palavras, os gestos dirigidos aos manifestantes aqui, no meu ponto de vista, tem cunho racista, homofóbico, machista e acho que é um registro importante se a câmera de fato captou as imagens”. Ele ressaltou ainda que com o material em mãos irá avaliar e que vai orientar os manifestantes que se sentiram atacados entrar com um requerimento de comissão de representação contra o parlamentar. “Eles próprios podem tomar essa iniciativa. Pode haver quebra de decoro, pelo nível de tratamento das relações”. Também na quarta-feira, enquanto um grupo virou as costas para a bancada, o vereador Jorge Shneider (PTB) saltou com a frase: "Isso, virem de costas, essa é a especialidade de vocês" , disse o petebista. A declaração foi vista como homofóbica, mas depois o vereador se explicou e disse que na verdade ele fez referência a uma situação anterior em que manifestantes viraram as costas para ele.

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Inaê Miranda